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30 de março de 2026 15:53

Startup baiana projeta lançar 216 satélites e vira alvo dos EUA por suposta ligação com a China

Startup baiana projeta lançar 216 satélites e vira alvo dos EUA por suposta ligação com a China

Fundada por arquiteta em Salvador, a Alya Space nega vínculos militares e afirma atuar sob marcos civis, mas contrato de US$ 675 milhões com grupo de Hong Kong acirra tensões geopolíticas
Foto: Divulgação

Uma empresa fundada por uma arquiteta em Salvador, com sede no principal centro financeiro da Bahia e uma proposta de democratizar o acesso a imagens de satélite no Brasil, se viu de repente no epicentro de um debate geopolítico de alcance internacional. A Alya Space, criada no fim de 2019, ganhou repercussão global após um relatório do Comitê Seleto sobre a China, ligado ao Congresso dos Estados Unidos, afirmar que o Brasil abrigaria uma “base militar secreta chinesa” e apontar a empresa baiana como parte dessa estrutura.

O documento cita uma instalação chamada Estação Terrestre de Tucano, no semiárido baiano, e a associa a uma parceria entre a Alya Space e a companhia chinesa Beijing Tianlian Space Technology. Segundo o relatório, a instalação seria classificada como “não oficial” e teria capacidade de permitir à China identificar ativos militares estrangeiros e rastrear objetos espaciais em tempo real no continente sul-americano. O texto afirma ainda que a base “fornece à República Popular da China um canal para observar e influenciar a doutrina espacial militar brasileira, ao mesmo tempo que estabelece uma presença permanente em uma região vital para a segurança nacional dos EUA”.

A Alya Space rejeitou categoricamente as acusações. Em nota oficial, a empresa afirmou que “as interpretações que associam a empresa a atividades secretas de vigilância estratégica ou aplicações militares não refletem sua atuação” e reforçou que opera “sob princípios estritamente civis, comerciais e alinhados às legislações nacionais e internacionais aplicáveis”. A companhia também detalhou que atua junto à Anatel para licenciamento de radiofrequências e obteve junto à União Internacional de Telecomunicações (UIT) o status de operadora de satélites.

Da lacuna de mercado à constelação de 216 satélites

A origem da Alya Space está longe dos laboratórios aeroespaciais. A fundadora e CEO, Aila Raquel Cruz Ribeiro, é arquiteta e urbanista de formação. Em 2019, ao trabalhar em projetos que demandavam imagens de satélite de alta precisão, deparou-se com um obstáculo recorrente: a escassez de imagens brasileiras produzidas por satélites nacionais e o custo elevado das alternativas disponíveis.

“Eu percebi que havia um gap muito grande sobre não termos satélites brasileiros para fazermos imagens brasileiras e, portanto, ter aquele preço acessível a qualquer brasileiro”, explicou em entrevista ao Portal RFI. Dessa percepção nasceu um projeto que, em poucos anos, evoluiu de uma proposta de acesso a imagens para a construção de uma constelação própria de satélites de observação da Terra.

Sem formação técnica em engenharia aeronáutica ou física, Aila estruturou o projeto articulando especialistas e centros de pesquisa. Em 2020, venceu o Desafio Amazônia 4.0, promovido pela Força Aérea Brasileira, e participou do design da missão Alya-1 em parceria com o Instituto de Estudos Avançados (IEAv), vinculado ao Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial.

O projeto prevê o lançamento de 216 nanossatélites em órbita baixa, equipados com sensores ópticos e de radar de alta resolução de 50 cm/pixel, organizados nas fases Alya-1 e Alya-2. A constelação seria capaz de gerar imagens a cada 10 minutos, com atualização tecnológica bienal da frota. As aplicações previstas abrangem agronegócio, mineração, monitoramento ambiental, cidades inteligentes, energia limpa e resposta a desastres naturais. Quatro estações terrestres estão planejadas no Brasil, nas regiões do Mato Grosso, São Paulo, Bahia e Maranhão.

O contrato de US$ 675 milhões e a parceria asiática

O avanço mais concreto do projeto ocorreu em outubro de 2023, quando o Grupo de Tecnologia Aeroespacial de Hong Kong anunciou a assinatura de um contrato para a construção do Sistema Alya-1, contemplando a fabricação de 108 satélites integrados, dois centros operacionais e duas estações terrestres. O valor total do contrato é de aproximadamente US$ 675 milhões — cerca de R$ 3,4 bilhões na conversão cambial da época.

A escolha por um fabricante asiático foi, segundo Aila, essencialmente técnica. “Eu tinha procurado por toda a Europa. Ainda não tinha encontrado uma empresa que pudesse fazer uma integração tão rápida e massiva e com alta qualidade. Hoje em dia, eles têm o ISO e uma automação fantástica, utilizam a inteligência artificial e muita robótica”, afirmou. A parceira é a Hong Kong Aerospace Technology Group.

É justamente essa conexão asiática que alimenta as suspeitas americanas. O relatório do Congresso dos EUA sustenta que Pequim manteria ao menos dez bases estratégicas na América do Sul, estruturadas por meio de parcerias comerciais em setores tecnológicos sensíveis; e enquadra a instalação da Alya em Tucano nesse contexto.

A Alya Space ainda se encontra em fase de pesquisa e desenvolvimento, sem operação comercial ativa prevista até 2027. A fazenda experimental em Tucano é descrita pela empresa como área de calibração de sensores, onde são simuladas condições de vegetação, solo e água para o desenvolvimento de algoritmos de inteligência artificial embarcados nos satélites.

A empresa também está em processo de incorporação na Europa e integra a Aliança das Startups Espaciais Brasileiras. Entre seus projetos anunciados está uma parceria com a ONG Panthera para monitoramento de fauna no Pantanal e na Amazônia, além de interesse declarado em utilizar o Centro Espacial de Alcântara para futuros lançamentos.

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