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9 de fevereiro de 2026 12:33

Projeto criado por estudante da UFC leva planejamento familiar e saúde sexual a mulheres do interior do Ceará

Projeto criado por estudante da UFC leva planejamento familiar e saúde sexual a mulheres do interior do Ceará

Iniciativa idealizada pela estudante de Medicina Naomi Nascimento alia atendimento ginecológico, educação sexual e capacitação de profissionais da atenção básica para enfrentar desigualdades históricas no acesso à saúde reprodutiva
Foto: Reprodução/Internet

No interior do Ceará, onde a distância até serviços especializados de saúde ainda impõe barreiras concretas à população feminina, um projeto de extensão universitária tem transformado a realidade de centenas de mulheres. Criada pela estudante de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC) Naomi Nascimento, a Missão Mulher Saudável leva atendimento ginecológico, planejamento familiar e educação em direitos reprodutivos a regiões historicamente desassistidas, ao mesmo tempo em que capacita profissionais locais para garantir a continuidade do cuidado.

A iniciativa nasceu da vivência acadêmica de Naomi durante o módulo de ginecologia do curso. Foi nesse período que ela percebeu o tamanho da lacuna entre a demanda das mulheres do interior e a oferta de atendimento especializado. “Muitas dessas mulheres esperavam meses e, em alguns casos, até anos para conseguir um atendimento de referência. Outras até conseguiam chegar à capital, mas não encontravam profissionais que as escutassem e acolhessem”, relata. Segundo ela, não era raro ver pacientes saindo de madrugada de suas casas para tentar uma consulta em Fortaleza, enfrentando longas viagens e custos elevados.

Diante desse cenário, a estudante decidiu criar um projeto que invertesse a lógica tradicional de deslocamento. “Eu tive a vontade de criar um projeto que levasse até elas um atendimento ginecológico adequado. Mas não somente ir e depois voltar para Fortaleza como se nada tivesse acontecido, porque isso não supre a demanda. É como enxugar gelo”, afirma. A solução encontrada foi estruturar uma ação que combinasse assistência direta com a capacitação de profissionais da atenção básica, fortalecendo o atendimento local mesmo após a saída da equipe.

A Missão Mulher Saudável atua em municípios do interior cearense levando consultas ginecológicas, inserção de dispositivos intrauterinos (DIU), orientações sobre saúde sexual e reprodutiva e atividades educativas em escolas. Um dos pilares do projeto é justamente enfrentar um paradoxo identificado durante as missões: a existência de infraestrutura e insumos sem profissionais qualificados para utilizá-los. “Em muitos lugares havia salas ginecológicas estruturadas e até DIUs guardados, mas os profissionais do PSF não tinham capacitação para fazer a colocação ou conduzir atendimentos mais específicos”, explica Naomi. “Capacitar esses profissionais permite que o município use melhor o que já tem.”

Além da assistência clínica, o projeto investe fortemente em educação sexual e planejamento familiar, especialmente entre adolescentes. Esse trabalho, no entanto, enfrenta resistências. “Existe um grande tabu para falar sobre educação sexual. Nem todas as escolas nos receberam”, conta. Para Naomi, o equívoco está em associar o tema a algo inadequado, quando, na verdade, trata-se de discutir futuro e autonomia. “Conversar sobre planejamento familiar é mostrar que esses jovens podem planejar, estudar, trabalhar, entrar na universidade e, quando quiserem, construir suas famílias.”

As atividades educativas são conduzidas de forma lúdica e participativa, com jogos e situações do cotidiano dos adolescentes. “A gente deixa claro que não existe certo ou errado. O importante é a vontade daquele indivíduo. Falamos de métodos contraceptivos sem imposição, tirando dúvidas e desmistificando tabus”, explica a idealizadora.

Durante as missões, a equipe encontra dois perfis principais de pacientes: de um lado, mulheres que nunca haviam passado por um ginecologista, seja por vergonha, desinformação ou pela certeza de que não encontrariam atendimento. Do outro, mulheres que peregrinaram por anos entre médicos e serviços sem conseguir diagnóstico ou tratamento adequados, especialmente em casos de doenças crônicas como a endometriose. “Atendemos mulheres com dores incapacitantes que nem sabiam que aquilo era uma doença”, diz Naomi. “Outras já buscavam solução há anos, mas sem resposta.”

Embora o projeto ainda não tenha acesso a indicadores mais amplos, como impactos sobre taxas de natalidade, dados que ficam sob responsabilidade das prefeituras, os retornos qualitativos são significativos. Naomi cita o caso da cidade de Crateús, onde a missão esteve mais de uma vez e, em parceria com a USP, levou uma expedição cirúrgica. “Uma paciente com endometriose me disse, toda feliz, que depois de ser atendida pela missão conseguiu fazer o tratamento adequado e agora teria a cirurgia. Esses retornos mostram o impacto real na qualidade de vida.”

O alcance da iniciativa também se reflete na inspiração gerada. Em uma escola atendida pelo projeto em 2024, um dos alunos foi aprovado no curso de Medicina. “Ele nos procurou para dizer que tinha sido aluno de uma das nossas ações e que queria fazer o mesmo pela população do Ceará”, conta.

Apesar dos resultados, os desafios para a expansão do projeto são grandes. Atualmente, a Missão Mulher Saudável depende majoritariamente do apoio das prefeituras, responsáveis por fornecer insumos e recursos para as ações. “A gente só consegue ir se o município quiser nos receber e investir. Nem sempre os governantes simpatizam com o projeto ou o consideram prioritário”, explica Naomi. Por isso, a busca por parcerias e fontes de financiamento público e privado é um dos principais objetivos do grupo.

A universidade teve papel central na consolidação da iniciativa. Naomi destaca o apoio do professor doutor Leonardo Bezerra, coordenador do módulo de ginecologia e orientador do projeto, além do respaldo da reitoria da UFC. “Sem esse apoio, a gente não teria ido tão longe. A universidade foi imprescindível em todo o processo”, afirma.

O sonho da idealizadora é que o modelo se torne uma política pública estruturada, capaz de criar uma linha de cuidado que comece ainda na escola e garanta encaminhamento ágil ao atendimento especializado. Além disso, a estudante trabalha para que o projeto ultrapasse as fronteiras do Ceará. “A gente quer criar uma rede. Já estou conectando estudantes de outros estados para replicar o projeto. É uma missão que vai muito além das barreiras físicas.”

Ao unir medicina humanizada, prevenção e educação em direitos reprodutivos, a Missão Mulher Saudável evidencia como a extensão universitária pode preencher lacunas históricas da política pública de saúde e, sobretudo, devolver autonomia e dignidade a mulheres que, por muito tempo, ficaram à margem do cuidado.

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