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1 de março de 2024 19:50

EXCLUSIVO: Marcas nordestinas de cachaça aliam tradição à inovação

EXCLUSIVO: Marcas nordestinas de cachaça aliam tradição à inovação

Frente à crescente onda da coquetelaria, marcas nordestinas de cachaça buscam a popularização do destilado como opção para drinks
Foto: freepic.diller / Freepik

Por Luiza Müller
Para o Investindo por Aí

Água que passarinho não bebe, pinga, danada, assovio de cobra e “mé”. Esses são alguns nomes conferidos ao destilado mais brasileiro de todos: a cachaça. Inicialmente elaborada em engenhos de cana-de-açúcar de Pernambuco, Bahia e São Paulo, por volta de 1516 e 1532, hoje o destilado pega carona na crescente cultura dos coquetéis. 

De acordo com levantamento realizado pelo Banco do Nordeste (BNB), o Brasil produziu 2,5 bilhões de litros de destilados, em 2021, quase o dobro ante o volume de 1,29 bilhão de litros registrado quatro anos antes, em 2017. O crescimento exponencial da produção foi acompanhado pelo consumo, que aumentou aproximadamente 87% no mesmo período. 

Além do destaque da cadeia produtiva nacional, de acordo com o Instituto Brasileiro da Cachaça (IBRAC), a bebida apresentou receita de US$ 13,17 milhões em exportações em 2021, um aumento de quase 40% em relação ao ano anterior. Entre os maiores importadores da cachaça brasileira configuram países como Paraguai, Alemanha, Estados Unidos, e Portugal. 

O volume exportado em 2021, por sua vez, se estabeleceu em 7,22 milhões de litros, uma expansão de 29,52% ante aos 5,57 milhões registrados em 2020. Os principais estados exportadores foram São Paulo, Pernambuco e Paraná. Já de acordo com o Anuário da Cachaça de 2021, elaborado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, o Brasil contava com 1.131 produtores da bebida em 2020, sendo 14,5% nordestinos – com destaque para os estados da Paraíba e Bahia. 

Apesar da leve retração do consumo de bebidas alcoólicas especificamente entre 2020 e 2021 (durante a pandemia de Covid-19), o Banco do Nordeste aponta que, entre os novos hábitos de compra está a tendência de se beber menos, mas marcas de melhor qualidade. Inseridos neste cenário, rótulos nordestinos de cachaça premium estão em ascensão no mercado regional e nacional. Entre eles, destaca-se a alagoana Brejo dos Bois e a baiana Paramirim.

Brejo dos Bois

A cachaça alagoana Brejo dos Bois nasceu em 1993, no município de Junqueiro, fruto do apreço do médico Lenildo Amorim pelo destilado. No entanto, em 2016, com dificuldades de conciliar a carreira com a paixão pela destilaria, Amorim vendeu a empresa para os empresários Rogério Siqueira, natural de Arapiraca e jogador de pôquer profissional, e Vanderlei Luxemburgo, carioca notório por sua jornada como técnico de futebol. 

Ao assumirem o negócio, os empresários buscaram profissionalizar a marca, que já ganhava vazão no mercado regional. Após a ampliação da capacidade produtiva, que aumentou a produção original em oito vezes, hoje a cachaçaria comercializa aproximadamente 70 mil garrafas por ano, e está disponível para venda em 15 estados brasileiros.  

Foto: Alambiques de cobre utilizados na produção da cachaça Brejo dos Bois / Divulgação.

As cachaças da Brejo dos Bois são vendidas através de distribuidoras e representantes comerciais, além do comércio realizado pela própria fábrica. Os rótulos abrangem todos os públicos, com variação entre R$ 40 (para cachaças mais populares) e R$ 375 (para destilados com envelhecimento de quatro anos). 

Para Moizés Neri, diretor da Brejo dos Bois, o objetivo da marca é normalizar e celebrar o consumo do destilado em bares, festas e reuniões de amigos. “Queremos que a cachaça compartilhe espaço com o gin, com a vodka, o que também é celebrar nossa cultura, uma vez que a cachaça é um destilado genuinamente brasileiro”, afirma. 

Paramirim 

A cachaça Paramirim surgiu em 1996, em um alambique na região da Chapada Diamantina, na Bahia. Fundada pelo casal Adelysa e Edvaldo Matos, o rótulo leva o nome da cidade na qual foi idealizada. Para o produtor, o desejo de inaugurar uma  marca própria veio da memória da história de seu pai, que aprendeu a fazer a panela de alambique de cobre quando ainda era menino, e da proximidade com a região baiana que valoriza a cultura da cachaça. 

De acordo com Edvaldo Matos, o diferencial da Paramirim é a dedicação com a qual o casal faz o manejo do processo produtivo, com limpeza e atenção. “Tem muito calor humano envolvido na produção da Paramirim, por conta do contato familiar que temos com o produto. Eu mesmo busco a cana e realizo todos os processos”, afirma ele.

Além disso, com solo fértil, a região do vale do Paramirim permite o cultivo ideal da cana-de-açúcar, matéria-prima da cachaça. Este fator consagra a Chapada Diamantina como um importante polo de produção do destilado. 

Com produção de mil garrafas por mês, a expectativa de Edvaldo é dobrar o valor nos próximos dois anos. Em adição à venda da bebida artesanal, a Paramirim conta com a produção de rapadura, que atinge a marca de 16 mil quilos produzidos por safra. 

Quanto ao comércio, a Paramirim disponibiliza seus produtos para venda no atacado, com cachaças produzidas em diferentes tipos de madeira, como carvalho, jaqueira e umburana. As mais populares são precificadas entre R$ 22 e R$ 28. Já a mais cara, o Blend Maria Bela, com três anos de envelhecimento e embalagem especial, custa R$ 80. 

Cultura dos coquetéis 

Idealizador do Mapa da Cachaça, projeto premiado que contempla a produção do destilado em diferentes regiões do território nacional, Felipe Jannuzzi acredita que a cachaça se beneficiou da ascensão da cultura da coquetelaria. “Os produtores começaram a compreender a importância de investir na elaboração de receitas de drinks, em busca de um consumo mais recreativo e social. Então eu espero e realmente acredito que a tendência é que o consumo deste destilado em coquetéis só aumente”, afirma Jannuzzi. 

Em um exemplo do aproveitamento do movimento da coquetelaria, todas as sexta-feiras, o mixologista Nilton Araújo elabora uma nova receita de drink para o perfil da marca Paramirim na rede social Instagram. Entre os preparos apresentados, opções com café, picolé de graviola e até mesmo algodão-doce se mesclam com a cachaça baiana e  colorem a página da Paramirim na plataforma digital.

Foto: Reprodução Instagram/ @niltonaraujo.assessoria

Assim como a Paramirim, a Brejo dos Bois também aposta na união da cachaça com ingredientes que a realcem. “Nem todos estão acostumados a olhar a cachaça como uma opção de formulação de coquetéis, mas ela pode casar tão bem quanto um gin ou uma vodka”, afirma Moizés Neri, em defesa da integração da bebida não só como complemento aos drinks, mas também como forma de resistência cultural brasileira. 

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2 respostas

  1. Feliz por saber que o autêntico néctar brasileiro não para de se popularizar! No drink ou pura, posso dizer com experiência que cachaça é uma delícia!! Excelente matéria!

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