
Sergipe vive um dos momentos econômicos mais dinâmicos de sua história recente. Mesmo sendo o menor estado do país, seu PIB deve registrar um crescimento de 3,6% em 2025, ligeiramente acima da média nacional, impulsionado por uma economia diversificada e por sua posição estratégica no Nordeste. Com um PIB estimado em R$ 57 bilhões, avanços no setor de serviços, expansão do turismo, fortalecimento industrial e exploração de petróleo e gás, o estado amplia sua base produtiva e segue gerando empregos. Em 2024, o saldo de contratações cresceu 32,9%.
Esse cenário cria o ambiente ideal para a chegada de um novo protagonista na economia sergipana: a mineração. Nos últimos meses, Sergipe deixou de ser um estado com potencial geológico subexplorado para entrar no mapa estratégico da produção de potássio e minerais críticos no país.
O movimento ganhou força durante a Exposibram 2025, quando dois projetos de grande porte colocaram Sergipe entre as novas fronteiras da mineração nacional. A Backshore Resources apresentou seu plano de exploração de minerais críticos, essenciais para baterias, energia solar e tecnologias de descarbonização. Já a South Atlantic Potash detalhou seu empreendimento de potássio, considerado estratégico para reduzir a dependência brasileira de fertilizantes importados.
Os dois projetos somam mais de US$ 2,1 bilhões em investimentos e têm potencial para gerar mais de 1,6 mil vagas diretas e indiretas de emprego. Ambos contam com articulação da Agência Sergipe de Desenvolvimento, que atua como ponte entre investidores internacionais e o governo estadual.
O Desenvolve-SE afirma que o compromisso é garantir que estes investimentos representem “desenvolvimento ambientalmente responsável”.
E sobre o Potássio?
Sendo um dos insumos mais estratégicos para o agronegócio brasileiro, o Potássio depende das importações para suprir até 85% da demanda, o tornando vulnerável a instabilidades externas. O projeto da SAP, que movimentará 1,5 bilhão de dólares, busca reduzir parte dessa dependência, com capacidade de diminuir em até 10% o volume importado. O empreendimento deve gerar cerca de mil empregos diretos e indiretos durante a operação.
Já o projeto da Backshore Resources coloca Sergipe no centro da transição energética global. A empresa pretende extrair minerais críticos essenciais para veículos elétricos, painéis solares e tecnologias de alto desempenho. O investimento estimado é de US$ 600 milhões.
De petróleo e gás à mineração: a virada sergipana
O novo ciclo mineral só se explica pela trajetória econômica que Sergipe construiu ao longo das últimas décadas. A exploração de petróleo e gás, tanto em campos terrestres quanto marítimos, consolidou o estado como um dos principais produtores de petróleo do Nordeste e inaugurou um período de modernização acelerada. Esse avanço garantiu uma nova fonte de receitas e redefiniu a dinâmica econômica local, fazendo com que Sergipe se tornasse referência nacional em evolução, investimentos e geração de riqueza no século XXI.
O boom do petróleo foi um divisor de águas. Na década de 1970, a economia sergipana cresceu 10%, impulsionada pela ascensão desse setor, que trouxe ao estado uma receita mais dinâmica e com grande potencial de expansão. Os royalties recebidos ao longo dos anos foram direcionados para infraestrutura, educação e modernização produtiva, criando um ambiente favorável à chegada de novas empresas. Esse movimento resultou na instalação de indústrias ligadas à cadeia do petróleo; petroquímicas, fábricas de fertilizantes e plástico. O que ajudou a definir o perfil econômico local.
No final do século passado, a industrialização tornou-se o motor da economia sergipana, superando atividades historicamente dominantes, como a agropecuária. Para se ter dimensão dessa mudança, em 2010, a indústria representava 28,6% do PIB estadual, ficando atrás apenas do setor de serviços, enquanto o agronegócio recuava para 4,6%. Embora o peso industrial tenha diminuído para 23% nos anos recentes, Sergipe mantém trajetória de evolução acima da média nacional. Em 2024, o estado cresceu 3,6%, desempenho superior ao avanço nacional de 3,5% e acima da própria projeção interna, que era de 1,7%.
Esse conjunto de fatores, envolvendo infraestrutura energética consolidada, ambiente regulatório mais robusto e mão de obra especializada, auxiliou o caminho para a chegada do setor mineral, hoje tratado como uma nova vocação econômica.
Nesse contexto, a venda do Complexo Mineroquímico de Taquari-Vassouras, em Rosário do Catete, reforça o novo ciclo econômico de Sergipe. A mina, única produtora de potássio em atividade no país, foi adquirida pela VL Holding, que se comprometeu a ampliar a eficiência e a produtividade da operação, um movimento visto como estratégico para o mercado nacional de fertilizantes.
Ao assumir o controle da unidade, a empresa destacou que a localização do estado oferece vantagens logísticas importantes, por estar próxima aos principais polos consumidores do Nordeste, o que reduz custos e dá mais previsibilidade à cadeia de suprimentos. A transição também garantiu a manutenção dos cerca de 1,5 mil trabalhadores da mina, que segue operando normalmente.
Na negociação, a antiga gestora, Mosaic, recebeu US$ 27 milhões, além de valores condicionados a resultados futuros, previstos para os próximos seis anos. A VL Mineração também assumiu responsabilidades de descomissionamento estimadas em US$ 22 milhões.
Para o economista Marcelo Góes, da USP, Sergipe simboliza um novo modelo de desenvolvimento mineral no país. “O estado une vantagem geológica, ambiente regulatório inteligente e projetos com forte compromisso ambiental. O resultado é uma mineração moderna, voltada para autonomia produtiva e desenvolvimento regional sustentável.”
Ele afirma que a continuidade da mina e sua integração a um ambiente de novos investimentos reforçam a relevância de Sergipe na cadeia produtiva do potássio, ao mesmo tempo em que ampliam a segurança do agronegócio brasileiro diante da dependência externa.
