Jornalismo econômico para a inovação no Nordeste -
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9 de fevereiro de 2026 13:07

Primeiro quarto do século XXI vê Nordeste redesenhar cenário econômico

Primeiro quarto do século XXI vê Nordeste redesenhar cenário econômico

Região abandona o estigma do assistencialismo e passa a crescer com novos debates, ainda que em ritmos guiado por escolhas produtivas e limites estruturais
Foto: Reprodução/Internet

O Nordeste brasileiro chega ao primeiro quarto do século XXI com uma economia profundamente redesenhada em relação ao cenário inicial. Nos anos 2000, a região era majoritariamente enquadrada pelo discurso do assistencialismo e da dependência fiscal. Ainda que pautas importantes, hoje o desenvolvimento econômico ampliou o debate para temas de outra natureza. Transição energética, agronegócio de precisão e hubs logísticos integrados ao comércio global já fazem parte da realidade nordestina. A mudança, porém, não foi linear. O mapa econômico da região revela avanços acelerados em alguns territórios e dificuldades persistentes em outros, uma dinâmica que ajuda a explicar por que o Nordeste deixou de ser tratado como um bloco único e passou a operar em múltiplas velocidades.

A transformação da região não pode ser explicada por um único fator. De acordo com o economista e professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing, Carlos Berti, quatro forças estruturais ajudam a compreender por que alguns estados avançaram mais rapidamente do que outros.

A primeira é a consolidação de uma ampla rede de proteção social combinada à expansão do consumo. Programas como o Bolsa Família, somados ao aumento real do salário mínimo, alteraram profundamente a dinâmica econômica de cidades médias e pequenas. O consumo das famílias passou a sustentar o crescimento do setor de serviços e transformou antigos centros administrativos em polos comerciais regionais.

A segunda força foi a interiorização do conhecimento. A expansão das universidades e institutos federais fixou mão de obra qualificada fora das capitais e criou ecossistemas locais de inovação. Cidades como Sobral, no Ceará, e Petrolina, em Pernambuco, tornaram-se referências nacionais em educação, gestão pública e tecnologia aplicada ao semiárido, reduzindo a histórica evasão de talentos.

O terceiro vetor é a transição energética. O Nordeste se consolidou como o coração da produção eólica e solar do país, atraindo bilhões em investimentos e inaugurando uma nova base industrial verde. Rio Grande do Norte, Bahia e Ceará assumiram protagonismo em um setor que conecta a região às agendas globais de descarbonização e reposiciona o Nordeste como exportador de energia limpa.

Por fim, a logística passou a ocupar papel central na estratégia de desenvolvimento. Projetos estruturantes, como a Ferrovia Transnordestina, e a modernização de portos como Suape, em Pernambuco, e Pecém, no Ceará, começaram a reduzir o chamado “Custo Nordeste”. A integração física e logística aproxima a região das cadeias globais de valor e redefine sua competitividade no comércio exterior.

PIB em perspectiva

Entre 2002 e 2023, a economia brasileira acumulou crescimento de 58,2%. No Nordeste, o resultado foi marcado por um efeito de “gangorra”, que expõe contrastes internos cada vez mais evidentes. Estados que conseguiram se inserir em novas cadeias produtivas avançaram rapidamente, enquanto economias mais dependentes de estruturas industriais tradicionais enfrentaram ciclos de estagnação e perda de competitividade.

O caso mais emblemático é o dos protagonistas do agronegócio. Piauí e Maranhão lideraram o crescimento regional, impulsionados pela expansão da fronteira agrícola do MATOPIBA. O Piauí, em particular, deixou de figurar entre as economias mais frágeis do país para se consolidar como exportador relevante de soja e milho, com forte integração ao mercado externo. O dinamismo do agro redesenhou o perfil produtivo do estado.

Na outra ponta estão os grandes PIBs regionais. A Bahia, maior economia do Nordeste, cresceu 49,8% no período, abaixo da média nacional. O desempenho reflete os impactos da desindustrialização, simbolizados pelo fechamento da fábrica da Ford em Camaçari, e a dificuldade de atualizar parques industriais urbanos diante de um cenário global mais competitivo. Pernambuco seguiu trajetória semelhante, com crescimento moderado e forte concentração econômica na Região Metropolitana do Recife.

O Rio Grande do Norte ocupa uma posição intermediária e estratégica. Em 2023, o estado ultrapassou pela primeira vez a marca de R$ 100 bilhões de PIB, um feito histórico. Ainda assim, o crescimento acumulado de 51,4% desde 2002 ficou abaixo da média brasileira, evidenciando os limites de uma economia por décadas ancorada no petróleo terrestre, base que entrou em declínio antes que novas atividades ganhassem escala suficiente para compensar a perda.

O paradoxo potiguar

O Rio Grande do Norte sintetiza, como poucos, o momento de transição vivido pelo Nordeste, com grandes possibilidades baseadas no refinamento e no aprimoramento de antigas estruturas. Após anos de crescimento limitado pelo declínio da produção terrestre de petróleo, o estado encontrou na energia eólica um novo vetor de dinamismo econômico. O vento passou a ocupar o espaço simbólico antes reservado ao óleo, reposicionando o RN no mapa energético nacional.

Carlos Berti avalia que romper a barreira dos R$ 100 bilhões de PIB tem forte peso simbólico, mas não resolve o principal desafio estrutural. “O crescimento precisa se traduzir em empregos qualificados, diversificação industrial e bem-estar social. Caso contrário, o estado apenas troca uma dependência por outra.”

Com uma visão social, Jahzara Ona, ativista ambiental que esteve presente na COP 30, afirma que existe um “potencial ancestral” indispensável na região. Segundo ela, estudar o conhecimento ancestral das famílias em comunidades nordestinas pode ser o caminho para uma transição energética exemplar. “O Nordeste é uma das regiões com maior potencial de desenvolvimento em tecnologias ambientais, algo atrelado à evolução econômica.” Ela acrescenta que perceber essas nuances entre os diferentes saberes é a verdadeira chave para uma evolução concreta da região.

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