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30 de março de 2026 12:42

Projeto aposta em modelo integrado para garantir água potável nas escolas do Ceará

Projeto aposta em modelo integrado para garantir água potável nas escolas do Ceará

Iniciativa “Mais Água Boa na Escola” aposta em soluções integradas e de longo prazo para garantir segurança hídrica no ambiente educacional e pode se tornar referência nacional
Foto: Unplash

Por décadas, a falta de acesso regular à água potável tem sido uma realidade silenciosa em centenas de escolas cearenses, especialmente em áreas rurais e no semiárido. Dados do Censo Escolar revelam a dimensão do problema: mais de 1.300 escolas no Ceará não são atendidas pela rede pública de abastecimento de água, e dezenas delas sequer oferecem água potável aos estudantes. Em um estado marcado por longos períodos de seca e desigualdades territoriais profundas, essa carência compromete não apenas a saúde das crianças e adolescentes, mas também o próprio direito à educação.

É nesse contexto que surge o Mais Água Boa na Escola, programa piloto ainda em fase embrionária, liderado pela Universidade Federal do Ceará (UFC), em parceria com o Centro de Treinamento e Desenvolvimento (Cetrede). A proposta vai além de soluções emergenciais, como o envio pontual de carros-pipa, e busca estruturar um modelo integrado de segurança hídrica voltado especificamente ao ambiente escolar. A iniciativa combina diagnóstico técnico, planejamento, monitoramento da qualidade da água e articulação institucional, com potencial para se tornar referência nacional.

O déficit de acesso à água potável em escolas ainda é um problema estrutural no Brasil. De acordo com o especialista em saneamento Emerson Soares, da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), no Nordeste o desafio é agravado por múltiplos fatores. “Nós temos um problema basilar: pouca água para uma demanda crescente. Além disso, essa água é mal gerida, mal distribuída e, muitas vezes, de péssima qualidade, devido à contaminação por poluentes e ausência de tratamento e fiscalização eficazes.”

Apresentado oficialmente pela UFC como um programa de médio e longo prazo, o Mais Água Boa na Escola nasce com o objetivo de mapear a realidade hídrica das escolas cearenses, identificar soluções adequadas a cada território e apoiar a implementação de sistemas seguros de abastecimento. Diferentemente de intervenções pontuais, o foco está na construção de um arranjo institucional capaz de garantir continuidade, monitoramento e gestão adequada dos recursos hídricos.

“Apostar em soluções integradas tende a ser mais eficaz do que ações isoladas”, afirma Soares. “Para funcionar, um programa como esse precisa considerar boa gestão da água, monitoramento contínuo dos parâmetros físico-químicos e microbiológicos e, sobretudo, ser duradouro.” Essa abordagem dialoga com a concepção do projeto, que envolve pesquisadores de diferentes áreas, gestores públicos e parceiros institucionais, buscando alinhar conhecimento técnico e políticas públicas.

Os impactos da falta de água potável nas escolas são diretos e profundos. Do ponto de vista da saúde, os riscos incluem desidratação, verminoses, parasitoses e doenças de veiculação hídrica. “Essas enfermidades afastam os estudantes da sala de aula, encarecem os serviços de saúde dos municípios e provocam desestímulo para estudar”, explica o especialista. Ele destaca ainda que crianças doentes se alimentam pior, absorvem menos nutrientes e têm o aprendizado comprometido, criando um ciclo de prejuízos educacionais e sociais.

Em regiões não atendidas pela rede pública de abastecimento, como muitas comunidades rurais do Ceará, o programa considera alternativas tecnicamente viáveis e adaptadas à realidade local. Modelos híbridos, que combinam captação de água da chuva, poços e tratamento local da água, aparecem como as opções mais promissoras. “Acredito que modelos híbridos e a captação de água da chuva costumam apresentar melhores resultados”, diz Soares, ressaltando que a escolha da solução deve levar em conta critérios técnicos rigorosos e sustentabilidade a longo prazo.

Entre esses critérios estão a existência de uma rede de distribuição confiável, o monitoramento certificado da qualidade da água, a limpeza periódica dos sistemas e a gestão participativa. “Também é fundamental um programa de educação ambiental efetivo, tanto nas escolas quanto na comunidade”, acrescenta o especialista. No desenho do Mais Água Boa na Escola, a formação e o engajamento da comunidade escolar aparecem como pilares para garantir o bom uso e a preservação das estruturas implantadas.

A ausência de saneamento adequado nas escolas reflete desigualdades sociais mais amplas. Para Soares, trata-se de um retrato da exclusão histórica de determinados territórios. “Isso demonstra a falta de acesso a tecnologias sociais que já estão disponíveis e a uma questão básica, que é o saneamento e a água de qualidade. São problemas que já deveriam estar resolvidos, mas ainda viram tabu e, muitas vezes, moeda de troca em períodos eleitorais, especialmente em regiões do sertão.”

Nesse cenário, o papel das universidades e centros de pesquisa ganha centralidade. “Eles devem trabalhar projetos efetivos, apresentar tecnologias de baixo custo e soluções de longo prazo”, defende Soares. Ele alerta, no entanto, que iniciativas desse tipo precisam de apoio financeiro, engajamento governamental e aproximação com o setor privado. “Sem isso, correm o risco de virar mais um projeto que não sai do papel.”

Projetos piloto, como o Mais Água Boa na Escola, também enfrentam o desafio da escala. Para se consolidar como política pública permanente, é essencial demonstrar resultados concretos, custo acessível e impacto mensurável. Indicadores como a melhoria da saúde dos estudantes, a redução de doenças parasitárias e avanços no estado nutricional são apontados como fundamentais para avaliar o sucesso da iniciativa.

O ideal é que seja replicado em outras localidades e não se torne mais um programa descontinuado”, afirma Soares. Ao enfrentar um problema estrutural com uma abordagem sistêmica, o Mais Água Boa na Escola sinaliza um caminho possível para integrar as agendas de saneamento e educação, transformando o acesso à água potável em um direito efetivamente garantido dentro das escolas brasileiras.

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