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14 de junho de 2024 20:03

Especial: Bahia aumenta produção e deve ter a maior safra de café conilon dos últimos 5 anos

Especial: Bahia aumenta produção e deve ter a maior safra de café conilon dos últimos 5 anos

Produtores e especialistas apontam o potencial econômico do produto cultivado na Bahia, que vai muito além de uma simples commodity

O 1º Levantamento da Safra de Café 2023, publicado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), no dia 19 de maio deste ano, mostra que a produção total de café na Bahia deverá atingir 3,6 milhões de sacas beneficiadas, volume 0,6% maior que o da safra anterior. O cultivo deverá ocupar 98 mil hectares em produção no território baiano, sinalizando aumento de 5,5% em relação ao último ciclo.

A Secretaria da Agricultura, Pecuária, Irrigação, Pesca e Aquicultura do Estado da Bahia (Seagri-BA) informou ao Investindo por aí que a previsão de produção de café do tipo conilon é de 2.475.000 sacas em 2023. A maior safra desse tipo de café nos últimos 5 anos na Bahia, tornando o estado o terceiro maior produtor deste tipo de café no Brasil.

Exportação e demanda por cafés especiais

Luca Allegro produz café na Fazenda Aranquan, no município baiano de Ibicoara, e contou para o Investindo por aí que um dos grandes responsáveis pelo crescimento desse mercado é o consumo fora de casa. Ele destaca que, com o surgimento de cafeterias oferecendo a experiência de cafés de qualidade e de diferentes métodos de extração, o mercado está ganhando cada vez mais espaço.

Divulgação | Fazenda Aranquan / Latitude 13

“Hoje é comum, em casas especializadas, ter o seu café coado preparado na sua mesa, pelo barista! Como commodity, o mercado de café fica suscetível às variáveis macroeconômicas globais, bem como a aspectos relacionados à oferta e demanda das diferentes regiões produtoras no mundo.  Uma superprodução pode gerar uma maior oferta e assim significar preços mais baixos naquela determinada safra.  Contudo, no longo prazo a cultura de café tem mantido uma demanda constante, pois é um item consumido em praticamente todo o ocidente e seu consumo também tem crescido na Ásia”, disse o produtor.

Allegro contou ainda que o café da sua fazenda ou é exportado ou é torrado e vai para os pacotes do café especial Latitude 13, marca especializada em produtos cultivados na Chapada Diamantina.

“Eu sou produtor de café arábica, na Chapada Diamantina. Por conta do clima de altitude, lá se produz cafés especiais, gourmet, e esse é um mercado que tem acumulado crescimento acima de dois dígitos durante a última década. Enquanto que, no mundo, o consumo de café em geral tem crescido anualmente a uma taxa anual de cerca 1,5% no mesmo período”, explica.

O produtor explica ainda que, cafés de qualidade superior têm menos oscilação de preços e mercados mais estáveis. “O mercado procura por cafés de origem, com características sensoriais distintas. No meu caso, além da qualidade sensorial, produzo café com certificação orgânica e biodinâmica, que é bastante demandado no mercado nacional e internacional”, continuou.

Luca lembra ainda que o Brasil é o maior produtor e exportador de café do planeta, e já é o segundo maior consumidor mundial de café, ficando atrás apenas do mercado estadunidense.

Importância internacional

Engenheiro Agrônomo e doutorando em Economia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Alonso Barros acredita que o café baiano participa de maneira muito relevante na produção mundial do café.

“O Brasil é o maior produtor de café do mundo e a Bahia é fundamental para isso, principalmente na qualidade dos grãos produzidos no estado”, afirma.

Divulgação | Fazenda Aranquan / Latitude 13

Alonso acredita que os governos, estadual e federal, poderiam investir mais na produção do café, especialmente em tecnologia e inovação.

“Para um setor tão competitivo como a cafeicultura, inovação e tecnologia são bem-vindos, sobretudo em um país que tanto ignorou a ciência nos últimos anos. É preciso investimento em melhores variedades, sistemas de irrigação e pacotes tecnológicos que favoreçam a produção em maiores escalas, com menos extensão de terra e, sobretudo, com maior resistência climática”, opina.

Por fim, Alonso acredita que deve haver um olhar mais atencioso para a produção do café na Bahia, tendo em vista o aumento da produção e principalmente a qualidade do café baiano.

Especialista no assunto, Túlio Saraiva é barista e torrefador que tem como objetivo principal realçar os sabores certos de um lote de café verde. Ele contou para o Investindo por aí que a cafeicultura é de extrema importância para o Produto Interno Bruto (PIB) do estado da Bahia.

“Das produções agrícolas que se destacam na Bahia, o café se destaca no Oeste baiano, na cidade de Barreiras, que está a 700 metros de altitude e produz um bom café. Tanto ela quanto as cidades circunvizinhas. Na região Sul temos Itamaraju, sendo uma das maiores produtoras de café conilon do Brasil”, conta.

O café conilon consiste em uma variedade de café que tem como característica principal ser rústico e ter grãos que apresentam um grande teor de cafeína.

“No Planalto da Bahia temos Conquista, que produz um bom café, assim como as cidades circunvizinhas e, finalmente chegando à Chapada Diamantina, onde moro e comercializo café. A região se destaca não pela quantidade, mas pela qualidade do café devido ao relevo. A produção é de extrema qualidade, sendo considerado o café da cidade de Piatã, o melhor café do Brasil”, continua Tulio.

O café de Piatã já venceu diversos concursos especializados e é comercializado com valor acima da cotação do café arábica no Brasil. “O café arábica chega a custar entre 1.200 e 1.300 reais a saca e o de Piatã, entre 1.700 e 1.800 reais. Ele tem um sobrepreço devido à proeminência das qualidades e é muito procurado por especialistas de todo o país”, afirma.

Túlio lembra ainda que o Basil é o maior produtor de café há 100 anos e que a Bahia é o quarto estado com a maior produção do país.

“A expectativa esse ano é que o Brasil produza 54 milhões de sacas de café. O segundo maior produtor do mundo, o Vietnã, produz em média 20 milhões, então estamos em primeiro lugar com folga”, explica.

Os estados com a maior produção são Minhas Gerais, São Paulo, Espírito Santo e a Bahia. “A Bahia produz dois tipos de café, o conilon, mais direcionado para a indústria, e o arábica, que é um café especial, de pontuação mais alta. Um café nobre e mais caro”, continua.

Produto especial para mercados especiais

Com relação a novos produtos que chegam ao mercado, como cápsulas e filtros individuais, Túlio enxerga como ciclos.

“Esses produtos tiveram um grande sucesso na década passada mas, na virada de 2020, o interesse já diminuiu muito. Às vezes uma coisa entra na moda, mas cai logo. O que é consistente mesmo é o crescimento do consumo do café especial no Brasil. Antes apenas 5% da produção do café era destinada ao café especial, agora são cerca de 20%, o que mostra que o brasileiro vem melhorando como consumidor de café, assim como outros produtos, como a cerveja. Na década de 90 eram 3 marcas de cerveja e hoje são mais de 200 rótulos”, exemplifica Túlio.

Divulgação | Fazenda Aranquan

Ele lembra que há 10 anos, quando montou sua cafeteria na cidade de Lençóis, na Chapada Diamantina, dificilmente algum cliente queria saber sobre o café especial, a espécie, a altitude da cidade onde foi produzido. “Hoje em dia as pessoas vêm atrás do café especial da Chapada Diamantina, do café produzido aqui. Muitos vêem apenas pelo café e a gente percebe que está aumentando a cultura do consumo do café especial. É isso que tem aumentado a receita desse mercado”, disse.

Túlio reforça que o ganho com essa atividade econômica vem aumentando justamente por conta da melhoria da qualidade do café. “Você agrega muito valor ao café se ele for colhido à mão, selecionado, vermelho, maduro e bem suculento. Jamais deve secar no chão, mas em terreiros suspensos, onde a secagem é homogênea e rápida, sem contato com a umidade do solo. O processo de finalização não é mais feito com a torra do café escuro, muito torrado e preto. Isso significa que queimou. O ideal é o café de torra média e daí você consegue vender um pacote 4 ou 5 vezes mais caro que o café comum”, afirma.

O torrefador explica que o pequeno produtor acaba tendo uma alta receita por realizar a colheita manualmente e ao invés de vender no mercado comum, vende para micro torrefações por um valor mais alto, chegando a R$ 3 mil a saca. E o torrefador que compra o café, revende mais caro também.

Túlio explica ainda que o café brasileiro pode ser encontrado em cafés de todo o mundo. “O mundo todo compra café do Brasil e todos os pacotes de café possuem grãos do café brasileiro, a não ser que seja um microlote de café da Etiópia, Jamaica, Havaí ou Costa Rica, que são cafés puros com selo de certificação de origem. Mas o café comum, das prateleiras do mundo todo, possuem grãos do café brasileiro”, continua.

Para melhorar ainda mais a situação do produtor de café, Túlio aponta a infraestrutura para o escoamento da produção. “Se houvesse melhores estradas ou até mesmo ferrovias passando pelas áreas produtoras de café, isso melhoraria ainda mais a situação dos produtores. Se houvesse menos burocracia nas operações de alfândegas, operações portuárias mais baratas e mais eficientes, facilitaria o escoamento”, concluiu.

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