O movimento migratório conhecido como êxodo nordestino marcou a história do país entre as décadas de 1950 e 1980. Nesse período, milhões de pessoas deixaram estados do Nordeste e se deslocaram para o Sudeste em busca de trabalho e melhores condições financeiras.
Atualmente, uma nova geração de empreendedores tem desenvolvido soluções inovadoras a partir da própria realidade nordestina. Mesmo com dados do Censo apontando que entre 2010 e 2022 o número de nordestinos vivendo fora da região passou de 9,55 milhões para 10,37 milhões, novos empreendedores locais se projetam e conquistam destaque nacionalmente. Entre eles está a baiana Monique Evelle, fundadora da plataforma de educação empreendedora Inventivos. A trajetória da executiva reflete um Nordeste cada vez mais conectado à inovação e ao empreendedorismo.

“A Inventivos nasceu em Salvador, está em Salvador, e atende o Brasil todo, inclusive clientes de São Paulo. Então, na prática, a gente já desmontou esse argumento de que empresa nordestina precisa migrar para o eixo Rio-São Paulo para ser relevante nacionalmente. A Inventivos é a prova viva de que não precisa”, comenta a empreendedora.
Monique ainda destaca que no Nordeste o empreendedor passa muito mais tempo provando que existe antes de provar que é bom. “Você precisa vencer a descrença antes de vencer o mercado. E isso tem um custo enorme de tempo, de energia, de autoestima”. Para a executiva, a diferença (entre as regiões) não é de talento e sim de infraestrutura e de confiança. “Em São Paulo, existe uma cadeia já estabelecida, ou seja, investidor conhece a aceleradora, aceleradora conhece fundador da empresa, fundador consegue reunião”, diz.
Entre os empreendedores nordestinos que ganharam reconhecimento nacional está Breno Nogueira, fundador da Escola do Breno. O maranhense apostou em uma planilha pessoal para organização financeira e faturou R$ 4,5 milhões em 2025. Arthur Frota também é destaque nesta lista. Em 2017, o cearense criou a startup Tallos, focada em soluções de atendimento digital e “conversational commerce”. O empreendedor iniciou o negócio no Nordeste, desenvolvendo uma tecnologia escalável. A startup se destacou no ecossistema de inovação do Porto Digital em Recife e foi adquirida pela RD Station.
Camila Farani, paraibana e fundadora da G2 Capital, é uma das principais investidoras-anjo do Brasil. A executiva participou de seis temporadas do programa Shark Tank Brasil e, por meio da Farani Escola de Negócios, promove educação e desenvolvimento no setor empresarial. Camila possui investimentos em cerca de 50 empresas, gerando mais de 15 mil empregos. “Muito

do que conquistei se deve ao meu esforço e estudo, mas certamente as conexões que fiz ao longo da minha trajetória foram muito importantes.” Em um artigo publicado recentemente, Camila diz que empreender não é sobre ser indispensável. “É sobre criar processos que funcionem sem depender exclusivamente de você. Negócios que crescem sustentavelmente são aqueles que se constroem com uma equipe capaz e treinada”, pontua.
Monique Evelle, baiana e mulher preta, lembra, no entanto, que o acesso a capital no Brasil é relacional, e as relações de poder são estruturalmente excludentes. “Quando você é uma mulher nordestina numa sala de investidores em São Paulo, você precisa gerenciar a percepção antes mesmo de abrir a boca. As fundadoras recebem perguntas de prevenção, enquanto fundadores recebem perguntas de promoção. Agora some isso com sotaque, com origem, com cor da pele. O impacto na inovação é direto, a gente perde soluções inteiras porque as pessoas que têm as melhores perguntas não conseguem chegar às mesas onde as respostas são financiadas”, finaliza a fundadora da Inventivos.