
A série de debates Conexões Transnordestina chegou ao fim consolidando uma visão comum entre governo, especialistas, setor produtivo e sociedade civil. A conclusão da Ferrovia Transnordestina é decisiva para reposicionar o Nordeste no mapa da competitividade brasileira. O encontro final, realizado nesta semana no Porto de Suape, em Pernambuco, reuniu autoridades estaduais e federais, gestores portuários, acadêmicos e representantes da Sudene, que defenderam maior articulação política e investimentos contínuos para destravar o projeto, considerado estratégico para os próximos anos.
A governadora de Pernambuco, Raquel Lyra, foi enfática ao apontar que a ferrovia, iniciada há 15 anos, só avançará de forma consistente com reforço orçamentário e maior diálogo com o governo federal. A atual previsão é de apenas R$ 50 milhões no Orçamento da União de 2026, enquanto os recursos necessários para a conclusão do trecho pernambucano ultrapassam R$ 4 bilhões. “Vamos conversar com a Casa Civil e o Ministério dos Transportes para garantir o orçamento necessário e, no futuro, modelar uma nova concessão que permita acelerar as obras com investimento privado”, afirmou.
A agenda de debates, que percorreu seis cidades, Salgueiro, Araripina, Petrolina, Belo Jardim, Caruaru e Suape, reuniu contribuições de produtores, gestores regionais e especialistas. As propostas foram reunidas na chamada Carta de Suape, entregue durante o evento. O documento solicita ajustes técnicos no traçado da ferrovia, integrações logísticas e demandas específicas sobre o perfil das cargas pernambucanas.
Do ponto de vista da execução, o Ministério dos Transportes confirmou a retomada de 73 km de linha férrea entre Custódia, Sertânia, Buíque e Arcoverde, com investimento de R$ 415 milhões e previsão de gerar cerca de seis mil empregos. A expectativa é lançar, em 2026, novos editais somando até 230 km, com recursos estimados entre R$ 1,2 bilhão e R$ 1,5 bilhão via PAC. Atualmente, Pernambuco tem 179 km concluídos, o equivalente a 38% do planejado, e a conclusão total está prevista para 2029.
Para o superintendente da Sudene, Francisco Alexandre, a ferrovia vai muito além do transporte de cargas: reorganiza territórios produtivos e cria condições para interiorizar o desenvolvimento. “A discussão não é apenas de engenharia, mas de impacto econômico e político. O governo tomou a decisão de fazer, e agora precisamos garantir que o projeto entregue desenvolvimento”, disse.
Integração logística
O Porto de Suape aparece como um dos principais beneficiados pela obra. O presidente do complexo, Armando Monteiro Bisneto, destacou que a ferrovia permitirá ampliar a competitividade do porto em segmentos como grãos, minérios, frutas e gipsita. “A Transnordestina é fundamental para o desenvolvimento de Suape e para reforçar nossa posição como hub logístico. Ela vai sair do papel”, afirmou.
Os impactos também se estendem aos arranjos produtivos locais, especialmente no polo gesseiro do Araripe e na fruticultura do Vale do São Francisco. Professores da UFPE e UPE defenderam ajustes de bitola, melhorias de traçado e estratégias para garantir que o crescimento econômico não fique restrito ao litoral. “Temos um porto competitivo, mas o interior precisa ter capacidade de exportar”, afirmou o professor Guilherme Magalhães.
Se em Pernambuco o debate se concentra na execução das obras, no Ceará a preocupação é outra: a falta da Licença de Operação (LO) emitida pelo Ibama paralisou o início da operação no trecho entre Bela Vista do Piauí e Iguatu. O atraso gera impactos diretos na cadeia de grãos, essencial para pecuária e avicultura cearenses. Segundo Amílcar Silveira, presidente da Faec, o prejuízo pode chegar a 15% devido ao aumento dos custos logísticos. “A ferrovia reduz o preço do transporte em até 15%. Não conseguir operar por questões burocráticas é inadmissível”, criticou.
Apesar das críticas, especialistas afirmam que a demora não deve se prolongar. A ANTT já autorizou testes em 679 km entre Piauí, Pernambuco e Ceará, com capacidade estimada de transportar até 1 milhão de toneladas de cargas por ano.
A governadora Raquel Lyra sintetizou o consenso político e empresarial construído ao longo da série de seminários. “O desenvolvimento do futuro depende de estratégia e grandes obras. A Transnordestina alavanca outros investimentos e agrega valor à produção pernambucana”, afirmou.