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8 de abril de 2026 10:51

Shoppings do Nordeste desafiam crise do varejo físico e lideram faturamento por unidade

Shoppings do Nordeste desafiam crise do varejo físico e lideram faturamento por unidade

Com menos empreendimentos, shoppings nordestinos registram maior receita média por unidade e apostam em experiências para manter fluxo elevado de consumidores
Foto: Reprodução/TripAdvisor

Em um momento em que o varejo físico enfrenta a concorrência crescente do comércio eletrônico e a mudança nos hábitos de consumo, o Nordeste brasileiro segue na contramão da tendência nacional. Dados do Censo Brasileiro de Shopping Centers 2025/2026 mostram que a região lidera o faturamento médio por empreendimento no país, alcançando R$ 350,4 milhões por unidade. No total, os shoppings nordestinos movimentaram mais de R$ 38,5 bilhões em 2025, consolidando a região como o segundo maior polo do setor no Brasil.

O resultado chama a atenção porque ocorre em um contexto de renda média inferior à de outras regiões, como Sudeste e Sul. Ainda assim, o desempenho por unidade supera essas áreas, indicando uma dinâmica própria de consumo e de operação do varejo regional.

Segundo Ricardo Pastore, coordenador do Retail Studio e do Retail Lab da ESPM, o fenômeno pode ser explicado, em parte, pela menor quantidade de empreendimentos na região. “Enquanto Sudeste e Sul concentram a maior parte dos shoppings do país, o Nordeste possui cerca de 15% a 17% do total, mas responde por aproximadamente 19% do faturamento. Isso indica um desempenho maior por unidade”, afirma.

Ele destaca ainda que muitos centros comerciais nordestinos são mais recentes e modernos, com projetos arquitetônicos e estratégias de operação mais alinhadas ao perfil atual do consumidor. “Isso contribui para uma melhor adequação ao perfil do consumidor local e torna esses empreendimentos mais atrativos eficientes na geração de receita.”

Capitais concentram desempenho

Grande parte do desempenho do setor está concentrada nas capitais e em polos urbanos regionais, onde renda, infraestrutura e turismo ajudam a sustentar o fluxo de consumidores. Empreendimentos localizados em cidades como Recife, Salvador e Fortaleza estão entre os que apresentam maior movimento e faturamento.

Um exemplo é o RioMar Recife, que se consolidou como um dos principais centros comerciais do Nordeste. De acordo com o superintendente do empreendimento, Henrique Medeiros, o sucesso está relacionado à capacidade de oferecer uma experiência ampla ao consumidor.

“O consumidor pernambucano valoriza a experiência integrada. O RioMar Recife reúne conveniência, um amplo mix de serviços e vivências que unem lazer e consumo, mantendo a alta frequência dos clientes”, afirma.

Com mais de 400 operações e cerca de 70 restaurantes e opções gastronômicas, o shopping investe em uma programação intensa de eventos, são mais de 100 por ano, além de atrair turistas. O empreendimento figura entre as cinco atrações mais bem avaliadas da capital pernambucana no Tripadvisor, ampliando o fluxo de visitantes de outras regiões e até de outros países.

A inauguração, em 2026, de um novo espaço dedicado a negócios e eventos reforçou ainda mais essa estratégia. “O RioMar Eventos amplia nosso papel como destino de encontros corporativos e culturais, atraindo um público qualificado e diversificando o perfil de visitantes”, diz Medeiros.

Outro fator que ajuda a explicar o desempenho da região é o papel social que os shoppings assumem no cotidiano urbano nordestino. Diferentemente de outras regiões, onde muitas visitas são rápidas e utilitárias, no Nordeste a ida ao shopping costuma ser planejada e envolve múltiplas atividades.

Para José Luiz Miranda, superintendente do Salvador Shopping, essa relação está ligada ao caráter multifuncional desses espaços. “O consumidor nordestino, e especialmente o baiano, tem uma relação muito forte com o shopping como espaço de convivência e experiências. Ele valoriza uma jornada completa que integra consumo, serviços e lazer em um único ambiente”, explica.

No Salvador Shopping, a estratégia tem sido investir em um mix equilibrado de lojas e experiências. Nos últimos anos, o empreendimento ampliou a presença de marcas nacionais e internacionais e reforçou a oferta gastronômica, buscando atender diferentes perfis de público.

“Esse mix funciona como um organismo dinâmico, sempre alinhado às expectativas do consumidor. A chegada de novas marcas contribui diretamente para o aumento do fluxo e do engajamento”, afirma Miranda.

Experiência contra o avanço do digital

Apesar do crescimento do comércio eletrônico no Brasil, os shoppings nordestinos têm conseguido manter alto fluxo de visitantes. A explicação está na transformação desses empreendimentos em centros de experiência e serviços.

De acordo com Pastore, o setor vem passando por uma mudança estrutural. “Os shoppings deixaram de ser apenas locais de compra e passaram a funcionar como espaços de convivência, lazer e serviços. Isso cria um diferencial que o digital não consegue substituir.”

Nos empreendimentos da região, segmentos como saúde, estética, bem-estar e gastronomia vêm ganhando cada vez mais espaço, ampliando a diversidade de serviços oferecidos. A estratégia também inclui a realização de eventos culturais, shows e programações voltadas ao público jovem.

Medeiros afirma que, no caso do RioMar Recife, a integração entre canais físicos e digitais tem sido vista como uma oportunidade, e não como ameaça. “O modelo omnichannel tem avançado no varejo. Os pontos físicos funcionam como extensão da experiência digital, permitindo que o consumidor transite entre os dois ambientes de forma complementar.”

O ambiente online tem se tornado uma ferramenta de apoio à jornada de compra, uma vez que o consumidor utiliza o digital para pesquisar e tomar decisões, mas busca o shopping para vivenciar a experiência completa, interagir com marcas e aproveitar a conveniência de ter diversas soluções em um só lugar.

Características culturais e climáticas também influenciam o comportamento de consumo. Em uma região marcada por temperaturas elevadas durante grande parte do ano, ambientes climatizados tornam-se um atrativo adicional para lazer e convivência.

Além disso, o crescimento de uma classe média emergente tem ampliado a relevância desses espaços como locais aspiracionais de encontro e entretenimento. “O shopping cumpre um papel importante como opção de lazer acessível. Praças de alimentação, cinemas e eventos têm grande peso nesse contexto”, afirma Pastore.

Ele destaca ainda a presença significativa de jovens consumidores, especialmente das gerações Z e Millennials, que utilizam os shoppings como ponto de encontro e socialização.

Uma nova fronteira para o varejo físico

O desempenho do Nordeste pode indicar um caminho para o futuro do varejo físico no Brasil. Ao apostar em experiências, serviços e integração com o digital, os shoppings da região mostram que o modelo tradicional de centro de compras está se reinventando.

Para Pastore, o cenário sugere que ainda há espaço para expansão do setor, desde que os empreendimentos consigam se posicionar como centros multifuncionais. “Os shoppings que combinam consumo, lazer e serviços tendem a continuar relevantes, mesmo diante do avanço do comércio eletrônico.”

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