
Em um ambiente de juros altos, exigência crescente por rastreabilidade e pressão por redução de custos, o microcrédito produtivo orientado vem deixando de ser apenas capital de giro e passando a funcionar como política prática de transição, especialmente quando é combinado com assistência técnica, acompanhamento no local do negócio e metas simples de impacto. No Nordeste, o Banco do Nordeste (BNB) opera esse modelo em escala com o Crediamigo, no ambiente urbano, e o Agroamigo, nas zonas rurais, programas baseados numa metodologia que prevê orientação e acompanhamento para fortalecer a gestão e aumentar a chance de sucesso do investimento.
Segundo especialistas, o diferencial não está só no dinheiro, mas no jeito de entregar o crédito. No Crediamigo, agentes treinados fazem levantamento socioeconômico, visitam o empreendimento e oferecem orientação sobre planejamento do negócio, em contato direto com o empreendedor.
No Agroamigo, a lógica é parecida. O programa atua com orientação e acompanhamento e inclui planejamento do agronegócio, com relacionamento direto dos agentes com agricultores familiares.
“Esse desenho puxa as PMEs para rotinas mais responsáveis por um caminho realista, organizando caixa, reduzindo desperdício, investindo em eficiência e profissionalizando processos, sem exigir, de início, a burocracia ESG, típica de empresas grandes”, explica a consultora em ESG Margarida Rissi.
Em 2024, o Crediamigo desembolsou R$ 12 bilhões, com 3,8 milhões de operações e mais de 370 mil novos clientes (segundo o próprio BNB). E, no plano nacional, o Ministério do Trabalho e Emprego divulgou que o PNMPO apresenta média nacional de inadimplência de 3,5% (e até 5% nos estados com taxas mais altas), um indicador relevante de sustentabilidade financeira do modelo quando combinado com orientação.
Rissi explica que, para virar agenda de impacto, o microcrédito precisa se conectar a mudanças objetivas no dia a dia. “Crediamigo mantém uma trilha de orientação empresarial e ambiental com ferramentas e cartilhas (metas, controle de caixa, planejamento e materiais de meio ambiente) que ajudam o empreendedor a transformar o crédito em rotina organizada, e não em dívidas desordenadas.”

Para isso, o BNB publicou um Guia do Meio Ambiente para o Empreendedor Urbano (2025) com recomendações práticas para reduzir desperdícios e melhorar a destinação de resíduos. O BNB opera linhas voltadas à sustentabilidade, como FNE Sol (micro/minigeração renovável) e outras soluções verdes. “No seu Framework de Financiamento Sustentável, aparecem critérios objetivos típicos de projetos verdes, como energia renovável e eficiência energética com redução mínima de consumo (por exemplo, metas de eficiência de pelo menos 20% em alguns casos)”, explica Rodrigo Arruda, do BNB.
Um caso apresentado pelo banco envolve um produtor de Jeremoabo (BA) que atua com bovinocultura leiteira em um sistema agroecológico diversificado e usa biodigestor para gerar biogás, reduzindo custos e disseminando práticas ambientais na comunidade.
Aqui, o impacto é ESG é raiz. Energia no campo, circularidade (resíduos virando insumo) e reforço de renda local.
No Maranhão, o BNB registrou como homenageado um produtor rural em Porto Franco que utiliza energia solar para otimizar custos e melhorar rentabilidade, um exemplo direto de como o crédito pode se converter em investimento de eficiência.
Em Alagoas, o banco informou ter financiado R$ 54 milhões em projetos de energia solar em dois anos; só em operações para pessoa jurídica, foram R$ 42,6 milhões, com destaque para comércio e turismo como tomadores recorrentes.
Arruda fala que, combinando microcrédito + orientação, metas de impacto podem ser desenhadas sem complicar a vida do pequeno empreendedor.
Além do efeito individual, há um efeito de território: microcrédito tende a circular onde o dinheiro já é escasso, irrigando cadeias curtas (fornecedores locais, serviços do bairro, compra de insumos regionais). Estudos e revisões sobre microcrédito no Brasil apontam efeitos associados à renda, lucro e inserção produtiva, com recortes importantes sobre gênero e perfis de baixa escolaridade em programas como o Crediamigo.