A proliferação de data centers pelo Nordeste brasileiro ganha, em Pernambuco, mais um player que busca se reposicionar estrategicamente para atrair investimentos do setor. A terra do frevo aposta na posição geográfica de Recife e na infraestrutura de Suape como diferenciais para empresas de tecnologia.
O projeto pernambucano tem dois objetivos claros: a descentralização e o fortalecimento da infraestrutura digital. Para isso, o estado aposta em datas centers, como centros de processamento de dados, armazenamento, processamento e distribuição para o usuário final ou para empresas, e a infraestrutura de conectividade, que é a rede de cabos lógicos terrestres e submarinos.
Apesar do interesse pernambucano em explorar os data centers de inteligência artificial, o estado pretende ir muito além da IA. Em entrevista ao Investindo Por Aí, Guilherme Cavalcanti, secretário executivo da secretaria de desenvolvimento econômico do estado de Pernambuco, contou que para construir um ecossistema digital, como é o objetivo do estado, é preciso fazer investimentos em modelos diferentes de data centers. Desde os de pequeno porte, que tratam de uma demanda feita diretamente pelo usuário final, até aos de grande porte, que são os hyperscale, que estão sendo concebidos mundo afora para atender demanda de inteligência artificial, ou seja, de treinamento dos modelos de IA. Não se pode deixar de fora, claro, os de médio porte, aqueles que vão armazenar os dados das empresas.
O gestor conta que mesmo não sendo o foco total do estado, é muito importante atrair os data centers de hyperscale até mesmo como estratégia para viabilizar a infraestrutura geral.
“É como se fosse uma loja âncora de um shopping, sabe? Ela ajuda a viabilizar a infraestrutura toda do shopping. Então quando você tem um data center âncora, que é um de grande escala, muito provavelmente para treinamento de modelo de inteligência artificial, ele traz consigo um fortalecimento muito robusto da infraestrutura de conectividade”, afirma Guilherme.
Na análise do professor do departamento de economia da UFPE, José Carlos Cavalcanti, ainda é muito cedo para afirmar que Pernambuco está caminhando para se especializar em data centers de inteligência artificial. Contudo, ele afirma que há iniciativas fragmentadas e dispersas que podem, eventualmente, levar a tal posicionamento estratégico no futuro.
O professor citou uma iniciativa da empresa Um Telecom (empresa de infraestrutura de serviços digitais), que anunciou recentemente que está articulando uma parceria público-privada para implantação de cabos submarinos com destino ao Estado de Pernambuco como parte de uma estratégia para consolidar Recife como novo hub de dados do país. José Carlos ainda comentou o posicionamento do governo federal para atrair mais data centers. Ele chamou a atenção para o “Plano Nacional dos Data Centers”, que visa atrair cerca de R$2 trilhões em investimentos ao longo de dez anos. Um dos principais mecanismos do plano é o “Regime Especial de Atração de Data Centers (REDATA)”, um regime tributário especial em elaboração que prevê a isenção ou redução de tributos federais sobre a compra e importação de equipamentos essenciais. Além disso, a política também inclui incentivos fiscais adicionais, como a redução de impostos sobre energia, IPTU e importação, além da oferta de linhas de crédito públicos, como a já existente de R$ 2 bilhões do BNDES.
O REDATA, instituído por meio de medida provisória faz parte da chamada “Política Nacional de Data Centers (PNDC)”, que busca impulsionar áreas estratégicas da Indústria 4.0, como computação em nuvem, inteligência artificial e Internet das Coisas, ao oferecer incentivos fiscais e estabelecer contrapartidas sustentáveis. Ela faz parte da chamada “Nova Indústria Brasil (NIB)”.
A NIB é a política industrial lançada pelo governo federal em janeiro de 2024, com o objetivo de impulsionar o desenvolvimento da indústria nacional até 2033, em resposta à desindustrialização do país e com foco em “neo industrialização”, sustentabilidade e inovação.
Um dos objetivos do governo federal é descentralizar e diversificar os investimentos de data centers no Brasil. Atualmente, 85% dos data centers brasileiros estão em São Paulo, 10% no Rio de Janeiro e 3% no Ceará.
Na tentativa de vender Pernambuco como um destino ideal para descentralizar os data centers brasileiros, Guilherme Cavalcanti afirma que o Estado mantém diálogos com o governo federal por meio dos ministérios de Comunicações; Desenvolvimento, Indústria e Comércio; e com a Anatel. Segundo ele, o fortalecimento do ecossistema local, sendo capaz de atender as demandas locais e vizinhos são concepções que Pernambuco e governo federal compartilham.
Vantagens de Pernambuco
Entre os motivos que fazem de Pernambuco um estado atraente para data centers, a posição geográfica e a infraestrutura do estado são pontos a serem destacados.
Quanto a posição geográfica, a localização de Recife garante uma baixa latência (tempo mínimo de atraso na transmissão de dados entre dois pontos) para várias cidades da região, em comparação com outros centros.
Outro ponto a ser levado em consideração é a infraestrutura pernambucana. Nesse sentido, o Complexo Industrial Portuário de Suape é um importante ator, uma vez que ele confere a estrutura necessária para a recepção da carga elétrica gerada pelos data centers, o que descarta possíveis reformas no sistema elétrico para alocação da infraestrutura. De acordo com Guilherme, o complexo de Suape possui uma capacidade cinco vezes maior do que está em uso. Condição está que posiciona Pernambuco em vantagem na corrida pelos data centers no Nordeste brasileiro.

