Jornalismo econômico para a inovação no Nordeste -
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9 de fevereiro de 2026 16:32

Recém-inaugurado, Complexo Ventos de São Zacarias amplia protagonismo nordestino na produção de energia limpa no País

Recém-inaugurado, Complexo Ventos de São Zacarias amplia protagonismo nordestino na produção de energia limpa no País

O Nordeste é hoje a região que mais cresce em geração renovável no Brasil, especialmente em energia solar e eólica
Foto: ABEEólica/Divulgação

Na divisa entre os municípios de Simões (PI) e Araripina (PE), no coração do semiárido nordestino, 80 turbinas eólicas giram impulsionadas pelos ventos persistentes da caatinga. Juntas, elas compõem o Complexo Ventos de São Zacarias, inaugurado em junho deste ano, marcando um novo capítulo na consolidação do Nordeste como protagonista da matriz energética limpa do Brasil.

Com capacidade instalada de 456 megawatts (MW) e produção anual estimada em 2.000 gigawatts-hora (GWh), energia suficiente para abastecer até 1,2 milhão de residências, o empreendimento recebeu um investimento de R$ 3 bilhões e representa uma das maiores iniciativas do setor nos últimos anos.

Felipe Castro, CEO da empresa responsável pelo complexo, explica que adotaram algumas inovações tecnológicas que contribuíram para a melhoria da operação. “Destacamos a instalação de turbinas com capacidade de 5,7 megawatts que permitiu uma redução de 188 unidades em comparação às primeiras turbinas de 1,7 megawatts instaladas no território. Ou seja, pudemos manter a alta eficiência da nossa operação ocupando menos espaço”.

Semiárido como potência energética

O Nordeste é hoje a região que mais cresce em geração renovável no Brasil, especialmente em energia solar e eólica. Segundo Talita Porto, diretora técnico-regulatória da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (ABSOLAR), há uma combinação de fatores que explicam esse protagonismo. “A região tem alto índice de radiação solar, topografia favorável, potencial para hidrogênio verde e acesso a linhas de financiamento como as do Banco do Nordeste”, aponta.

Além disso, a região tem contribuído diretamente para a segurança energética nacional, especialmente em períodos de escassez hídrica. “A crise hídrica de 2021 no Brasil, a pior em 91 anos, expôs a vulnerabilidade do sistema elétrico brasileiro à dependência de hidrelétricas e impulsionou o crescimento da participação da fonte solar na matriz energética do país. Apesar da crise, a geração de energia solar e eólica bateu recordes em 2021, impulsionada pela necessidade de garantir o abastecimento. Portanto, a fonte solar, juntamente com a eólica, teve um papel importante na mitigação dos impactos da crise”, aponta.

Mais do que eficiência energética, o Complexo Ventos de São Zacarias destaca-se também pelo rigor ambiental e o diálogo com as comunidades locais. O processo de licenciamento foi conduzido com base nos Padrões de Desempenho da IFC e nos Princípios do Equador, referências internacionais em sustentabilidade.

Felipe explica que foram realizados estudos detalhados sobre a biodiversidade local, como modelagem de risco de colisão para aves e morcegos, além da implementação de um Plano de Ação para a Biodiversidade. O monitoramento ambiental é permanente e os dados são reportados regularmente aos órgãos competentes.

Na frente social, a empresa adotou a Consulta Livre, Prévia e Informada (CLPI), reconhecendo oficialmente a autodeclaração quilombola de duas comunidades locais. “Formalizamos acordos e implementamos planos de reassentamento e restauração dos modos de vida, além de construir a sede da associação quilombola, uma quadra poliesportiva e reformar a capela da comunidade”, destaca o executivo.

Energia limpa com impacto real

Com a operação do complexo, os impactos socioeconômicos já são percebidos na região. A movimentação de trabalhadores, fornecedores e visitantes aqueceu o comércio local, enquanto os dividendos pagos aos proprietários das terras onde os aerogeradores estão instalados geraram nova circulação de renda.

Foto: Arquivo/VSC

Há também uma frente robusta de capacitação e valorização de saberes tradicionais. “Oferecemos cursos técnicos, intercâmbio agrícola e incentivo a atividades produtivas”, explica Castro. Um exemplo é o curso de culinária à base de macaxeira, voltado a mulheres quilombolas, que agora contam com infraestrutura para produção e venda de alimentos.

O Programa Técnico Agrícola também tem papel importante ao promover o uso sustentável da terra e o fortalecimento da agricultura familiar com foco em mandioca, frutíferas, suinocultura, apicultura e cultivo agroecológico.

A energia gerada pelo Complexo Ventos de São Zacarias abastece operações industriais da Hydro no Brasil, por meio de contratos de longo prazo (PPAs), contribuindo diretamente para a descarbonização da indústria nacional.

“Estamos ajudando grandes empresas a substituir fontes fósseis por alternativas renováveis, reduzindo significativamente suas pegadas de carbono”, afirma o CEO. “Nosso investimento reafirma a missão de liderar a transição energética com responsabilidade social e ambiental.”

Com o sucesso do modelo, a empresa avalia novas oportunidades no Nordeste. “Acreditamos no potencial da região como uma força motriz para a transição energética do nosso país. Avaliamos eventuais oportunidades de crescimento pelo território de maneira que seja possível nos manter alinhados à nossa missão e aos nossos pilares estratégicos. Qualquer avanço neste sentido será norteado pela mesma responsabilidade que tem nos guiado até o momento”, completa Castro.

No entanto, apesar do crescimento acelerado, há gargalos importantes que podem comprometer a expansão dos renováveis no Nordeste. Entre eles, os cortes de geração, motivados por limitações na capacidade de transmissão. Apenas entre abril de 2024 e julho de 2025, o setor fotovoltaico foi impactado em R$ 1,4 bilhão devido a esses cortes.

“O Brasil precisa investir na evolução e modernização das redes de transmissão, e na regulamentação do armazenamento de energia para viabilizar a integração de fontes renováveis variáveis, como a solar e a eólica, à rede elétrica de forma mais estável e segura. Outra medida seria criar um modelo de tarifas inteligentes que estimule o consumo mais intenso durante o período da manhã, o que evitaria muitos cortes de geração”, aponta a diretora na ABSOLAR.

Projetos como o Complexo reforçam papel do Nordeste na agenda sustentável

Apesar dos desafios estruturais, o avanço de projetos como o Complexo Ventos de São Zacarias reforça o papel do Nordeste como modelo de desenvolvimento sustentável no Brasil. A integração entre inovação tecnológica, responsabilidade ambiental e inclusão social transforma os ventos do semiárido em força motriz de um futuro energético mais limpo, justo e resiliente.

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