
Os números mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) confirmam que Sergipe atravessa um momento singular na agropecuária. A aquisição de leite cru atingiu 154,3 milhões de litros em um trimestre, crescimento de 27,6%, desempenho que reposiciona o estado no mapa da produção leiteira do Nordeste. O dado ganha ainda mais relevância quando analisado em conjunto com a alta de 11,9% no abate de bovinos, sinalizando a consolidação de um ciclo pecuário mais amplo, que integra leite, carne, agroindústria e comércio regional.
De acordo com o secretário de Estado da Agricultura, Desenvolvimento Agrário e da Pesca, Zeca Ramos da Silva, esse avanço resulta de um conjunto de fatores estruturais, produtivos e territoriais que vêm sendo trabalhados de forma contínua no sertão sergipano. Um dos pilares é a melhoria das estradas vicinais, que tem papel central na logística da atividade. “A melhoria constante das estradas vicinais facilita a coleta do leite e garante melhor escoamento da produção”, afirmou o secretário, ao destacar que a eficiência logística reduz perdas, custos e amplia a competitividade do produtor.
Outro elemento decisivo é o incentivo ao uso da palma forrageira como base alimentar do rebanho. A cultura tem sido fundamental para garantir estabilidade produtiva em uma região marcada por longos períodos de estiagem. Segundo Zeca Ramos, o uso da palma contribui diretamente para o fortalecimento da pecuária leiteira, ao assegurar alimentação regular aos animais mesmo em condições climáticas adversas, característica típica do semiárido.
A concentração da produção em polos específicos também chama atenção. Poço Redondo, Porto da Folha e Nossa Senhora da Glória figuram entre os 20 maiores produtores de leite do Brasil e, juntos, respondem por quase metade de toda a produção estadual. Para a Secretaria de Agricultura (Seagri), esse desempenho é reflexo direto de políticas públicas voltadas à estruturação da cadeia produtiva. A atuação inclui assistência técnica e extensão rural, melhoramento genético da pecuária e projetos considerados inovadores, voltados sobretudo aos pequenos produtores.
Essas ações, segundo o secretário, garantem mais qualificação, orientação e oportunidades aos criadores, elevando o rendimento tanto das lavouras quanto da criação animal. Paralelamente, a adoção de tecnologias de bem-estar animal tem acelerado a capacidade produtiva desses municípios. Sistemas de confinamento total, como o compost barn, vêm sendo incorporados à realidade local, permitindo ganhos rápidos e progressivos de produtividade, além de maior controle sanitário e eficiência no manejo do rebanho.

O impacto econômico da pecuária leiteira no sertão vai além da porteira. Zeca Ramos ressalta que a atividade gera renda de forma direta e indireta, sustentando um conjunto de indústrias de beneficiamento em operação no estado, desde grandes laticínios até pequenas fabriquetas espalhadas pelo interior. Essas unidades não apenas processam a produção local, como também criam empregos e fortalecem o tecido econômico regional.
Segundo o secretário, no médio e alto sertão a pecuária leiteira se consolidou como principal fonte de renda e como base de sustentação do comércio local. O dinheiro circula diretamente na economia dos municípios, movimentando desde mercados e oficinas até a venda de insumos, máquinas e equipamentos. Esse encadeamento produtivo contribui para a fixação do homem no campo, reduzindo o êxodo rural e fortalecendo a economia local de forma contínua.
No campo das políticas públicas, a Seagri mantém programas específicos para fortalecer a cadeia do leite, com foco prioritário em pequenos e médios produtores. Um dos destaques é o IATF Sergipe, que oferece acesso à inseminação artificial por tempo fixo com sêmen de alto padrão genético. Em 2025, o programa inseminou 409 fêmeas bovinas, alcançando taxa de prenhez de 52,25%, superior à média nacional. Ao todo, 69 criadores de sete municípios foram beneficiados, todos com rebanhos de até 50 animais, o que reforça o caráter inclusivo da iniciativa.
Para a Secretaria, o crescimento simultâneo da produção de leite e do abate de bovinos confirma que Sergipe vive um novo ciclo pecuário. Sustentar esse avanço, no entanto, exige ações permanentes. Entre os desafios apontados estão as condições climáticas do semiárido, a necessidade de ampliar o acesso à água e a manutenção do status sanitário do estado. Nesse sentido, Zeca Ramos destaca a importância da assistência técnica em sanidade animal, que mantém Sergipe há 27 anos como zona livre de febre aftosa.
Outros instrumentos considerados estratégicos incluem a certificação de laticínios e o fortalecimento da agroindústria local. O Selo do Sistema Brasileiro de Inspeção de Produtos de Origem Animal (SISBI), em parceria com o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), tem ampliado mercados para pequenas e médias indústrias, permitindo que produtos sergipanos ultrapassem fronteiras estaduais. Além disso, o governo estadual atua com a disponibilização de sementes de milho e palma forrageira, assegurando alimentação adequada ao rebanho.
No campo social, programas como o de Aquisição de Alimentos Leite (PAA-Leite) reforçam o papel econômico e social da atividade. A iniciativa distribui diariamente 3.027 litros de leite a famílias em situação de vulnerabilidade. Já o Programa Mão Amiga Pró Sertão Bacia Leiteira atende 2.747 produtores em sete municípios, funcionando como rede de proteção e estímulo à permanência no campo.
Um dos projetos mais estruturantes em andamento é a Adutora do Leite, que ligará Canindé do São Francisco a Poço Redondo. Com 123 quilômetros de extensão, passando por cinco municípios, a obra ampliará significativamente a oferta de água para dessedentação dos rebanhos na principal região produtora do estado. O investimento estimado é de R$ 618,2 milhões e deve beneficiar aproximadamente 23 mil famílias que vivem da pecuária e da agroindústria, reforçando a base hídrica necessária para sustentar o crescimento no longo prazo.
O Investindo por Aí entrou em contato com a assessoria do Banco do Estado de Sergipe (Banese) para apurar a existência de linhas de crédito específicas voltadas à cadeia da pecuária leiteira, mas não houve retorno até o fechamento desta matéria.