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2 de abril de 2026 13:55

Primeira usina de etanol de milho do Piauí promete zerar dependência energética do estado

Primeira usina de etanol de milho do Piauí promete zerar dependência energética do estado

Com R$ 1,18 bilhão em investimentos e operação prevista para setembro de 2026, unidade em Uruçuí deve suprir toda a demanda estadual
Primeira usina de etanol de milho do Piauí, com investimento de R$ 1,18 bilhão e operação prevista para setembro de 2026 em Uruçuí, promete zerar a dependência energética do estado ao suprir toda a demanda estadual | Foto: Reprodução/Instagram @brasbio.ind

A instalação da primeira usina de etanol de milho do Piauí, projeto da BrasBio Brasil Bioenergia em Uruçuí, concentra o maior investimento agroindustrial recente do estado. Com aporte de R$1,18 bilhão e início de operação previsto para 2026, a unidade terá capacidade de produzir 620 mil litros de etanol por dia e faturamento anual estimado em R$1,1 bilhão.

O projeto busca atender integralmente o consumo estadual, hoje dependente de importações, e reduzir custos logísticos. Ao mesmo tempo, o volume de incentivos públicos envolvidos e os efeitos sobre preços e economia local ainda geram questionamentos.

Para o presidente da Investe Piauí, Victor Hugo Almeida, o empreendimento marca um novo capítulo na agroindustrialização do Cerrado piauiense. “Mais do que produzir energia renovável, a Brasbio ajuda a agregar valor à produção agrícola do estado, criando um ecossistema agroindustrial integrado que conecta o campo a novos empreendimentos em implantação”, afirma.

Capacidade e impacto no abastecimento

A usina terá capacidade inicial para processar 1.500 toneladas de milho por dia e produzir 620 mil litros diários de etanol — volume suficiente para cobrir o déficit atual do estado, estimado em cerca de 220 milhões de litros por ano.

Almeida reforça, com entusiasmo, que em breve o combustível que abastece os veículos da população piauiense será produzido na planta da BrasBio, em Uruçuí. “Para dimensionar a magnitude da estrutura, o armazém já existente possui capacidade para armazenar até 200 mil toneladas. Quando a indústria estiver em plena operação, o complexo contará com seis unidades com essa mesma capacidade”, comenta.

Segundo Victor Hugo Almeida, presidente do Investe Piauí, a estrutura da usina em Uruçuí, com alta capacidade de armazenamento e processamento, dimensiona o alcance do projeto | Foto: Reprodução/Instagram @euvictorhugoalmeida

O Piauí consome aproximadamente 263 milhões de litros de etanol por ano, mas produz apenas 43 milhões. A diferença é suprida por outros estados, o que eleva o custo final do combustível. Com a produção local, a expectativa é reduzir despesas com transporte e ampliar a oferta interna. Ainda assim, não há garantia de que essa redução será integralmente repassada ao consumidor final.

Estrutura societária e operação

A BrasBio marca a entrada do Grupo Progresso no setor de biocombustíveis. Fundado em 2001, o grupo atua na produção de grãos e possui 95 mil hectares cultivados no sul do Piauí e em Minas Gerais.

A empresa detém 25% da usina. Os demais sócios são o fundo Green Lake Fi Participações, a H4 Holding e a Ideal Agro. O grupo também mantém participação em empresas de sementes, ampliando sua atuação na cadeia agrícola.

Além do etanol anidro e hidratado, a unidade produzirá 24 toneladas de óleo de milho.m e 420 toneladas diárias de DDGS (Distillers Dried Grains with Solubles/Grãos secos de destilaria com solúveis) e WDG (Wet Distillers Grains/Grãos úmidos de destilaria), subprodutos utilizados na alimentação animal. Na fase seguinte do projeto, a capacidade de moagem deve dobrar para 3 mil toneladas por dia. Estão previstos ainda sete armazéns, com capacidade individual de 200 mil toneladas de grãos.

Cada armazém terá capacidade para estocar até 200 mil toneladas de insumos. Serão seis unidades no total | Foto: Reprodução/Instagram @brasbio.ind.

Incentivos e financiamento

O empreendimento contou com financiamento de R$531 milhões do Banco do Nordeste. Também foi concedida isenção de 100% do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) estadual até 2032.

O presidente da Comissão de Assessoramento Técnico (COTAC) do Conselho Desenvolvimento Industrial Piauí (CODIN) e auditor fiscal da Secretaria da Fazenda do Estado do Piauí (Sefaz-PI),  Orisvaldo Mineiro, descreve que os incentivos concedidos pelo Estado do Piauí à BrasBio estão inseridos em uma política estruturada de atração de investimentos voltada aos setores industrial, agroindustrial e de geração de energia.

“Essa política é regulamentada pela Lei nº 6.146/2011 e pelo Decreto nº 14.774/2012, que estabelecem as condições para concessão de incentivos industriais a empresas que pretendam se instalar ou expandir suas atividades no Estado”, detalha.

Ele complementa que, no caso específico da BrasBio, os incentivos foram formalizados por meio do Decreto nº 23.317/2024, consistindo, principalmente, na concessão de crédito presumido de ICMS equivalente a até 100% do saldo devedor decorrente das saídas das mercadorias produzidas, com vigência até 31 de dezembro de 2032. “Esse mecanismo resulta, na prática, na desoneração do imposto incidente sobre a produção, como forma de viabilizar e estimular o investimento”, pontua.

Os incentivos levantam questionamentos sobre o volume de renúncia fiscal e o retorno econômico para o estado. Ainda não estão claras as contrapartidas exigidas em termos de geração de renda, empregos e arrecadação futura.

Mineiro observa que, embora não seja possível mensurar com precisão o impacto arrecadatório de um empreendimento dessa magnitude em fase inicial, é possível afirmar que seus efeitos tendem a ser amplamente positivos para a economia estadual.

“A implantação da usina contribui para o aumento da circulação de mercadorias, a dinamização da cadeia produtiva agrícola e industrial e a geração de empregos diretos e indiretos, fatores que, em conjunto, ampliam a base econômica e, consequentemente, a arrecadação tributária ao longo do tempo”, considera.

Durante a construção, foram gerados cerca de 2 mil empregos. Na operação, a previsão é de aproximadamente 180 postos diretos.

Rafael Fonteles e sua equipe realizam visita técnica às obras da usina, que contam com incentivos do Estado | Foto: Governo do Piauí.

Inserção no mercado de biocombustíveis e retorno do empreendimento para o Estado

O etanol de milho tem ampliado participação no mercado nacional. Na safra 2023/2024, respondeu por 16,6% da produção brasileira, com 5,92 bilhões de litros — alta de 33,1% em relação ao ciclo anterior. A produção está concentrada no Centro-Oeste e Sudeste. No Nordeste, há apenas uma unidade em operação com milho.

Com a nova usina, o Piauí passa a integrar esse segmento e amplia sua participação na indústria de biocombustíveis, consolidando o sul do estado como área de expansão agroindustrial.

Mineiro avalia que o retorno do empreendimento para o Estado deve ser analisado de forma ampla, considerando os efeitos econômicos e sociais ao longo de toda a cadeia produtiva. Nesse contexto, destaca a segurança jurídica, já que a concessão dos incentivos observa a legislação estadual e nacional, garantindo previsibilidade e estabilidade ao investimento.

Ele também aponta o impacto social, com a estimativa de geração de cerca de 250 empregos diretos e aproximadamente 2.000 indiretos, contribuindo para o desenvolvimento regional e a melhoria das condições de vida da população. “No campo econômico, ressalta a dinamização da economia local, com reflexos nos setores de comércio, serviços e logística, além da agregação de valor à produção agrícola, especialmente de milho e sorgo”, afirma.

“Por fim, observa que, mesmo com desoneração em etapa específica, a atividade econômica gerada amplia a arrecadação de outros tributos ao longo da cadeia, revertendo-se em recursos para o financiamento de políticas públicas nas áreas de saúde, educação e segurança”, conclui.

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