
O Nordeste brasileiro enfrenta um conjunto de desafios estruturais que comprometem seu desenvolvimento econômico e social. Questões climáticas, déficits históricos em infraestrutura básica, indefinições jurídicas e entraves regulatórios formam um cenário complexo que exige atenção urgente de gestores públicos, empresários e sociedade civil. Algumas das preocupações para o futuro da região são:
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Safra 2025/26
O agronegócio nordestino vive um momento de expectativas divididas para a safra 2025/26. A volta da umidade após estiagens severas desde meados de 2023 é recebida como alívio em regiões estratégicas do Matopiba, agreste e semiárido produtivo. A La Niña, fenômeno que costuma elevar as precipitações no Norte e no litoral nordestino, promete recuperação hídrica para áreas castigadas pela seca.
Essa mesma umidade, porém, traz riscos consideráveis. O Instituto Nacional de Meteorologia prevê volumes acima do padrão histórico no trimestre novembro-janeiro em grande parte da região, principalmente nos estados do Maranhão, Piauí e Ceará. Os impactos podem incluir alagamentos, encharcamento do solo, compactação em áreas onde operações continuam mesmo sob umidade excessiva, proliferação de patógenos favorecidos pelo calor e umidade, redução das janelas de plantio e perda de qualidade caso as chuvas intensas se estendam até março.
Consultorias especializadas já reduziram projeções para a colheita de soja, citando irregularidade climática e atrasos generalizados no plantio em todo o país acima de Minas Gerais. Estudos baseados em séries históricas mostram que a Bahia está entre os locais mais sensíveis às oscilações climáticas. Em anos de La Niña, municípios vulneráveis registram perdas expressivas por excesso ou falta de água.
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Saneamento básico
O Nordeste enfrenta uma crise severa de saneamento básico, concentrando a maioria das cidades com piores indicadores do país. Segundo o Ranking do Saneamento 2025, capitais como São Luís (com apenas 15,89% de tratamento de resíduos), Teresina, Maceió e outras ocupam as últimas posições. Cerca de 35% da população regional não tem acesso a esgotamento sanitário e 20% carece de água potável regular.
A desigualdade regional é expressiva: enquanto as 20 melhores cidades do Brasil têm 99% de cobertura de água e 97,4% de coleta de esgoto, as 20 piores registram apenas 81,5% e 30%, respectivamente. O investimento anual por habitante no Nordeste é de R$ 82,18, três vezes inferior aos R$ 223,82 considerados necessários e ainda muito abaixo dos R$ 176 aplicados nas cidades melhor ranqueadas.
Essa precariedade gera impactos sociais diretos: moradores sem acesso ao saneamento têm escolaridade média de 6,71 anos (contra 8,49 sem acesso) e renda de R$ 1.450 (contra R$ 2.130). O Marco Regulatório de 2020 estabeleceu que o saneamento deveria ser universalizado até 2033, demandando um investimento de R$ 100 bilhões para o Nordeste, de um total nacional de R$ 400 bilhões. No ritmo atual, as metas levariam mais de 40 anos para serem alcançadas. Agravando o cenário, a Reforma Tributária de 2024 retirou o saneamento da lista de serviços com alíquota reduzida, podendo encarecer o acesso e comprometer as metas de universalização.
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Inadimplência de CBIOs
O mercado de Créditos de Descarbonização (CBIOs) viu a inadimplência crescer exponencialmente em 2025. Existem atualmente 161 empresas certificadas pela Agência Nacional do Petróleo e ao menos 60 delas estão inadimplentes. A falta de pagamento coloca em xeque a viabilidade do programa RenovaBio, principal ferramenta do governo brasileiro para fomento da produção e consumo de biocombustíveis.
As maiores empresas do setor alegam que estão operando com prejuízo, argumentando que distribuidoras que não precisam comprar CBIO têm uma despesa a menos e conseguem oferecer combustível mais barato em um mercado hipercompetitivo onde cada centavo é disputado. A discussão mais ampla que se coloca é se o RenovaBio é ou não para valer, considerando que algumas empresas cumprem suas obrigações enquanto outras simplesmente ignoram as metas.
Quando 60 distribuidoras de 160 estão em desconformidade com a legislação, há um desafio a aplicação da política pública. É um momento importante de entender a capacidade do programa para contribuir efetivamente com a transição energética. Até a criação do Combustível do Futuro, o RenovaBio era grande promessa para a transição energética brasileira, como política que cria incentivos de mercado. Quem parece perder mais com esse tensionamento é o próprio desejo brasileiro por transição energética.
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Líder em desemprego
Apesar da queda pontual no desemprego, o Nordeste manteve em 2025 as maiores taxas de desocupação do Brasil. O desemprego na região chegou a 8,2% no segundo trimestre, o mais alto entre todas as regiões do país, enquanto a média nacional ficou em 5,8%. Pernambuco mantém a pior situação, com uma taxa de 10,4%, seguido pela Bahia com 9,1%. Embora estados como Rio Grande do Norte (7,5%), Paraíba (7%), Alagoas (7,5%) e Sergipe (8,1%) tenham alcançado o menor índice da série histórica iniciada em 2012, esses números ainda superam significativamente as taxas de Santa Catarina (2,2%), Rondônia (2,3%) e Mato Grosso (2,8%).
Mais grave do que o desemprego visível é a subutilização da força de trabalho. O Nordeste lidera esse indicador, que inclui desempregados, subocupados por insuficiência de horas e pessoas na força de trabalho potencial: Piauí registra 30,2%, Bahia 27% e Sergipe 26%, frente a uma média nacional de 14,4%. Há ainda uma parcela da população que desistiu de procurar emprego, a região também concentra os maiores índices de “desalentados”: Maranhão (9,3%), Piauí (7,1%) e Alagoas (6,9%), comparado a uma média nacional de 2,5%.
A informalidade permanece crítica: no Brasil a taxa foi de 37,8%, mas no Nordeste superou 50%, com destaque para o Maranhão 56,2% e na Bahia 52,3%. Isso significa que mais da metade dos trabalhadores dessas regiões não possuem carteira assinada, trabalhando sem direitos trabalhistas, férias remuneradas ou aposentadoria garantida. O rendimento médio real no Nordeste foi de R$ 2.404 no segundo trimestre, enquanto no Sudeste alcançou R$ 3.914, uma diferença de R$ 1.510 mensais que se mantém estável entre 2012 e 2025, refletindo desigualdades estruturais.
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Mortalidade de corais
Os recifes da Costa dos Corais, que se estendem entre Alagoas e Pernambuco, enfrentam mortalidade alarmante, com áreas de recifes rasos perdendo até 80% de sua biodiversidade. O aquecimento global, a poluição e o turismo desordenado são os principais responsáveis pela degradação desse ecossistema vital, ameaçando a pesca e o turismo que sustentam a economia local.
A elevação da temperatura das águas do oceano tem causado o branqueamento dos corais, fenômeno em que os organismos perdem sua coloração e se tornam mais suscetíveis a doenças. A região abriga a segunda maior barreira de corais do mundo, mas os efeitos climáticos têm sido devastadores para esse patrimônio natural.
A degradação dos recifes gera efeitos em cascata que vão muito além da perda paisagística. Os corais funcionam como berçários naturais para centenas de espécies de peixes e crustáceos que sustentam a pesca artesanal, principal fonte de renda para milhares de famílias costeiras em Alagoas e Pernambuco.
A redução dos estoques pesqueiros força muitos pescadores a se aventurarem cada vez mais longe da costa, aumentando custos operacionais e riscos à segurança. A morte dos corais compromete ainda a proteção natural da costa contra erosão e tempestades, intensificando o avanço do mar sobre áreas habitadas e infraestrutura costeira.
