Caio Resende ainda não se acostumou com o despertador que toca às 3 horas da manhã. Natural de Juazeiro do Norte, no Ceará, ele deixou a cidade natal aos 19 anos em busca de trabalho. Hoje, aos 32, roda como motorista de aplicativo por quase 18 horas diárias. Sai de casa antes do amanhecer e só retorna por volta das 21 horas. No dia seguinte, repete tudo.
“Tem dia que passo mais de oito horas sem comer. Só lembro quando começo a sentir a pressão baixar”, conta. Ele diz que escolheu o trabalho por acreditar que era uma das únicas saídas. “Ou eu entrava pro aplicativo, ou não ia conseguir pagar as contas. Parecia uma boa. É uma coisa que posso controlar, querendo ou não, né? Ainda que passe sufoco, consigo não “fechar o mês” no vermelho”
A rotina de Caio resume parte do debate que tomou conta do Fórum das CUTs do Nordeste, realizado nos dias 22 e 23 de setembro, no Recife. O encontro reuniu presidentes e dirigentes da Central Única dos Trabalhadores dos nove estados da região para discutir caminhos de desenvolvimento e a necessidade de participação dos trabalhadores em espaços de decisão, sobretudo num contexto marcado pela expansão acelerada da uberização.
O Fórum das CUTs possui três coordenações distribuídas por sub-regiões: a sul, com Sergipe, Alagoas e Bahia, coordenada por Roberto Silva; a centro, com Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte, coordenada por Irailson Nunes; e a norte, com Piauí, Ceará e Maranhão, coordenada por Manuel Lajes. A Escola Nordeste da CUT também participou, representada por Messias Vale, Lúcia Silveira, Eliane Bandeira e Paulo Sousa.
No primeiro dia de debates, Fausto Augusto Jr., presidente do Conselho Nacional do SESI, destacou o potencial de desenvolvimento do Nordeste nos próximos anos e defendeu a Nova Indústria Brasil como política estruturante de reindustrialização.
No segundo dia, o superintendente da SUDENE, Francisco Ferreira Alexandre, apresentou um panorama histórico da autarquia. Ele lembrou que a instituição foi extinta no governo FHC, retomada no governo Lula e enfraquecida no governo Bolsonaro. Agora, no terceiro mandato de Lula, voltou a ser o principal motor de investimentos para o desenvolvimento regional.
Segundo Ferreira, a missão da SUDENE é executar o Plano Regional de Desenvolvimento do Nordeste, que prevê 54 bilhões de reais em investimentos com foco em inclusão social, sustentabilidade e trabalho decente. Ele reforçou que a autarquia pode firmar parcerias com diversas instituições, como universidades, movimento sindical, institutos de pesquisa e bancos executores, ampliando sua capacidade de atuação. Entre essas parcerias está o Termo de Cooperação Técnica com a CUT, em fase final de tramitação.
Em sintonia com o tema central do Fórum, Ferreira chamou atenção para os desafios do mundo do trabalho, citando a precarização crescente, a ausência de proteção na uberização e os casos persistentes de trabalho análogo à escravidão. Ele defendeu um modelo de desenvolvimento que garanta dignidade e elimine práticas extremas de exploração.
O Fórum também recebeu Roberto Veras, pesquisador das relações de trabalho no Nordeste, que debateu o papel da CUT e do movimento sindical diante das mudanças tecnológicas e econômicas em curso.
Ao final, o encontro reforçou que o desenvolvimento regional não pode se limitar à chegada de novos empreendimentos e indústrias. É preciso enfrentar desigualdades sociais, considerar problemas ambientais, garantir direitos trabalhistas e fortalecer a organização sindical. Como afirmou Roberto Silva, presidente da CUT-SE, “a indústria tem que vir, tem que gerar emprego, mas não pode vir de qualquer jeito”.
A questão regional
A intensificação da jornada, a ausência de proteção social e o deslocamento dos riscos para o trabalhador são dimensões centrais da uberização. Em estados como o Maranhão, mais de seis mil motoristas estavam cadastrados em plataformas já em 2018, com forte concentração na Região Metropolitana de São Luís.
Para além do crescimento da atividade, o estudo mostra que a expansão se apoia em fatores como transporte público insuficiente, congestionamentos, urbanização desordenada e desemprego estrutural, que empurram milhares de trabalhadores para aplicativos como única alternativa de renda.
A quarta revolução industrial
A expansão das plataformas digitais está diretamente ligada ao avanço da chamada quarta revolução industrial, um processo marcado pela integração de tecnologias digitais, inteligência artificial, automação e sistemas de dados capazes de reorganizar profundamente o mundo do trabalho.
Nas plataformas de transporte, essa lógica aparece na forma como algoritmos distribuem corridas, definem preços, monitoram desempenhos e estabelecem metas. A empresa transfere para o trabalhador todos os custos, do combustível à manutenção, e elimina qualquer vínculo empregatício, enquanto se apresenta apenas como intermediadora.
Estudos apontam que esse modelo reforça a flexibilização extrema e a precarização, ao mesmo tempo em que amplia os lucros das corporações. Como observam pesquisadores, trata-se de um tipo de capitalismo digital que redefine as relações sociais de trabalho e desloca responsabilidades para o indivíduo, mascarando desigualdades estruturais com o discurso da autonomia.
É nesse contexto que motoristas como Caio tentam sobreviver. Entre jornadas exaustivas, riscos constantes e remuneração variável, a promessa de liberdade se choca com a realidade de um trabalho moldado por necessidades urgentes e pela falta de alternativas.
“Se eu parar um dia, não pago as contas. A verdade é essa”, diz Caio.
