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9 de fevereiro de 2026 15:36

Piauí mira soberania digital, mas governança e humores políticos são desafios

Piauí mira soberania digital, mas governança e humores políticos são desafios

Estado implanta primeira Supercloud pública e caminha para controle total de dados; modelo pode ser replicado, mas precisa de cuidados

O estado do Piauí anunciou a implantação da primeira Supercloud pública do país. Como um tipo de arquitetura de nuvem avançada, integra múltiplas infraestruturas, seja pública ou privada, com gestão, segurança e governança unificada. De acordo com o professor Rodrigo Silva, coordenador do Cybersec Lab da Faculdade de computação e informática da Universidade Presbiteriana Mackenzie, diferentemente da nuvem tradicional centralizada, a Supercloud nasce com princípios de controle estatal, resiliência e portabilidade.

“Do ponto de vista da segurança cibernética, adotar a Supercloud no Brasil representa uma mudança estratégica, onde o país deixa de ser apenas consumidor de serviços digitais, muitos deles estrangeiros, e passa a ser operador da sua infraestrutura crítica de dados”, pontua o professor. Para Rodrigo isso reduz superfícies de dependência externa, aumenta a capacidade de auditoria, fortalece a proteção de dados e reposiciona a segurança como política pública, e não apenas um simples serviço.

Foto: Ascom/ITIPI

Implantada com a coordenação da Empresa de Tecnologia da Informação do Piauí (Etipi), a iniciativa foi anunciada em dezembro de 2025. Neste primeiro momento, a plataforma está sendo utilizada para operacionalizar o “Drive.PI”, um ambiente de nuvem utilizado pelos servidores públicos do Piauí em suas rotinas de trabalho. “Os próximos passos visam migrar para a Supercloud dados de outros sistemas estruturantes do estado, como por exemplo o Sistema Eletrônico de Informações (SEI)”, pontua José Augusto Alves, diretor técnico da ETIPI.

Este movimento inédito pode facilitar a centralização e o controle homogêneo da política de segurança, segundo Luís Guedes, professor FIA Business School. “Na Supercloud, o estado define uma regra de segurança e esse comando se traduz e é aplicado em todas as nuvens conectadas e em uso pelo governo. Esse arranjo permite, por exemplo, que mova dados sensíveis de uma nuvem pública estrangeira para um data center local quase que instantaneamente, sem interromper de modo importante a aplicação.”

Com a plataforma, o estado passa a ter “o controle das chaves” dos dados, ou seja, detém a capacidade exclusiva de acessar, descriptografar e gerir os dados, independentemente de provedores de armazenamento. Para o diretor técnico o ETIPI esse modelo traz resultados práticos, como:

  • Soberania e autonomia, definição de quem acessa o quê, mantendo a gestão de chaves em mãos próprias;
  • Privacidade e segurança, somente os detentores das chaves podem ver o conteúdo real dos dados, reduzindo o risco de acesso não autorizado mesmo se houver incidentes em algum provedor;
  • Conformidade regulatória, pois ao vincular a gestão de chaves às políticas nacionais de dados (como LGPD – Lei Geral de Proteção de Dados), o estado fortalece o cumprimento de normas de proteção e de soberania digital.

O professor Rodrigo Silva explica que o controle da infraestrutura é condição necessária para garantir soberania digital, mas está longe de ser suficiente. “Soberania de dados é um conceito sistêmico. Ela exige governança clara, políticas públicas consistentes, processos bem definidos e, principalmente, pessoas capacitadas para operar, auditar e evoluir o ambiente tecnológico. Sem governança, a infraestrutura vira apenas um grande datacenter. Sem processos, a segurança se torna improvisada.” Silva reforça ainda que sem pessoas competentes e qualificadas, o risco operacional aumenta exponencialmente. “A soberania de dados realmente acontece quando tecnologia, gestão e capital humano caminham juntos, alinhados a objetivos estratégicos de longo prazo de cada país.”

Luís Guedes destaca que a soberania digital está no centro da discussão estratégica dos governos e o risco de um governo depender de big techs estrangeiras transcende o aspecto técnico e alcança o terreno geopolítico e jurídico. “Quando um estado armazena todos os seus dados na “cesta” de um único provedor global, ele está implicitamente se submetendo às leis do país sede dessa empresa.” Considerando este aspecto, o professor classifica o modelo adotado pelo governo do Piauí como uma alternativa interessante, na medida em que jogo para mudar a relação de poder entre Clientes-Fornecedor. “O estado deixa de ser consumidor passivo e passa a ser o orquestrador de uma solução “agnóstica”. Na prática, o Piauí está dizendo: “Nós vamos usar a infraestrutura de vocês, o poder de processamento e armazenamento, mas a inteligência e a chave do cofre ficam conosco”.”

No entanto, Luis aponta que existe uma crença ao pensar que comprar a tecnologia resolve o problema. Em linha com o que foi apontado por Rodrigo, ele concorda que ter o controle da infraestrutura é apenas o primeiro passo. O professor aponta que esse é um modelo replicável em outros, mas reforça o caráter da complexidade operacional e de governança da solução. “Não basta se inspirar no edital do Piauí – para replicar o projeto com sucesso, estados e municípios vão esbarrar, pelo menos, em dois problemas importantes: um técnico e um institucional.”

O Piauí é referência no Brasil no âmbito da Transformação Digital, tendo alcançado o primeiro lugar nacional no índice ABEP-TIC de Oferta de Serviços Digitais. “O estado antecipa tendências estratégicas, e ações que podem ser replicadas por outros entes federativos, tendo como foco a conformidade e a resiliência tecnológica dos dados.”

José Augusto Alves confirma que a Supercloud está em operação desde o último trimestre de 2025 e representa um passo importante para levar mais inovação, segurança e valor às instituições atendidas. Em casos de possíveis ataques cibernéticos, o diretor técnico do ETIPI diz que os dados estão cifrados e distribuídos em múltiplas nuvens. “Se um provedor sofre indisponibilidade, ataque ou corte, a plataforma mantém o serviço online recorrendo às nuvens restantes.” Além disso, o serviço permite a substituição transparente de nuvens de forma eficiente e sem interrupção no acesso aos dados. “Dessa forma, seja no acesso a exames médicos por um serviço de saúde, seja no acesso a gravações de videomonitoramento por uma entidade de segurança, mesmo nos casos mais extremos, os dados estarão seguros e acessíveis.”

José Augusto Alves | foto: Divulgação/ITIPI

Luis Guedes classifica uma Supercloud como um projeto de longo prazo e aponta um risco institucional de mudança de gestão. “Uma nova administração pode decidir desligar o projeto do antecessor e essa disrupção seria incrivelmente perigosa para a continuidade dos serviços.” O professor alerta que para escalar para outros entes da federação, a governança precisa estar tão bem amarrada que torne politicamente custoso desmontar a estrutura.

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