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9 de fevereiro de 2026 13:28

Sudene articula políticas estruturantes para mitigar efeitos da uberização no mercado de trabalho nordestino

Sudene articula políticas estruturantes para mitigar efeitos da uberização no mercado de trabalho nordestino

Expansão da modalidade de trabalho se apoia em fatores como transporte público insuficiente, urbanização desordenada e desemprego estrutural

Caio Resende ainda não se acostumou com o despertador que toca às 3 horas da manhã. Natural de Juazeiro do Norte, no Ceará, ele deixou a cidade natal aos 19 anos em busca de trabalho. Hoje, aos 32, roda como motorista de aplicativo por quase 18 horas diárias. Sai de casa antes do amanhecer e só retorna por volta das 21 horas. No dia seguinte, repete tudo.

“Tem dia que passo mais de oito horas sem comer. Só lembro quando começo a sentir a pressão baixar”, conta. Ele diz que escolheu o trabalho por acreditar que era uma das únicas saídas. “Ou eu entrava pro aplicativo, ou não ia conseguir pagar as contas. Parecia uma boa. É uma coisa que posso controlar, querendo ou não, né? Ainda que passe sufoco, consigo não “fechar o mês” no vermelho”

A rotina de Caio resume parte do debate que tomou conta do Fórum das CUTs do Nordeste, realizado nos dias 22 e 23 de setembro, no Recife. O encontro reuniu presidentes e dirigentes da Central Única dos Trabalhadores dos nove estados da região para discutir caminhos de desenvolvimento e a necessidade de participação dos trabalhadores em espaços de decisão, sobretudo num contexto marcado pela expansão acelerada da uberização.

O Fórum das CUTs possui três coordenações distribuídas por sub-regiões: a sul, com Sergipe, Alagoas e Bahia, coordenada por Roberto Silva; a centro, com Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte, coordenada por Irailson Nunes; e a norte, com Piauí, Ceará e Maranhão, coordenada por Manuel Lajes. A Escola Nordeste da CUT também participou, representada por Messias Vale, Lúcia Silveira, Eliane Bandeira e Paulo Sousa.

No primeiro dia de debates, Fausto Augusto Jr., presidente do Conselho Nacional do SESI, destacou o potencial de desenvolvimento do Nordeste nos próximos anos e defendeu a Nova Indústria Brasil como política estruturante de reindustrialização.

No segundo dia, o superintendente da SUDENE, Francisco Ferreira Alexandre, apresentou um panorama histórico da autarquia. Ele lembrou que a instituição foi extinta no governo FHC, retomada no governo Lula e enfraquecida no governo Bolsonaro. Agora, no terceiro mandato de Lula, voltou a ser o principal motor de investimentos para o desenvolvimento regional.

Segundo Ferreira, a missão da SUDENE é executar o Plano Regional de Desenvolvimento do Nordeste, que prevê 54 bilhões de reais em investimentos com foco em inclusão social, sustentabilidade e trabalho decente. Ele reforçou que a autarquia pode firmar parcerias com diversas instituições, como universidades, movimento sindical, institutos de pesquisa e bancos executores, ampliando sua capacidade de atuação. Entre essas parcerias está o Termo de Cooperação Técnica com a CUT, em fase final de tramitação.

Em sintonia com o tema central do Fórum, Ferreira chamou atenção para os desafios do mundo do trabalho, citando a precarização crescente, a ausência de proteção na uberização e os casos persistentes de trabalho análogo à escravidão. Ele defendeu um modelo de desenvolvimento que garanta dignidade e elimine práticas extremas de exploração.

O Fórum também recebeu Roberto Veras, pesquisador das relações de trabalho no Nordeste, que debateu o papel da CUT e do movimento sindical diante das mudanças tecnológicas e econômicas em curso.

Ao final, o encontro reforçou que o desenvolvimento regional não pode se limitar à chegada de novos empreendimentos e indústrias. É preciso enfrentar desigualdades sociais, considerar problemas ambientais, garantir direitos trabalhistas e fortalecer a organização sindical. Como afirmou Roberto Silva, presidente da CUT-SE, “a indústria tem que vir, tem que gerar emprego, mas não pode vir de qualquer jeito”.

A questão regional

A intensificação da jornada, a ausência de proteção social e o deslocamento dos riscos para o trabalhador são dimensões centrais da uberização. Em estados como o Maranhão, mais de seis mil motoristas estavam cadastrados em plataformas já em 2018, com forte concentração na Região Metropolitana de São Luís.

Para além do crescimento da atividade, o estudo mostra que a expansão se apoia em fatores como transporte público insuficiente, congestionamentos, urbanização desordenada e desemprego estrutural, que empurram milhares de trabalhadores para aplicativos como única alternativa de renda.

A quarta revolução industrial

A expansão das plataformas digitais está diretamente ligada ao avanço da chamada quarta revolução industrial, um processo marcado pela integração de tecnologias digitais, inteligência artificial, automação e sistemas de dados capazes de reorganizar profundamente o mundo do trabalho.

Nas plataformas de transporte, essa lógica aparece na forma como algoritmos distribuem corridas, definem preços, monitoram desempenhos e estabelecem metas. A empresa transfere para o trabalhador todos os custos, do combustível à manutenção, e elimina qualquer vínculo empregatício, enquanto se apresenta apenas como intermediadora.

Estudos apontam que esse modelo reforça a flexibilização extrema e a precarização, ao mesmo tempo em que amplia os lucros das corporações. Como observam pesquisadores, trata-se de um tipo de capitalismo digital que redefine as relações sociais de trabalho e desloca responsabilidades para o indivíduo, mascarando desigualdades estruturais com o discurso da autonomia.

É nesse contexto que motoristas como Caio tentam sobreviver. Entre jornadas exaustivas, riscos constantes e remuneração variável, a promessa de liberdade se choca com a realidade de um trabalho moldado por necessidades urgentes e pela falta de alternativas.

“Se eu parar um dia, não pago as contas. A verdade é essa”, diz Caio.

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