
A criação de camarões em cativeiros por pequenos produtores do Rio Grande do Norte entra em uma nova fase, menos dependente do famoso método “tentativa e erro” e mais orientada por dados. O que antes era definido, em grande parte, pela experiência empírica dos produtores agora passa a incorporar ciência aplicada desenvolvida no próprio estado, com impacto direto na produtividade e na renda de quem vive da carcinicultura.
Nos últimos anos, uma tecnologia genética criada por pesquisadores potiguares têm ajudado a reduzir perdas, aumentar a previsibilidade dos ciclos e fortalecer pequenos produtores. Em um setor que movimenta cerca de R$ 450 milhões por ano no Rio Grande do Norte, a inovação reposiciona o estado como fornecedor de conhecimento e não apenas de matéria-prima
“A ideia surgiu da vivência direta com o campo” explica Daniel Lanza, pesquisador da UFRN e um dos responsáveis pelo desenvolvimento da tecnologia. “Desde 2019 atuamos junto aos produtores e percebemos que, mesmo com o bom manejo, o resultado final ainda dependia muito da genética que chegava à fazenda. O RN precisava de uma solução de baixo custo, pensada para o nosso clima, nossos viveiros e nossos desafios sanitários” explicou o especialista em biologia molecular aplicada em entrevista ao Investindo por Aí.
Segundo Lanza, o trabalho foi estruturado como uma pesquisa aplicada, com foco direto no impacto econômico. “Nasceu da necessidade real do campo, com ciência local, para gerar impacto econômico local”, afirma. Na prática, a tecnologia funciona como uma ponte entre as fazendas e os laboratórios produtores de pós-larvas. Amostras de camarões são coletadas, identificadas e analisadas geneticamente a partir de marcadores validados, capazes de indicar diversidade genética, parentesco entre famílias e associações com desempenho produtivo e robustez.
“O produtor não precisa virar geneticista”, resume o biólogo. “Ele recebe um laudo objetivo, com recomendações claras: quais famílias multiplicar, quais cruzamentos fazer e quais evitar. Isso aumenta a sobrevivência, melhora o crescimento e reduz o risco de perda por genética estreita”. Os efeitos já são perceptíveis no campo. De acordo com Lanza, a principal mudança está na previsibilidade da produção. “Você deixa de trabalhar na tentativa. Animais mais robustos lidam melhor com estresses ambientais e sanitários, os lotes ficam mais uniformes e o sistema converte melhor ração e tempo em biomassa final” , afirma.

Do lado das fazendas, a avaliação se mantém positiva, mas pragmática. Para Origenes Monte, presidente da Associação Norte-Riograndense de Criadores de Camarão (ANCC), a genética é fundamental, mas precisa ser integrada a outros fatores. “O desempenho operacional se baseia em um tripé básico que deve ser equilibrado; genética, nutrição e manejo”, afirma Monte. “O pequeno produtor pode ter acesso à genética avançada, mas não pode esquecer de nutrição de qualidade e boas práticas de manejo, que exigem conhecimento e infraestrutura”. Ainda assim, os ganhos são evidentes, “Muitos produtores, a maioria, de fato atingem uma performance bem melhor hoje do que quando utilizavam uma genética inferior. A média de crescimento semanal, em alguns casos, duplicou”, destaca Origenes.
Um ponto considerado decisivo para a adoção em larga escala é o custo. Segundo o presidente da ANCC, a tecnologia genética não encarece a produção. “Os bons laboratórios fornecedores de pós-larvas estão entregando genética avançada sem aumento de preço, alguns focados em crescimento, outros em resistência a doenças”, afirma Monte.
Além do impacto produtivo, há reflexos sociais importantes. “O sucesso operacional e financeiro incentiva o crescimento da atividade, da produção e do número de empregos”, afirmou o presidente da associação. Para os próximos anos, a expectativa é de continuidade do crescimento, ainda que com cautela. “Mantida a curva dos últimos três anos, o setor pode crescer perto de 50% ao ano”, avalia. “Mas há limites, como a saturação do mercado interno e as incertezas do mercado externo. É difícil prever até onde essa curva vai.”
A tecnologia desenvolvida no RN também reduz a dependência de soluções importadas e fortalece o ecossistema local de inovação. “Não é só um teste genético”, reforça Daniel Lanza. “É conhecimento, banco de dados, interpretação e recomendação feitos aqui. Isso posiciona o estado como polo de biotecnologia aplicada à aquicultura, com protagonismo local e impacto real no campo”. A iniciativa ajuda a manter pequenos produtores na atividade, gera renda no interior e mostra como a ciência aplicada pode ser motor de desenvolvimento econômico regional.