O audiovisual do Ceará tem chamado atenção do mercado internacional. A escolha de ‘Feito Pipa’ como o representante do Brasil na corrida por uma vaga na categoria de Melhor Filme Internacional do Oscar 2027, reforça esse feito. O longa é dirigido pelo cineasta cearense Allan Deberton e gravado na zona rural de Quixadá (CE).
A indicação, anunciada em setembro pela Academia Brasileira de Cinema, não é um feito isolado. O longa, que conta a relação afetuosa do menino Gugu (Yuri Gomes) com sua avó Dilma (Teca Pereira) e o pai ausente Batista (Lázaro Ramos), acumulou conquistas internacionais nos últimos meses. ‘Feito Pipa’ venceu o Grande Prêmio do Júri na Mostra Generation Kplus do Festival de Berlim (Berlinale), além de cinco prêmios no Festival de Gramado, incluindo Melhor Direção e Júri Popular. O roteiro do filme foi gestado no Laboratório de Cinema da Escola Porto Iracema das Artes, em Fortaleza. Em outubro, o filme foi destaque no Festival do Rio 2026.
O momento de celebração, no entanto, levanta uma provocação central para o setor: a projeção internacional de uma obra pode se desdobrar em uma cadeia produtiva sustentável e em uma política pública permanente de audiovisual para o Ceará?
Além do prestígio artístico, o cinema guarda uma relação direta com o desenvolvimento econômico local. Para Márcio Rodrigo Ribeiro, professor do curso de Cinema e Audiovisual da ESPM, o alcance internacional de obras cinematográficas impulsiona o chamado “turismo audiovisual”. “O cinema de uma maneira geral, especialmente quando passa a circular em outros países do mundo e fora do eixo Rio-São Paulo, estimula o que nós chamamos hoje de turismo audiovisual”, explica. “Ele funciona como um convite em outras regiões e estados para que as pessoas vejam os filmes e queiram conhecer as locações. Isso estimula a rede hoteleira, restaurantes, artesanato e todo o ecossistema cultural do local.”
O professor destaca precedentes históricos no Brasil, como a transformação de Tiradentes (MG), impulsionada pela sua Mostra de Cinema, e o impacto do Festival de Cinema de Gramado (RS) no turismo da Serra Gaúcha desde a década de 1970. No Ceará, Quixadá já vinha recebendo produções como O Shaolin do Sertão e Mais Pesado é o Céu, mas a projeção mundial de Feito Pipa coloca o Sertão Central cearense sob uma nova vitrine global. A Prefeitura de Quixadá comenta que ‘Feito Pipa’ alcança um novo patamar com essa indicação e destaca o potencial da região para outras produções. “Primeiro filme gravado totalmente no Ceará a chegar a essa etapa da premiação, a obra audiovisual contou com o apoio institucional da Prefeitura de Quixadá durante as filmagens realizadas na região, reforçando o potencial da Terra dos Monólitos como cenário para produções cinematográficas de grande porte”, pontua em nota.

Para que o impacto de Feito Pipa ultrapasse o sucesso de uma obra individual e consolide um ambiente de negócios no Ceará, a criação e fortalecimento de instituições do setor são passos decisivos. A criação da Empresa Cearense de Cinema e Audiovisual (ECAV) e o estabelecimento da primeira Film Commission em Fortaleza sinalizam avanços na infraestrutura de atração de filmagens, fomento e apoio às produtoras independentes no estado.
“Penso que o Ceará vive um momento muito interessante para a produção audiovisual independente”, pontua Márcio. “Iniciativas como a ECAV e a Film Commission com certeza estimularão o ciclo de produção e realização no estado a partir da capital, que é um polo regional de grande importância.”
Além da atração de produções externas, instâncias de formação continuada, a exemplo da Porto Iracema das Artes, provam que o investimento em inteligência criativa local traz retorno direto em visibilidade e prêmios globais.
Narrativas universais sem caricaturas
Historicamente, o cinema nordestino enfrentou o desafio de se esquivar de abordagens estereotipadas ou reducionistas. No entanto, a trajetória recente do cinema cearense reforça a capacidade de contar histórias locais com apelo universal.
O especialista relembra que o próprio Ceará possui um marco na história do cinema mundial: na década de 1940, o cineasta norte-americano Orson Welles viajou ao estado para rodar o documentário sobre a travessia dos jangadeiros rumo ao Rio de Janeiro. Sobre Feito Pipa, o professor destaca a riqueza dramática da narrativa: “É um filme muito sensível, de uma história e personagens complexas que falam da vida e da complexidade humana, que é universal”, analisa Ribeiro. “Essas personagens poderiam estar em Quixadá, em São Paulo, em Tiradentes ou no Rio Grande do Sul. E é muito bonito que a história se passe no sertão cearense, longe de qualquer tipo de caricatura.”
Distribuído pela Paris Filmes (e comercializado internacionalmente sob o título Gugu’s World), Feito Pipa tem sua estreia nos cinemas brasileiros agendada para 5 de novembro de 2026. Para figurar entre os cinco indicados finais ao Oscar de Melhor Filme Internacional, a produção precisará passar pelas listas de corte da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, que serão reveladas entre dezembro de 2026 e janeiro de 2027. A cerimônia oficial está marcada para 14 de março de 2027.
