
A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima uma colheita da primeira safra de grãos de 2025/2026 de 353,4 milhões de toneladas, um crescimento de 0,3% em relação ao volume obtido no mesmo período do ano passado. O número, que mantém a perspectiva de recorde na série histórica, conta com uma grande participação do Nordeste, que representa 9% da produção nacional.
Segundo o 5º levantamento da Safra de Grãos para a atual temporada, a área plantada deve chegar a 83,3 milhões de hectares, um avanço de 1,5 milhão de hectares ou 1,9% em relação ao ciclo passado. Por outro lado, a produtividade média nacional das lavouras aponta para um possível recuo de 1,5%, saindo de 4.300 Kg/ha para 4.244 em 2025/26.
Em contrapartida, o Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA) divulgado pelo IBGE, aponta para uma redução na safra 2026: 339,8 milhões de toneladas, com uma redução estimada em 1,8% (ou menos 6,3 milhões de toneladas), frente a 2025.
Segundo a equipe técnica da Conab, as diferenças se explicam pelas diferenças na metodologia e na abrangência de produtos pesquisados. De acordo com a Conab, a companhia prioriza o modelo de ciclo curto, ou seja, que aproxima a produção do consumo, associado à justiça ambiental e social, com ações em investimentos de maquinários, assistência técnica rural e tecnologia adequada ao meio ambiente produtivo.
“A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) participa ativamente das políticas de segurança alimentar e nutricional, do abastecimento alimentar e da agroecologia e dos produtos orgânicos, que têm características únicas quando se observa o nutricional e o saudável como foco nos seus objetivos centrais. Seu foco é para a agricultura familiar, os povos e comunidades tradicionais, indígenas, quilombolas e assentados da reforma agrária”, afirma a Conab em nota enviada ao Investindo Por Aí.
Quanto às culturas, os números do Conab apontam para um novo recorde da soja em comparação ao ciclo passado (aumento de 6,5 milhões de toneladas). As oleaginosas também tiveram um crescimento em relação ao mesmo período do ano passado, contudo, se manteve abaixo da média dos últimos cinco anos. Por outro lado, os números da Conab apontam para um recuo nas produções do milho, cereal, arroz, feijão e algodão.
Weslley Cabral, assessor técnico da FAEPA -PB, acredita que as projeções para a safra do Nordeste 2025/2026 são positivas. Ele entende que o Nordeste vem mostrando força agrícola, principalmente através da região conhecida como Matopiba, formada pelos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Weslley destaca que, segundo levantamentos de órgãos especializados, o Nordeste deve registrar um aumento da produção de grãos em torno de 4,4% em relação ao ano anterior, superando a média nacional. Enquanto o Brasil projeta uma manutenção ou leve retração em alguns estados do sul e centro-oeste.
“Muito desse cenário se deve a região do Matopiba, que continua sendo o motor agrícola do Nordeste, respondendo por mais de 90% da produção de grãos da região”, explica o assessor.
Matopiba
A região do Matopiba ganhou notoriedade a partir da segunda metade dos anos 1980, quando ocorreu uma forte expansão agrícola, especialmente no cultivo de grãos. Conhecida pela colheita de culturas como soja, milho e algodão, o Matopiba corresponde por cerca de 10% a 11% da produção nacional de grãos. Segundo dados da Embrapa, a parcela baiana da região é a segunda maior produtora brasileira de soja, atrás apenas do estado do Mato Grosso.
A maior parte da região está localizada no bioma do Cerrado (cerca de 91% da área total), consequentemente, o Matopiba possui um predomínio do clima tropical semiúmido, com temperaturas médias acima de 18ºC em todos os meses do ano e períodos de seca entre 4 e 7 meses.
Os longos períodos sem chuva e o calor intenso são preocupações que afligem produtores agrícolas de várias áreas da região Nordeste. Para Weslley, o maior problema não está na quantidade de chuvas, mas sim na má distribuição. “Sabemos bem que a região Nordeste é a região que menos chove no nosso país. O problema não é a quantidade de chuvas, mas sim a má distribuição. Chove muito em poucos dias e em outros dias, sol intenso, seca, reservatórios baixando o seu volume d’água”, explica Cabral.
O assessor técnico da Faepa ainda comenta que a maior preocupação para a produção agrícola de 2026 será a transição climática no segundo semestre. Enquanto a primeira parte do ano é marcada por chuvas no Cariri, no Sertão e no Agreste do Nordeste, os últimos seis meses tendem a diminuir a quantidade de precipitações e, por consequência, ter pouco volume de água nessas regiões.
As chuvas do primeiro semestre deste ano na região Nordeste podem ter sido potencializadas pelo fenômeno do La Niña, que corresponde ao resfriamento da faixa Equatorial Central e Centro-Leste do Oceano Pacífico. Ele é estabelecido quando há uma diminuição igual ou maior a 0,5°C nas águas do oceano e no Norte e Nordeste do país se manifestam com elevações no número de chuvas.
Apesar de geralmente estar associado a recordes na safra, o aumento das chuvas e o excesso de umidade podem trazer prejuízos para produtores, que costumam adotar medidas de precaução que vão desde a escolha das culturas até a técnicas de colheitas.
Contudo, a maior preocupação dos produtores já não é com a La Niña, que deve estar se encerrando nos próximos dias, mas sim com o clima após o fenômeno. “O excesso de chuva de fevereiro de 2026 não atrapalha a próxima safra, na verdade, ele salva os reservatórios e aumenta as reservas de água no subsolo. O que pode atrapalhar a próxima safra é a virada climática prevista para o segundo semestre”, explica Cabral que afirma que quem conseguir armazenar bem essa água do La Niña e planejar o manejo do solo de forma inteligente, estará mais protegido para a possível chegada do El Niño, caso o fenômeno se confirme ao final do ano de 2026.
Ao contrário do La Niña, o El Niño se caracteriza pelo aquecimento das águas superficiais no Oceano Pacífico Equatorial. No Nordeste, ele se manifesta causando secas,chuvas irregulares e aumento de temperaturas.
Outro desafio para os produtores agrícolas da região é o trato com o solo. A região de Matopiba é marcada por vastas extensões de solos arenosos e com a presença de cascalhos em sua matriz, que são obstáculos para o desenvolvimento da agricultura.
Para superar estas condições são recomendadas, segundo a Embrapa, ações como a calagem, o uso de gesso agrícola, a adoção de práticas conservacionistas, além da rotação de culturas para a saúde do solo. Além disso, a própria empresa afirma conduzir testes de materiais genéticos, bem como técnicas relacionadas com o aproveitamento máximo da janela de chuvas da região.

