
Por décadas, a falta de acesso regular à água potável tem sido uma realidade silenciosa em centenas de escolas cearenses, especialmente em áreas rurais e no semiárido. Dados do Censo Escolar revelam a dimensão do problema: mais de 1.300 escolas no Ceará não são atendidas pela rede pública de abastecimento de água, e dezenas delas sequer oferecem água potável aos estudantes. Em um estado marcado por longos períodos de seca e desigualdades territoriais profundas, essa carência compromete não apenas a saúde das crianças e adolescentes, mas também o próprio direito à educação.
É nesse contexto que surge o Mais Água Boa na Escola, programa piloto ainda em fase embrionária, liderado pela Universidade Federal do Ceará (UFC), em parceria com o Centro de Treinamento e Desenvolvimento (Cetrede). A proposta vai além de soluções emergenciais, como o envio pontual de carros-pipa, e busca estruturar um modelo integrado de segurança hídrica voltado especificamente ao ambiente escolar. A iniciativa combina diagnóstico técnico, planejamento, monitoramento da qualidade da água e articulação institucional, com potencial para se tornar referência nacional.
O déficit de acesso à água potável em escolas ainda é um problema estrutural no Brasil. De acordo com o especialista em saneamento Emerson Soares, da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), no Nordeste o desafio é agravado por múltiplos fatores. “Nós temos um problema basilar: pouca água para uma demanda crescente. Além disso, essa água é mal gerida, mal distribuída e, muitas vezes, de péssima qualidade, devido à contaminação por poluentes e ausência de tratamento e fiscalização eficazes.”
Apresentado oficialmente pela UFC como um programa de médio e longo prazo, o Mais Água Boa na Escola nasce com o objetivo de mapear a realidade hídrica das escolas cearenses, identificar soluções adequadas a cada território e apoiar a implementação de sistemas seguros de abastecimento. Diferentemente de intervenções pontuais, o foco está na construção de um arranjo institucional capaz de garantir continuidade, monitoramento e gestão adequada dos recursos hídricos.
“Apostar em soluções integradas tende a ser mais eficaz do que ações isoladas”, afirma Soares. “Para funcionar, um programa como esse precisa considerar boa gestão da água, monitoramento contínuo dos parâmetros físico-químicos e microbiológicos e, sobretudo, ser duradouro.” Essa abordagem dialoga com a concepção do projeto, que envolve pesquisadores de diferentes áreas, gestores públicos e parceiros institucionais, buscando alinhar conhecimento técnico e políticas públicas.
Os impactos da falta de água potável nas escolas são diretos e profundos. Do ponto de vista da saúde, os riscos incluem desidratação, verminoses, parasitoses e doenças de veiculação hídrica. “Essas enfermidades afastam os estudantes da sala de aula, encarecem os serviços de saúde dos municípios e provocam desestímulo para estudar”, explica o especialista. Ele destaca ainda que crianças doentes se alimentam pior, absorvem menos nutrientes e têm o aprendizado comprometido, criando um ciclo de prejuízos educacionais e sociais.
Em regiões não atendidas pela rede pública de abastecimento, como muitas comunidades rurais do Ceará, o programa considera alternativas tecnicamente viáveis e adaptadas à realidade local. Modelos híbridos, que combinam captação de água da chuva, poços e tratamento local da água, aparecem como as opções mais promissoras. “Acredito que modelos híbridos e a captação de água da chuva costumam apresentar melhores resultados”, diz Soares, ressaltando que a escolha da solução deve levar em conta critérios técnicos rigorosos e sustentabilidade a longo prazo.
Entre esses critérios estão a existência de uma rede de distribuição confiável, o monitoramento certificado da qualidade da água, a limpeza periódica dos sistemas e a gestão participativa. “Também é fundamental um programa de educação ambiental efetivo, tanto nas escolas quanto na comunidade”, acrescenta o especialista. No desenho do Mais Água Boa na Escola, a formação e o engajamento da comunidade escolar aparecem como pilares para garantir o bom uso e a preservação das estruturas implantadas.
A ausência de saneamento adequado nas escolas reflete desigualdades sociais mais amplas. Para Soares, trata-se de um retrato da exclusão histórica de determinados territórios. “Isso demonstra a falta de acesso a tecnologias sociais que já estão disponíveis e a uma questão básica, que é o saneamento e a água de qualidade. São problemas que já deveriam estar resolvidos, mas ainda viram tabu e, muitas vezes, moeda de troca em períodos eleitorais, especialmente em regiões do sertão.”
Nesse cenário, o papel das universidades e centros de pesquisa ganha centralidade. “Eles devem trabalhar projetos efetivos, apresentar tecnologias de baixo custo e soluções de longo prazo”, defende Soares. Ele alerta, no entanto, que iniciativas desse tipo precisam de apoio financeiro, engajamento governamental e aproximação com o setor privado. “Sem isso, correm o risco de virar mais um projeto que não sai do papel.”
Projetos piloto, como o Mais Água Boa na Escola, também enfrentam o desafio da escala. Para se consolidar como política pública permanente, é essencial demonstrar resultados concretos, custo acessível e impacto mensurável. Indicadores como a melhoria da saúde dos estudantes, a redução de doenças parasitárias e avanços no estado nutricional são apontados como fundamentais para avaliar o sucesso da iniciativa.
O ideal é que seja replicado em outras localidades e não se torne mais um programa descontinuado”, afirma Soares. Ao enfrentar um problema estrutural com uma abordagem sistêmica, o Mais Água Boa na Escola sinaliza um caminho possível para integrar as agendas de saneamento e educação, transformando o acesso à água potável em um direito efetivamente garantido dentro das escolas brasileiras.