
A Federação das Indústrias do Estado de Alagoas (FIEA) lançou, no começo deste mês, o Mapa Estratégico da Indústria de Alagoas 2025–2032. Desenvolvido com base em levantamentos realizados junto à sociedade, ao setor industrial, a empresários e a universidades, o documento aponta metas e prioridades para o fortalecimento da economia local.
O conjunto de ações propostas no Mapa é voltado à inovação, à sustentabilidade e ao aumento da competitividade do estado no cenário nacional. Mesmo diante do cenário brasileiro atual, com juros elevados e projeções de crescimento econômico abaixo dos 2% — segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) —, a expectativa é que Alagoas consiga, com investimentos públicos e privados, transformar as diretrizes em resultados concretos.
Gerente de unidades técnicas da FIEA, Helvio Villas Boas destaca a importância da união entre os setores para a boa execução do planejamento. “Na prática, esse Mapa deve ajudar a transformar o planejamento industrial de Alagoas em ações mais coordenadas e menos pontuais. A ideia é que indústria, governo, universidades e centros de pesquisa passem a atuar com prioridades mais claras, concentrando esforços em temas como inovação, sustentabilidade, qualificação de pessoas e competitividade”, aponta.
Helvio reforça ainda que os direcionamentos visam a um crescimento controlado e, principalmente, bem fundamentado. “O efeito esperado é uma indústria alagoana mais moderna, diversificada e preparada para competir. Não se trata apenas de crescer, mas de crescer com mais produtividade, mais conteúdo tecnológico, mais empregos qualificados e maior inserção em temas decisivos para os próximos anos, como transição energética e desenvolvimento sustentável.”
Dentro das prioridades estabelecidas no plano estão os setores de energias renováveis, químico-plástico, biotecnologia e construção civil. De acordo com Villas Boas, a definição é resultado de um consenso sobre o papel estratégico dessas atividades para o desenvolvimento de Alagoas.
Novo plano enfrenta desafios locais e nacionais
Mesmo com o direcionamento estratégico construído por diferentes entidades, a execução prática do plano esbarra em gargalos históricos e atuais. Na indústria local, um desafio é superar questões de infraestrutura, logística, acesso a crédito e qualificação de mão de obra.
Em entrevista ao Investindo Por Aí, a secretária de Estado do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Sedics), Alice Beltrão, destaca que, mesmo diante dessas adversidades locais e dos entraves em nível nacional — a exemplo dos juros altos e da expectativa de crescimento baixa para o país —, o Governo de Alagoas tem construído caminhos para o desenvolvimento do setor no estado, que registrou crescimento superior à média nacional em 2024.
“Estamos trabalhando para consolidar um ambiente cada vez mais competitivo para a indústria, com planejamento, investimentos e políticas públicas que estimulem a instalação de novos empreendimentos em Alagoas. A estratégia é combinar incentivos, segurança institucional e melhoria do ambiente de negócios para atrair empresas e estimular o crescimento da indústria alagoana”, ressalta.
Outro ponto central do Mapa é a previsibilidade. Para que o planejamento se traduza em crescimento, especialistas destacam a importância da estabilidade regulatória e da continuidade de políticas públicas, que nem sempre se sustentam em ciclos políticos. Por isso, ressalta-se a importância de o Mapa estabelecer objetivos de médio e longo prazo, com caráter de política de Estado, e não de governo, como afirma o economista Fábio Leão.
“Para que um planejamento como o Mapa Estratégico da Indústria 2025–2032 tenha chances reais de ser implementado e não se torne apenas um ‘documento de gaveta’, alguns fatores críticos precisam ser observados, como, por exemplo: governança e continuidade política; segurança jurídica e previsibilidade; alinhamento de interesses público-privados; monitoramento e atualização; infraestrutura e energia; financiamento e crédito”, aponta.
Ele destaca ainda que, para superar os desafios do estado e do país, Alagoas precisa competir com especialização e eficiência, apontando caminhos como a exploração do gás, vista como um trunfo do estado no contexto da expansão da produção de energias limpas. Outros pontos propostos são a verticalização de cadeias locais, com foco na industrialização interna; o investimento em ciência, tecnologia e inovação; e o fortalecimento da integração com portos e ferrovias para exportação dos produtos alagoanos.
“Para enfrentar o ‘custo Brasil’ e a concorrência global, Alagoas e o Nordeste não podem competir apenas em volume, mas em especialização e eficiência. Em suma, o posicionamento deve ser o de um hub de eficiência sustentável, aproveitando a proximidade geográfica com a Europa e os EUA em relação ao Sul do país”, destaca.
Apesar das projeções, o gerente da FIEA afirma que ainda não existem expectativas de investimento para a execução dos apontamentos feitos no plano. A ideia é, segundo ele, fazer um levantamento de quais ações do programa Renascença, criado em 2023 para fomentar o desenvolvimento sustentável de setores econômicos e intensificar o surgimento de novas oportunidades no estado, podem ser integradas à estratégia.
Helvio reforça ainda que a Federação tem papel crucial no bom andamento do plano. “Em síntese, o papel da FIEA é, sobretudo, catalisar o processo de implementação institucional do Mapa. Este deve servir de base para uma atuação coordenada entre FIEA e demais atores estratégicos, para construir um ambiente produtivo mais dinâmico, sustentável e competitivo em Alagoas ao longo do tempo.”
O Mapa Estratégico da Indústria aponta bons direcionamentos para decisões de longo prazo que podem contribuir para o desenvolvimento de Alagoas. Apesar dos entraves, a expectativa é que a boa execução do planejamento, feita com integração entre setores e adaptação às condições econômicas do país, represente uma oportunidade de reposicionamento do estado no contexto nacional.