
No mapa da Bahia, São Desidério aparece como um ponto discreto no extremo oeste do estado. Para quem passa apressado pela BR-020, pode parecer apenas mais um município do Cerrado brasileiro. Mas, visto de cima, das imagens de satélite que orientam traders, agrônomos e investidores, São Desidério é um mosaico geométrico de lavouras que se estendem até onde o olho não alcança. Ali, a agricultura não se resume a uma atividade econômica, mas forma a paisagem, o ritmo do tempo e a espinha dorsal de uma cidade que, há anos, figura entre os cinco municípios mais agrícolas do Brasil, segundo o IBGE.
A história de São Desidério como potência agrícola não começa com tratores, mas com a ocupação planejada do Cerrado, sobretudo a partir das décadas de 1970 e 1980. Agricultores vindos do Sul e do Sudeste do país encontraram ali uma combinação rara de extensão territorial, topografia favorável, solos corrigíveis e, sobretudo, água, abundante tanto em aquíferos quanto em rios estratégicos para irrigação.
O que antes era visto como uma terra pobre passou a ser reinterpretado pela ciência agronômica. Com calagem, adubação e tecnologia, o Cerrado revelou sua vocação produtiva. São Desidério cresceu junto com essa transformação, tornando-se um dos principais símbolos do agronegócio moderno no Oeste baiano.
Os números ajudam a dimensionar o fenômeno. Dados do IBGE mostram que São Desidério ocupa, de forma recorrente, o topo do ranking nacional de valor da produção agrícola, disputando posição com municípios dos gigantes do agro, como Mato Grosso e de Goiás.
A cidade é líder nacional na produção de algodão, além de figurar entre os grandes produtores de soja e milho. Em alguns anos, o valor bruto da produção agropecuária local supera o de capitais brasileiras inteiras, um contraste que evidencia a força econômica do campo.
“A cidade é um exemplo clássico de quem olha a terra e vê a oportunidade. Esse movimento foi muito bem construído por empresários em décadas passadas, mas o que mais surpreende é como essa aposta se tornou sustentável ao longo do tempo”, conta o engenheiro agrônomo Marco Junqueira, que atua como consultor no oeste da Bahia.
Essa pujança faz de São Desidério um dos maiores arrecadadores do interior da Bahia, com impactos diretos sobre o PIB municipal e a balança comercial do estado. Boa parte das exportações agrícolas baianas passa, direta ou indiretamente, pelos silos e armazéns instalados no município. O PIB estimado é de R$ 5,8 bilhões, impulsionado especialmente pela agropecuária, que responde por mais de 70 % da sua economia local.
Cultivo tradicional de algodão
No município, a cotonicultura se tornou um dos grandes pilares da economia agrícola, integrando o município ao circuito nacional e global de comércio de fibras. O município é oficialmente reconhecido como um dos maiores polos produtores de algodão do Brasil, respondendo por cerca de 12,4% da produção nacional, um feito que o coloca no topo das cidades que mais contribuem para o agronegócio no país, com valor bruto da produção agrícola estimado em cerca de R$ 7,8 bilhões em 2023 (considerando todas as culturas).

Grande parte dessa produção se desenvolve no distrito de Roda Velha e arredores, onde cooperativas e associações de produtores, em especial pequenas e médias propriedades familiares organizadas em redes de apoio como a ABAPA (Associação Baiana dos Produtores de Algodão), combinam tecnologia com conhecimento tradicional do cultivo.
A fibra produzida em São Desidério segue para indústrias têxteis no Brasil e mercados de exportação, em um movimento em que o Brasil figura como um dos principais exportadores mundiais de algodão, com compradores na Ásia e Europa interessados na qualidade da fibra.
Embora números precisos de emprego por município sejam raros em estatísticas oficiais, a cadeia produtiva do algodão gerou milhares de empregos diretos e indiretos nos últimos ciclos: desde operadores de máquinas agrícolas, técnicos agronômicos, trabalhadores de colheita mecanizada e beneficiamento nas casas de seda e fiação, até caminhoneiros, profissionais de logística e serviços especializados em manutenção de equipamentos, além de funções administrativas nas fazendas e cooperativas que sustentam o fluxo produtivo.
“A organização produtiva é a alma do nosso negócio aqui. Sem bons arranjos entre os produtores, e assessoria para escoamento, manejo, e mesmo com eventos climáticos não previstos, que agora estão cada vez mais comuns, não teríamos como seguir adiante”, afirma Cláudio Leal, integrante da ABAPA.
Quem sustenta a engrenagem
A história de São Desidério, é claro, não se resume a gráficos ascendentes. Por trás dos recordes estão famílias que apostaram tudo na terra, técnicos que adaptaram sementes ao clima, trabalhadores rurais que sustentam a engrenagem produtiva e uma cidade que precisou se reinventar para dar conta do crescimento.
O município viu surgir cooperativas, associações de produtores, centros de pesquisa aplicada e uma rede de serviços que gira em torno do agronegócio: revendas de máquinas, empresas de logística, consultorias ambientais, escolas técnicas. O campo puxou a cidade, e a cidade passou a servir ao campo.

Ao mesmo tempo, essa expansão trouxe dilemas como concentração fundiária, pressão sobre recursos hídricos, conflitos socioambientais e o desafio permanente de transformar riqueza agrícola em desenvolvimento social duradouro.
“Há um esforço grande em organizar a vida das famílias, em traduzir toda essa história em bem estar para todos, mas é um processo mais lento do que gostaríamos. A percepção de que é necessário melhorar os equipamentos públicos, aumentar linhas de crédito para que as famílias se organizem em pequenas produções e suporte técnico ainda não acompanha o nosso desejo”, desabafa Leal.
Água, tecnologia e escala
Poucos municípios brasileiros expressam de forma tão clara a tríade que define a agricultura contemporânea: água, tecnologia e escala. Em São Desidério, sistemas de irrigação por pivô central desenham círculos perfeitos no meio do Cerrado. Máquinas guiadas por GPS operam com precisão milimétrica, conta Junqueira. A produção é pensada para mercados globais, com preços definidos em bolsas internacionais.
Esse modelo colocou o município no centro das discussões sobre produtividade, sustentabilidade e futuro do agronegócio brasileiro. A pergunta que ecoa nos debates locais não é se São Desidério continuará sendo uma potência agrícola, mas como.
“Hoje, os principais debates no campo é como ajustar a produção às exigências de tecnologia socioambiental. As lavouras aqui ainda funcionam em um esquema de consumo volumoso de água, uma questão que precisa ser enfrentada para não gerar problemas em médio prazo”, afirma o consultor.
A espera de um projeto de cidade
Hoje, São Desidério vive a contradição típica das fronteiras agrícolas consolidadas; é símbolo de eficiência produtiva e, ao mesmo tempo, palco de disputas sobre uso da terra, preservação ambiental e inclusão social. O desafio que se impõe é transformar a liderança agrícola em um projeto mais amplo de cidade, onde educação, saúde, infraestrutura e qualidade de vida avancem no mesmo ritmo das colheitas.

Apesar de figurar entre os municípios mais ricos do país quando o critério é a produção agrícola, São Desidério ainda carrega indicadores sociais que avançam em ritmo mais lento. O Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) mais recente disponível, calculado pelo PNUD com base no Censo 2010, é de 0,579, classificado como desenvolvimento humano médio. Desde então, dados mais recentes do IBGE apontam melhora na renda, escolaridade e acesso a serviços básicos, impulsionados pela força do agronegócio e pela arrecadação municipal.
Ainda assim, o contraste permanece: a riqueza que brota das lavouras nem sempre se traduz de forma proporcional em qualidade de vida para toda a população, revelando o desafio histórico de converter produtividade recorde em desenvolvimento social duradouro.
No coração do Oeste baiano, São Desidério segue plantando em escala continental. O que está em jogo agora é se conseguirá colher, além de grãos e fibras, um futuro que faça sentido para todos que vivem à sombra de suas lavouras.
Este texto integra a série de reportagens especiais do Investindo Por Aí sobre as cidades mais ricas do Nordeste