
São Francisco do Conde, conhecida por décadas como a cidade mais rica da Bahia e do Nordeste, enfrenta agora um cenário de reflexão sobre seu futuro econômico. Durante anos, o município apresentou um dos maiores PIBs per capita do país, sustentado principalmente pela operação da refinaria Landulpho Alves, que pertencia à Petrobras. Com a venda da unidade para o grupo Mubadala, operando agora sob o nome Acelen, a realidade começou a mudar de forma significativa.
Segundo dados oficiais, o PIB per capita de São Francisco do Conde chegou a R$ 321 mil em 2021, o maior da Bahia e um dos mais elevados do Brasil. Parte dessa arrecadação financiava serviços públicos essenciais, como saúde, educação e programas sociais que beneficiam diretamente a população local. No entanto, com a privatização da refinaria, parte significativa da receita deixou de ser registrada no município. Em 2023, a arrecadação de ICMS foi de R$ 564 milhões, enquanto em 2024 caiu para R$ 312 milhões, quase metade do valor anterior.
Em outubro de 2025, a Petrobras descartou qualquer plano de recompra da refinaria até 2029. Em comunicado, a estatal afirmou que a reaquisição não está prevista em seu Plano Estratégico 2024-2028. Claudio Romeo Schlosser, Diretor Executivo de Logística, Comercialização e Mercados da companhia, explicou que a decisão não descarta reavaliações futuras, mas reforça o status quo atual: a operação permanecerá sob gestão da Acelen nos próximos anos.
O impacto para São Francisco do Conde é direto e profundo. A refinaria é a principal fonte de empregos e receita do município, e a redução na arrecadação obrigou a prefeitura a reorganizar prioridades para manter serviços essenciais. Em nota oficial, a gestão esclareceu que não recebeu R$ 79 milhões como circulou na imprensa, mas sim R$ 23,9 milhões referentes ao ITIV (Imposto sobre Transmissão Inter Vivos).
Em meio a esse contexto, a prefeitura vem buscando alternativas junto ao Governo do Estado e à União. “Temos discutido projetos de diversificação econômica, turismo e capacitação profissional para reduzir a dependência de uma única fonte de receita”, informou a Secretaria de Comunicação do município. A ideia é construir um modelo mais equilibrado e sustentável, capaz de transformar a riqueza histórica da cidade em oportunidades para a população.
São Francisco do Conde, que ainda conserva seu patrimônio histórico e cultural, se vê diante de um desafio conhecido: a necessidade de reinventar sua economia. Pequena em território, com cerca de 38,7 mil habitantes distribuídos em 269,7 km², a cidade precisa transformar a herança do petróleo em desenvolvimento real para todos. Como ressaltou a administração local, “São Francisco do Conde é muito mais do que sua arrecadação. Somos uma terra de história, cultura, luta e potencial. A crise é real, mas não é definitiva”.
A situação reforça uma característica antiga da cidade, que é a dependência de um único ciclo econômico. Assim como o açúcar sustentou sua economia no passado, e o petróleo transformou sua riqueza, agora o município busca diversificação e resiliência.
Este texto integra a série de reportagens do Investindo Por Aí sobre as cidades mais ricas do Nordeste