
Uma pesquisa conduzida pela Embrapa Semiárido revela que o manejo de abelhas nativas do gênero Centris pode aumentar a produtividade da acerola entre 32% e 103%. A solução proposta pelos pesquisadores é simples, de baixo custo e fácil aplicação, com ninhos de madeira perfurada e plantio de espécies vegetais nativas no entorno dos pomares.
Os experimentos foram realizados em cultivos comerciais nos perímetros irrigados de Petrolina, em Pernambuco, e Juazeiro, na Bahia, um dos maiores polos produtores da fruta no país. Juntas, as duas regiões concentram cerca de 7 mil hectares de acerola.
O impacto potencial é significativo. O Brasil é o maior produtor e exportador mundial da fruta, e aproximadamente 80% da produção nacional está concentrada no Nordeste. Melhorar a eficiência produtiva nessa região pode trazer ganhos econômicos expressivos para agricultores familiares e produtores médios.
A hipótese que originou a pesquisa surgiu a partir de estudos anteriores que já indicavam a importância das abelhas Centris na polinização da aceroleira.
“A literatura já tem registrado a importância do papel das abelhas Centris na polinização da aceroleira. No entanto, as espécies podem variar de acordo com o ambiente”, explica a pesquisadora Lúcia Kiill, coordenadora do estudo.
Na primeira fase do projeto, os cientistas buscaram identificar quais espécies de abelhas estavam presentes nos pomares da região e quais poderiam ser manejadas para aumentar a polinização.
Para isso, foram analisados quatro cultivos comerciais nos perímetros irrigados Senador Nilo Coelho, em Petrolina, e Mandacaru, em Juazeiro. As equipes fizeram levantamentos da diversidade de abelhas ao longo do ano, coletando insetos nas flores e nas áreas próximas aos cultivos com redes entomológicas. Os espécimes foram levados ao laboratório para identificação das espécies e análise do pólen transportado em seus corpos.
Os pesquisadores também observaram a frequência de visitação das abelhas às flores da aceroleira antes e depois da instalação dos ninhos artificiais.
Polinizadoras essenciais
Os resultados confirmaram o papel central das abelhas Centris na produção da fruta.
Embora a aceroleira seja considerada autocompatível, capaz de produzir frutos por autopolinização, essa taxa é extremamente baixa. “Sem essas abelhas, a produção dos cultivos fica comprometida. A aceroleira pode formar frutos sozinha, mas essa taxa não passa de 5%”, afirma Kiill.
Durante as entrevistas realizadas com produtores locais, um padrão chamou a atenção dos pesquisadores: nos períodos em que a produção dos pomares caía, também era registrada a ausência dessas abelhas. Isso indicava um claro déficit de polinização.
Ao todo, os cientistas registraram 11 espécies diferentes de abelhas nas áreas estudadas. Destas, cerca de 92% pertenciam ao gênero Centris, confirmando sua predominância como polinizadora da acerola.
Esses insetos são nativos da Caatinga e já estavam naturalmente presentes nos cultivos. No entanto, mudanças na paisagem rural, como a redução da vegetação nativa, têm diminuído suas populações.
A estratégia proposta pela pesquisa é de fácil adoção e baixo custo. Os chamados “ninhos-armadilha” são feitos em blocos de madeira com cinco furos cilíndricos, projetados para servir como cavidades onde as abelhas possam nidificar. Cada bloco mede cerca de 13,5 centímetros de largura por 4,5 centímetros de altura e possui orifícios de 10 a 12 milímetros de diâmetro.
Cada bloco custa aproximadamente R$40 para ser confeccionado. Nos experimentos da Embrapa, foram utilizados quatro blocos por hectare, um investimento total de cerca de R$160 por hectare.
Além da instalação dos ninhos, os pesquisadores recomendam manter ou plantar espécies vegetais nativas ao redor dos pomares, garantindo alimento e abrigo para as abelhas ao longo do ano.
Outro ponto positivo é a rapidez com que os resultados aparecem. “Dependendo das características da área e do seu entorno, a ocupação dos ninhos pode ocorrer em cerca de 30 dias. Em seis meses já é possível observar aumento nas visitas às flores e, consequentemente, na produção”, explica Kiill.
Ganho direto no bolso do produtor
O impacto econômico para os agricultores pode ser significativo. Na região do Vale do São Francisco, a produtividade média de acerola é de cerca de 20 toneladas por hectare. Com um aumento de 30% na produção, um cenário conservador dentro dos resultados observados, essa produção pode chegar a 26 toneladas.
Considerando que a caixa de 20 quilos da fruta é comercializada por aproximadamente R$ 60 no mercado produtor, esse incremento representaria um ganho adicional de cerca de R$ 18 mil por hectare por safra.
Para pequenos agricultores que cultivam alguns hectares de acerola, essa diferença pode representar uma mudança relevante na renda anual.
Além do impacto individual, a soma desse ganho em toda a região produtora pode atingir cifras expressivas. Um estudo citado pelos pesquisadores estima que o serviço ecossistêmico de polinização da aceroleira tenha valor anual superior a R$ 19 milhões.
Por que a técnica ainda não se espalhou?
Diante de resultados tão expressivos, surge uma pergunta inevitável: por que essa solução ainda não foi adotada em larga escala?
Segundo Kiill, o principal obstáculo é o desconhecimento. “Muitos produtores não sabem da importância das abelhas Centris para a polinização da aceroleira”, afirma.
Outro fator é que problemas de produtividade costumam ser atribuídos a questões de manejo cultural dos pomares, levando os produtores a investirem em tratos culturais (irrigação, adubação ou poda). A possibilidade de déficit de polinização raramente entra na equação.
Há também desafios relacionados à assistência técnica e à disseminação de informações entre produtores.
Para enfrentar essas barreiras, a Embrapa já iniciou ações de transferência de tecnologia, incluindo dias de campo e materiais educativos voltados à cadeia produtiva.
Agora, os pesquisadores iniciam a segunda fase do projeto. O objetivo é ampliar o número de áreas estudadas e definir a densidade ideal de ninhos por hectare para maximizar o serviço de polinização. Também estão previstas novas ações de sensibilização junto a agricultores e técnicos agrícolas.
A expectativa é que a tecnologia se torne cada vez mais conhecida e incorporada aos sistemas produtivos da região. Se isso acontecer, pequenas estruturas de madeira espalhadas pelos pomares poderão transformar a produtividade de uma das frutas mais importantes do Semiárido brasileiro.
