
A economia circular deixou de ser, no Nordeste, apenas um vocabulário da sustentabilidade. No III Fórum Nordeste de Economia Circular (FNEC), realizado no fim de março, em Fortaleza, a agenda apareceu como eixo de disputa por financiamento, política pública, adensamento produtivo e reposicionamento regional. Com mais de 70 horas de programação, cerca de 200 autoridades e mais de 3 mil participantes, o encontro reuniu governos, bancos públicos, organismos multilaterais, empreendedores, universidades e movimentos sociais em torno do desejo de transformar a circularidade em desenvolvimento concreto.
Para Liu Berman, idealizadora e organizadora do fórum, o principal saldo foi a confirmação de que a região já não espera uma agenda pronta vinda de fora. “O Nordeste não está mais esperando essa agenda de economia circular chegar. O Nordeste já está produzindo essa agenda”, afirmou. Segundo Liu, o encontro mostrou uma convergência entre biomas, cultura, economia solidária, inovação e instrumentos de financiamento, algo que ajuda a posicionar a região no centro da transição ecológica.
A fala encontra eco na própria arquitetura do evento. A programação oficial indica que o FNEC foi montado para articular temas como bioeconomia, sociobiodiversidade, economia solidária, logística reversa, resiliência climática da Caatinga, finanças públicas, transição energética, reindustrialização, cidades circulares, saneamento ecológico, negócios de impacto e infraestrutura verde. Em um dos painéis centrais, Finep, Banco Palmas e Banco do Nordeste foram colocados lado a lado para discutir mecanismos de crédito e apoio à inovação em cadeias produtivas circulares, especialmente reciclagem, gestão de resíduos e tecnologia.
Esse desenho ajuda a explicar por que o fórum extrapolou a pauta ambiental clássica. Em vez de tratar a circularidade apenas como reciclagem, o encontro apresentou como política urbana, estratégia industrial e ferramenta de desenvolvimento territorial. A Caatinga apareceu como ativo econômico e ambiental; as catadoras, como infraestrutura real das cidades circulares; e a bioeconomia, como caminho para agregar valor localmente a cadeias ligadas à agricultura familiar, pesca artesanal, gastronomia e bioprodutos.
“O fórum não é um evento, ele é uma plataforma territorial em movimento”, disse Berman. Na avaliação dela, a edição de Fortaleza reforçou que economia circular “não é pauta de nicho” nem algo “bonitinho”, mas uma política de desenvolvimento que precisa se aproximar de quem produz, de quem cuida e de quem precisa de financiamento real para escalar soluções.

No campo dos recursos, Finep anunciou a seleção pública “Rodada 2 – Economia Circular e Cidades Sustentáveis” aberta desde 13 de fevereiro, com orçamento de R$ 150 milhões, voltada a empresas e com prazo de submissão até 31 de agosto de 2026. Pelos materiais públicos da chamada, os projetos elegíveis nessa linha trabalham com valores não reembolsáveis entre R$ 5 milhões e R$ 20 milhões por proposta, mirando soluções tecnológicas para a transição circular.
No Banco do Nordeste, a porta de entrada mais direta para negócios produtivos ligados à circularidade continua sendo o FNE Verde, programa de financiamento à sustentabilidade ambiental. A linha atende produtores rurais, empresas, cooperativas e associações; financia desde controle da poluição, recuperação ambiental e produção agroecológica até saneamento e geração renovável; e pode cobrir 100% do investimento para micro e pequenas operações, a depender do porte. O banco também mantém o FNE Inovação, voltado a novos produtos, serviços e processos, inclusive com possibilidade de financiar consultorias para monitorar impactos sociais e ambientais.
Já a Sudene aparece menos como operadora de uma linha específica de economia circular e mais como articuladora institucional da agenda. Em 2025, a autarquia promoveu o seminário “O Nordeste na Transição Circular e Criativa” para reunir contribuições do poder público, setor produtivo, sociedade civil e instituições internacionais, com o objetivo declarado de facilitar o acesso a políticas públicas voltadas às atividades circulares e criativas.
Na prática, isso significa que o empresário interessado em aproveitar essa janela terá de chegar mais preparado do que no ciclo anterior da agenda ESG. “O que aparece, tanto nas chamadas públicas quanto nos debates do fórum, é uma exigência crescente por projetos tecnicamente estruturados, com rastreabilidade, governança, viabilidade econômica, capacidade de mensuração de impacto e aderência regulatória”, explica o consultor do setor de circularidade Danilo Mendonça.
A programação do FNEC tratou de forma recorrente de financiamento, certificações, inteligência territorial, desenho operacional da logística reversa e instrumentos de coordenação entre clima, saneamento, indústria e compras públicas.
Em outras palavras, não basta apenas dizer que o negócio é sustentável. Para acessar Finep, BNB ou programas associados à transição ecológica, será cada vez mais necessário demonstrar onde o resíduo entra e sai da cadeia, que gargalo produtivo está sendo resolvido, quais indicadores serão acompanhados, como a solução se conecta ao território e qual o potencial de escala.
É esse filtro que tende a separar projetos de comunicação ambiental de projetos com musculatura para crédito, subvenção ou parceria pública. Essa leitura é reforçada pela centralidade que o fórum deu à inovação aplicada, à infraestrutura de resíduos, à bioeconomia territorializada e à conexão entre tecnologia e território.

Os setores mais bem posicionados, à luz da programação e das linhas hoje disponíveis, são os de gestão de resíduos e reciclagem, saneamento, energias renováveis, biomateriais, bioeconomia baseada na sociobiodiversidade, agricultura resiliente, construção e cidades sustentáveis, moda e artesanato circular, além de negócios de impacto e tecnologias de monitoramento territorial. Também ganharam espaço cadeias ligadas à logística reversa, compostagem, reuso de orgânicos e soluções industriais de descarbonização e simbiose produtiva.
No recorte federativo, o Ceará foi o estado com maior protagonismo institucional, por sediar o encontro e ancorar parte importante da articulação com o Ministério da Fazenda e com a política estadual de desenvolvimento econômico. O fórum, porém, foi apresentado desde o início como plataforma regional dos nove estados do Nordeste, e a organizadora destacou justamente essa convergência interestadual. Também houve sinalização de expansão territorial: o grupo saiu de Fortaleza com o compromisso de criação do primeiro Fórum Norte de Economia Circular, em parceria com o governo do Pará, e com a quarta edição já anunciada para Alagoas, em 2027.
Berman resume esse momento como uma mudança de chave. “Existe uma convergência muito potente acontecendo”, afirmou. Na leitura dela, o que o mundo busca na transição ecológica já está, em grande medida, no Nordeste. O desafio agora é menos provar relevância e mais transformar esse repertório em política pública, crédito e mercado.