
Na última semana de 2025, a V.tal, empresa de infraestrutura digital, anunciou a compra de 100% da Um Telecom, pernambucana fundada em 2010 com foco em soluções digitais. Com a aquisição, a V.tal passa a incorporar toda a rede de fibra óptica de mais de 20 mil km.
De acordo com a companhia, o processo de M&A entre as empresas passará pelas aprovações regulatórias e concorrenciais necessárias para a conclusão do negócio, que deve acontecer no primeiro trimestre de 2026. A empresa reforça em comunicado que “para os clientes da Um Telecom, nada muda no curto prazo: contratos, SLAs e rotinas de atendimento serão mantidos durante todo o processo de aquisição e integração.”
André Insardi, professor de Ciência de Dados da ESPM, explica que a incorporação pode fortalecer o modelo de rede neutra na região porque aumenta a escala e capilaridade da rede. “A V.tal passa a somar a malha regional da Um Telecom e isso tende a melhorar disponibilidade e confiabilidade para quem compra capacidade no atacado.”
O professor diz que há atenção concorrencial porque a V.tal é tratada como detentora de Poder de Mercado Significativo (PMS) no atacado de fibra terrestre, com obrigações como transparência, SNOA (base de ofertas/preços em tempo real) e precificação orientada a custo quando aplicável. Mas aponta que a tendência é de aprovação do M&A pelo CADE/Anatel. “Mas com condicionantes/remédios comportamentais (não discriminação, transparência, manutenção de ofertas públicas etc.), porque o CADE avalia concentração ‘município a município’.”
Para André, o ganho de escala tende a beneficiar melhores provedores regionais e viabilizar upgrades de rede.
O economista Fábio Costa, pontua que a aquisição é um sinal de crescimento e investimento no mercado de telecomunicações brasileiro, especialmente no Nordeste. “Isso pode trazer benefícios econômicos e sociais significativos para a região”, comenta.
Fábio destaca que este movimento foi um marco importante para a infraestrutura digital no Nordeste brasileiro, uma região estratégica para o crescimento da conectividade e infraestrutura digital no Brasil. O economista aponta que a compra ajuda a reforçar a posição da companhia como líder em infraestrutura digital e rede neutra no país.
“Por meio do modelo de rede neutra, a V.tal constrói a “estrada” (fibra ótica) e permite que qualquer pequeno provedor local (ISP) a utilize. Isso levará internet de altíssima velocidade a cidades do interior do Nordeste onde grandes operadoras não chegavam antes”, observa Fábio.
André Insardi concorda com os pontos positivos, como a possibilidade de contratação de mais “serviço” – como transporte/backbone/backhaul – e soluções corporativas – como cloud, segurança, SD-WAN, MVNO. Porém, o professor reforça que aumenta o risco de dependência de um fornecedor dominante em algumas rotas e aumenta a comoditização. “Se vários provedores usam a mesma infraestrutura, a disputa tende a ir mais para preço e atendimento.”
Procurada pelo Investindo Por Aí, a V.tal disse que não dará entrevistas sobre a aquisição. Em comunicado, destaca que a transação reforça o posicionamento da companhia como maior empresa de infraestrutura digital neutra das Américas. “Ampliando sua capilaridade de rede regional, capacidade técnica e portfólio de clientes de alto valor. O negócio gera ganhos de escala e eficiência, ampliando a capacidade de atendimento da V.tal a provedores regionais e carriers. A expertise da Um Telecom em soluções digitais também abre novas frentes para projetos de cidades inteligentes, indústria 4.0 e iniciativas de transformação digital.”
A Um Telecom está presente em todas as capitais nordestinas e mais de 200 cidades, com um portfólio de soluções digitais e cerca de 1000 clientes.
A V.tal possui mais de 450 mil km de malha terrestre conectando todos os estados do Brasil, além de 26 mil quilômetros de cabos submarinos que ligam o Brasil à Argentina, Chile, Venezuela, Colômbia, Bermudas e Estados Unidos. Os data centers da companhia são distribuídos entre Brasil e Colômbia.
O economista Fábio reforça que a expansão da infraestrutura digital pode atrair mais investimentos e fomentar o crescimento econômico local, além de impulsionar setores como tecnologia, serviços e comércio eletrônico. Para ele, a união da capilaridade regional (Um Telecom) com o poder financeiro (V.tal) transforma o Nordeste em um protagonista da economia digital, e não apenas um consumidor. “É uma oportunidade de ouro para que estados como Alagoas atraiam indústrias de tecnologia que buscam conectividade de primeiro mundo com custos operacionais nordestinos.”