
Enquanto o hemisfério norte busca alternativas drásticas para cumprir metas climáticas rigorosas, o capital escandinavo encontrou nos ventos e no sol do Nordeste brasileiro o solo mais fértil para a sua expansão global. O relatório Norway in Brazil Investment and Trade Report 2025 aponta que a Noruega se firmou como o sétimo país que mais investe em território nacional, com um aporte médio de US$ 6 bilhões anuais. Essa movimentação financeira posicionou o Brasil como o segundo principal destino dos investidores noruegueses no mundo, perdendo apenas para os mercados europeus vizinhos. Em visita recente a Fortaleza, o cônsul da Noruega no Brasil, Jen Olesen, foi enfático ao afirmar que o Nordeste é uma área que tem crescido muito e que o seu país está com as atenções voltadas para esse desenvolvimento. O diplomata reforçou que a intenção é transformar essa proximidade em um fluxo permanente de cooperação técnica e cultural, ultrapassando a mera relação comercial de balcão.
A sinergia entre o frio nórdico e o calor tropical ganha contornos práticos por meio de gigantes como Statkraft, Equinor e Hydro Rein, que já operam projetos estruturantes de energia limpa na região. Segundo Marcos de Castro, especialista em comércio exterior, essa parceria se sustenta em vocações que são simultaneamente similares e complementares. Ao destacar a importância de criar uma câmara de comércio específica para os países escandinavos no Ceará, ele ressaltou que o estado e nações como Noruega, Suécia e Dinamarca compartilham competências na navegação e na prospecção de petróleo, enquanto divergem positivamente no clima, o que gera oportunidades únicas de troca tecnológica. Ao ser questionada sobre a prioridade máxima dada à região, a representação que faz a ponte com o consulado norueguês, destaca que a “transição energética global exige escala e previsibilidade, elementos que o Nordeste oferece em abundância para a indústria de baixo carbono”.
Soberania verde
A proposta norueguesa no Brasil não se limita ao financiamento de parques eólicos ou solares, mas foca na transferência tecnológica que pode converter o Nordeste em um exportador global de energia sustentável. Esse modelo de desenvolvimento inspira planos estaduais ambiciosos, como o de Sergipe, que busca replicar o sucesso norueguês na gestão de recursos naturais para criar o que técnicos locais chamam de a Noruega do Nordeste. A ideia central é transformar a exploração de petróleo e gás em águas profundas em um vetor de soberania energética e poupança estratégica, nos moldes do fundo soberano escandinavo que utiliza a riqueza mineral para diversificar a economia e garantir o bem-estar social das futuras gerações.
Essa maturidade institucional exige uma governança sólida e um marco regulatório transparente para atrair capital estrangeiro de longo prazo. A estratégia detalhada no relatório de 2025 mostra que os investimentos noruegueses buscam territórios que alinhem segurança jurídica com capacidade de inovação tecnológica. No Ceará, a articulação para formalizar uma câmara de comércio escandinava é vista pelo cônsul Jen Olesen como o passo definitivo para sistematizar esse intercâmbio comercial e garantir que o Nordeste permaneça no topo das prioridades da Innovation Norway. Para os especialistas em transição energética, o capital norueguês atua como um catalisador que reposiciona a região no mapa global de investimentos sustentáveis, transformando o potencial natural em geração de empregos qualificados e inserção internacional competitiva.
O sucesso dessa cooperação depende de uma inteligência territorial que consiga equilibrar o crescimento econômico com a proteção ambiental e a responsabilidade fiscal. O case norueguês demonstra que o planejamento de Estado deve ser uma política de longo prazo, protegida das oscilações políticas imediatas para assegurar a confiança do investidor. Jen Olesen reforçou em Fortaleza que a Noruega pretende realizar eventos técnicos e culturais anuais para estreitar esses laços, sinalizando que a presença escandinava no Nordeste é um compromisso estrutural. Ao fim e ao cabo, o que se desenha nos relatórios e nas visitas diplomáticas é a consolidação de um novo eixo econômico onde o Nordeste deixa de ser apenas um fornecedor de recursos brutos para se tornar o cérebro e o motor da nova economia verde brasileira.