
Localizada a pouco mais de 100 km do Recife, no Agreste pernambucano, a cidade de São Vicente Férrer tem se destacado como uma referência nacional em transição energética e inovação na gestão pública. Em 2024, o município se tornou o primeiro do Brasil a implantar sistemas de energia solar em todos os seus prédios públicos e adquirir veículos elétricos para a frota municipal. A medida visa não apenas reduzir os custos com energia e combustíveis, mas também promover um modelo de desenvolvimento mais sustentável.
A iniciativa começou no ano anterior, após a Prefeitura obter uma linha de crédito de R$4 milhões junto ao Banco do Brasil. Em vez de investir em uma usina centralizada, a cidade optou por uma solução descentralizada: a instalação de 1.850 painéis solares em 15 imóveis públicos, como escolas, hospitais, creches e unidades administrativas. A expectativa é que a economia gerada na conta de luz supere R$1,5 milhão por ano — recursos que serão reinvestidos em serviços essenciais, como a saúde.
O especialista em projetos e professor da FGV em ESG e sustentabilidade, Jaques Paes, considera que a experiência de São Vicente Férrer é emblemática justamente por mostrar que a transição energética não é exclusividade de grandes centros urbanos ou de projetos milionários. “Quando uma cidade de pequeno porte consegue estruturar uma solução energética 100% limpa para seus prédios públicos, ela cria um precedente prático e inspirador para municípios com desafios similares”, afirma.
“O exemplo mostra que é possível gerar economia fiscal, reduzir emissões e promover inovação mesmo em contextos orçamentários mais restritos. Isso amplia o campo de visão de gestores públicos de outras localidades e ajuda a quebrar a percepção de que transição energética é algo distante ou complexo demais para ser implementado localmente”, acrescenta Paes.
Outro passo importante foi a aquisição de quatro veículos elétricos, com investimento de R$700 mil, viabilizada com recursos próprios e do Fundeb. Os automóveis serão utilizados em áreas estratégicas: transporte de pacientes, mobilidade escolar e assistência social. A meta do município é substituir gradualmente toda a frota a combustíveis fósseis até 2025, contribuindo para uma redução de até 30 toneladas de CO₂ por ano.
Paes comenta que do ponto de vista econômico, o principal benefício imediato é a redução das despesas correntes com energia elétrica e combustíveis. “Em muitos casos, os recursos economizados podem ser redirecionados para áreas prioritárias, como saúde e educação”, diz.
Já no aspecto ambiental, o especialista aponta que a diminuição das emissões de gases de efeito estufa e a menor dependência de fontes fósseis contribuem diretamente para os compromissos climáticos do país. Além disso, essas ações fortalecem a imagem institucional do município, atraem possíveis parcerias e fomentam o desenvolvimento de uma cultura local mais voltada à sustentabilidade.
A localização geográfica da cidade, em uma região de forte irradiação solar, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), fortalece ainda mais a vocação de São Vicente Férrer para a energia fotovoltaica. O exemplo tem chamado a atenção de outros municípios nordestinos, que começam a ver na energia limpa uma alternativa viável, econômica e estratégica.
Plataforma Clima PE impulsiona ações locais de sustentabilidade
O avanço de São Vicente Férrer dialoga diretamente com as diretrizes do Governo de Pernambuco, que tem incentivado os municípios a adotarem medidas sustentáveis por meio de iniciativas como a plataforma digital Clima PE. A ferramenta, criada em parceria com o ICLEI América do Sul e com financiamento do Future Fund da Under2 Coalition, visa fortalecer a ação climática local em todo o estado.
A secretária executiva de Sustentabilidade da Secretaria do Meio Ambiente e Sustentabilidade de Pernambuco (Semas-PE), Karla Godoy, comenta que o mapeamento realizado pelo Clima PE orienta tomadas de decisão por parte do Estado, viabilizando o direcionamento de recursos e ações técnicas conforme o grau de maturidade de cada município.
“O Clima PE tem sete eixos temáticos: Governança e instrumentos; Educação e comunicação; Adaptação e gestão de risco aos impactos climáticos; Agricultura de baixo carbono e resiliente; Conservação e recuperação ambiental; Gestão sustentável de resíduos; Energia e transportes. A categorização dos municípios em estágios — inicial, intermediário ou avançado — facilita a identificação de necessidades específicas e prioridades locais, além de estimular a elaboração de instrumentos normativos e de planejamento, como planos de adaptação e legislações ambientais”, detalha.
No caso de São Vicente Férrer, embora as ações de transição energética estejam em andamento, o município ainda se encontra na fase inicial dentro do Clima PE. O levantamento indica que 63% dos municípios já dispõem de instrumentos de gestão de risco, como planos de contingência e mapeamento de áreas vulneráveis — medidas fundamentais para fortalecer a resiliência local frente a eventos climáticos extremos.
O estudo também aponta oportunidades: cerca de 76% das cidades contam com alguma estrutura institucional voltada à área ambiental, e mais da metade desenvolve iniciativas de educação ambiental, mesmo sem uma legislação específica.
“Em outras palavras, a plataforma permite o mapeamento de riscos climáticos no território pernambucano. Ainda que desafios persistam — como o fato de que 91% dos municípios ainda não conhecem suas emissões de gases de efeito estufa”, afirma Karla.
Segundo a secretária, o Clima PE contribui para o fortalecimento institucional ao incentivar a criação de conselhos e estruturas administrativas dedicadas à pauta climática. Também estimula a transparência e o compartilhamento de informações entre os entes locais, atuando como um espaço de aprendizado coletivo e articulação técnica.
Articulação com o setor produtivo
A plataforma Clima PE, além de funcionar como ferramenta de diagnóstico e monitoramento da agenda climática nos municípios pernambucanos, também tem potencial para articular com o setor produtivo local, especialmente com micro e pequenas empresas, ao promover um ambiente favorável à transição para uma economia de baixo carbono.
Karla explica que, a partir das informações inseridas pelos municípios, a plataforma identifica boas práticas e iniciativas locais voltadas à sustentabilidade — como ações de eficiência energética, mobilidade sustentável, gestão de resíduos, reflorestamento e agricultura de baixo carbono — que podem ser ampliadas ou replicadas com o apoio de empreendedores e produtores locais.
“Ao evidenciar essas ações e gerar dados territoriais organizados por sete eixos temáticos, o Clima PE permite que o Estado identifique oportunidades para integrar o setor produtivo às políticas públicas climáticas, estimulando cadeias produtivas sustentáveis e o desenvolvimento de soluções locais adaptadas às realidades regionais”, garante.
Além disso, ao fomentar a transparência e o compartilhamento de informações entre os municípios, a plataforma cria um espaço de aprendizado coletivo que pode ser aproveitado para aproximar o setor produtivo das agendas ambientais, por meio de parcerias, editais, capacitações e estímulo à inovação. O Clima PE também atua como instrumento de planejamento estratégico, orientando gestores locais sobre lacunas e possibilidades de ação, o que pode incluir o incentivo à criação de programas e políticas voltadas ao fortalecimento das micro e pequenas empresas dentro do contexto da economia verde.
“Assim, a plataforma não apenas organiza e sistematiza dados, mas também contribui para impulsionar um modelo de desenvolvimento mais inclusivo e sustentável ao facilitar a integração entre governos locais e atores econômicos comprometidos com práticas ambientalmente responsáveis”, conclui Karla.
Desafios e caminhos para o futuro
Para enfrentar as mudanças climáticas e seus efeitos — como ondas de calor, chuvas extremas e aumento de doenças transmitidas por vetores —, é essencial fortalecer a cooperação entre os níveis de governo e aprimorar a governança ambiental local.
Com sua experiência concreta, São Vicente Férrer prova que é possível conciliar inovação tecnológica, responsabilidade fiscal e compromisso ambiental. Agora, o desafio é traduzir esse avanço também em planejamento e legislação, garantindo que a cidade e outras do estado avancem não apenas na prática, mas também nas políticas que sustentam uma transição energética duradoura e inclusiva.
Paes reforça que projetos como esse geralmente demandam uma combinação de planejamento técnico, articulação com empresas do setor de energia e acesso a linhas de financiamento específicas. “Muitas cidades contam com o apoio de programas estaduais e federais, ou mesmo com fundos climáticos e bancos de desenvolvimento que oferecem crédito para projetos sustentáveis”, afirma.
O especialista ainda avalia que, do ponto de vista técnico, é fundamental contar com diagnósticos energéticos bem estruturados e com parceiros especializados para garantir que a instalação e a manutenção das soluções ocorram de forma eficiente e segura. “A presença de um plano de médio e longo prazo também é essencial para garantir a sustentabilidade financeira da iniciativa”.