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9 de fevereiro de 2026 13:02

Piauí entra na rota das terras raras e busca lugar no tabuleiro dos minerais críticos

Piauí entra na rota das terras raras e busca lugar no tabuleiro dos minerais críticos

Com potencial recém-identificado na Bacia do Parnaíba e no leste do estado, governo acelera acordos com o Serviço Geológico do Brasil para reduzir o déficit de conhecimento geológico e atrair investimentos em minerais estratégicos para a transição energética
Foto: Reprodução/Internet

O Piauí quer deixar de ser apenas um novo player da mineração de ferro e passar a disputar um lugar de destaque na corrida global pelos minerais críticos, especialmente as terras raras, insumo chave para tecnologias limpas, baterias, turbinas eólicas, veículos elétricos e produtos de alta complexidade. A estratégia combina um movimento político do governo estadual, cooperação técnica com o Serviço Geológico do Brasil (SGB) e a tentativa de transformar descobertas recentes em agenda de desenvolvimento de longo prazo.

Nos últimos anos, a mineração no estado cresceu, segundo dados da Secretaria Estadual de Desenvolvimento Econômico,  mais de 400%, impulsionada sobretudo pelo minério de ferro e pela entrada do Piauí no mapa global das exportações minerais. Agora, o governo quer dar um passo além: aproveitar o potencial recém-revelado para fosfato, urânio e elementos de terras raras na Bacia do Parnaíba e na região leste do estado e posicionar o Piauí na rota dos chamados minerais do futuro.

“A disputa por terras raras e minerais críticos deixou de ser um tema técnico para se tornar assunto de geopolítica dura. Esses elementos são essenciais para a fabricação de ímãs permanentes, motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, baterias, semicondutores e uma série de equipamentos de alta tecnologia”, explica o professor de geologia da Universidade Federal – UFPI – Danilo Pavani. 

Hoje, a China concentra cerca de 80% da produção mundial de terras raras, o que transformou o controle dessa cadeia em ponto sensível das relações internacionais. Ao mesmo tempo, levantamentos recentes indicam que o Brasil pode deter algo em torno de um quinto a um quarto das reservas mundiais desses minerais, mas ainda explora volumes mínimos: em 2024, a produção nacional foi de apenas 20 toneladas, menos de 1% do total global. 

“É nesse cenário que o Piauí tenta se inserir. Como parte de um país com enorme potencial, mas ainda pouco conhecido e pouco explorado em minerais estratégicos”, pontua Pavani.

A principal aposta do estado está na Bacia do Parnaíba, onde um dos maiores levantamentos geológicos recentes do país, conduzido pelo Serviço Geológico do Brasil, identificou 39 novas ocorrências ricas em fosfato, elementos terras raras e urânio na borda oriental da bacia, no território piauiense.

Os dados do Informe Técnico nº 27 do SGB, publicado em 2025, apontam teores considerados elevados de elementos terras raras em concreções fosfáticas e arenitos, com valores anômalos que colocam a bacia como região promissora.

Além da Bacia do Parnaíba, um levantamento divulgado pelo próprio SGB e por pesquisadores em 2025 indica a presença de terras raras na região leste do Piauí, na divisa com Ceará e Pernambuco, área apontada como uma das 12 regiões brasileiras com ocorrências desses minerais.

O problema é que o Brasil ainda conhece pouco o próprio subsolo. Hoje, apenas 27% do território continental brasileiro está mapeado na escala 1:100.000, considerada a base mínima detalhada para orientar política mineral, licenciamento e prospecção. Ou seja, mais de 70% do potencial mineral segue praticamente desconhecido.

Diante da combinação entre interesse internacional crescente, estudos preliminares promissores e um grande déficit de conhecimento geológico, o governo do Piauí decidiu se mexer. Em 2024, o estado criou a Superintendência de Mineração e Energias Renováveis (Sumer), vinculada à Secretaria do Planejamento (Seplan), com a missão explícita de articular políticas públicas para o setor mineral e para as energias renováveis, promovendo desenvolvimento sustentável, mitigação de impactos e mediação de conflitos sociais.

No mesmo ano, a Sumer assinou acordos de cooperação com o Serviço Geológico do Brasil para, segundo o acordo, “conhecer e promover toda a potencialidade minerária do estado”, em especial os minerais críticos e estratégicos.

Ambição

Em 2025, esse movimento ganhou escala. A diretora-presidente do SGB, Sabrina Góis, se reuniu com o governador Rafael Fonteles em Brasília para discutir a ampliação do mapeamento mineral no Piauí, com foco em terras raras e outros recursos estratégicos.

“Na prática, o desenho que se delineia é uma divisão de tarefas: o SGB entra com tecnologia, métodos modernos de prospecção e equipe técnica; o governo estadual organiza a governança, articula licenças, qualificação de mão de obra e cria um ambiente regulatório que atraia investimentos, mas sob o guarda-chuva de uma agenda de sustentabilidade”, explica Vinicius Rezende, um dos pesquisadores responsáveis pelo projeto.

A vitrine dos minerais críticos entrou na agenda do planejamento estadual. Na Brazil Energy Conference 2025, a Seplan preparou um pacote de instrumentos para apresentar o Piauí como território estratégico da transição energética, não só pelas energias renováveis, mas também pelo subsolo.

Um dos pontos centrais do evento foi justamente a apresentação, em parceria com o SGB, de estudos sobre recursos minerais estratégicos do estado, destacando a presença de níquel, cobalto, grafite, cobre, manganês e terras raras, além de fosfato, calcário e urânio. Todos eles ligados, de alguma forma, a cadeias de tecnologias limpas, fertilizantes, baterias e componentes industriais de alto valor agregado.

Em paralelo, o governo tem usado a Sumer para aproximar universidades e institutos federais do novo ciclo mineral: reuniões com Uespi e IFPI discutem novos cursos técnicos e superiores voltados à mineração e energias renováveis, na tentativa de formar uma “massa crítica” local para atuar tanto na pesquisa quanto na operação dos futuros projetos.

Enquanto o estado fortalece a cooperação com o SGB, empresas estrangeiras já começaram a se movimentar. Uma mineradora canadense, por exemplo, assinou carta de intenções para adquirir um projeto de terras raras no Piauí, em uma área de quase 4 mil hectares, avaliando teores considerados altos de óxidos de terras raras e a possibilidade de formação de um distrito minerário no interior do estado.

O desafio central do Piauí agora é transformar esse potencial em um projeto de desenvolvimento que não repita os velhos padrões da mineração predatória no país. Os acordos com o SGB, a criação da Sumer e a aposta em qualificação profissional indicam que o governo tenta construir uma entrada planejada na rota dos minerais críticos, ancorada em conhecimento geológico, governança e diálogo com a transição energética. 

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