Jornalismo econômico para a inovação no Nordeste -
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21 de fevereiro de 2024 23:13

Empreendedorismo feminino: uma fronteira de oportunidades

Empreendedorismo feminino: uma fronteira de oportunidades

Apesar dos desafios, o empreendedorismo feminino pode ajudar um país como o Brasil a reduzir desigualdades de gênero e aumentar a diversidade no mundo dos negócios.

Em 8 de março celebra-se o dia internacional das mulheres, que pode até ser mais uma data para a proliferação de postagens tentando vender perfumes, chocolates e batons, de vídeos românticos no Tik Tok ou de manifestações extemporâneas de afetos inesperados, mas sempre serve para chamarmos a atenção dos desafios que ainda enfrentamos para construir uma sociedade menos violenta e desigual como a que ainda temos.

Apesar dos desafios, o empreendedorismo feminino pode ajudar um país como o Brasil a reduzir desigualdades de gênero e aumentar a diversidade no mundo dos negócios. Nosso empenho neste texto é contextualizar o que é, por que importa, quais os desafios e oportunidades para um país como o Brasil, do empreendedorismo feminino.

O empreendedorismo é o principal vetor de crescimento econômico e de transformações sociais. Quanto mais inovador, mas impacto positivo pode produzir. O empreendedorismo feminino, por sua vez, pode ser definido como o conjunto de negócios idealizados, fundados ou liderados por mulheres. É uma expressão da presença feminina no mundo dos negócios. É uma dimensão da quebra dos paradigmas residuais do já extinto século XX, em busca de uma sociedade com mais equidade.

A crescente presença feminina nos negócios, paradoxalmente, ainda que tardia, pode se beneficiar de um mundo em transição, de futuros mais plurais, de economias baseadas em serviços, de soft skills, flexibilidade, competência analítica, criatividade, capacidade de colaborar, da humanização e empatia nas relações. Mulheres representam mais de 50% da população brasileira e já são 40% dos empreendedores iniciais, com negócios criados nos últimos 3 anos, segundo dados do Global Entrepreneurship Monitor de 2020.

Um dos grandes desafios enfrentados pelas mulheres é a múltipla jornada de trabalho, já que são chefes de família ou absorvem responsabilidades domésticas que estendem deveres e ocupam o tempo disponível para outras atividades, já que cerca de 49% das mulheres empreendedoras são chefes de família segundo dados da PNAD de 2020.

Em média as mulheres trabalham cerca de 10,5 horas a mais por semana que os homens em razão de seus afazeres domésticos e no exercício da maternidade. Por conta dessa carga extra de trabalho as mulheres terminam dedicando entre 17 e 20% a menos de tempo aos seus negócios, comprometendo o desempenho deles. Muitas chegam até mesmo a abandonar suas atividades profissionais e empreendedoras em tempos de crise, como a pandemia da COVID-19 demonstrou, ou quando alguém adoece ou há necessidade de maior presença no lar.

As múltiplas tarefas, no entanto, são apenas a ponta de um icerberg de desafios que impedem o avanço do empreendedorismo feminino no Brasil.

Apesar de estudarem mais que os homens e cada vez mais estejam optando por disciplinas e especialidades mais ligadas às tecnologias, as mulheres têm negócios com renda média menor que os homens, espelhando a mesma realidade no mercado do trabalho, onde este viés é presente há décadas. Mesmo com maior escolaridade e experiência de vida, pois 68% têm ensino médio ou superior completo e 67% têm entre 35 e 64 anos de idade, a grande parte das mulheres ainda empreende em negócios menos inovadores.

A maioria delas são MEI- microempreendedoras individuais, ou tocam, sozinhas, negócios por conta própria. A grande maioria das mulheres ainda empreende por necessidade ou falta de emprego e renda alternativa, mas por outro lado, também afirmam empreender movidas pelo propósito de fazer a diferença no mundo. Seus produtos e serviços têm menor valor agregado impactando o nível de faturamento. Como consequência, os empreendimentos liderados por mulheres são mais vulneráveis aos movimentos negativos de mercado.

Considerando o contingente de mulheres que já empreendem, apesar das dificuldades, e as dezenas de milhões de brasileiras que poderiam estar empreendendo, o Sebrae criou o Programa Sebrae Delas, Mulheres de Negócios, com o objetivo de ampliar as chances de sucesso de ideias e negócios liderados por mulheres, valorizar as competências, comportamentos e habilidades femininas no mundo dos negócios.

Segundo estudos do McKinsey Global Institut, e evidências empíricas em muitos países que adotaram estratégias explícitas de inclusão produtiva de mulheres, a maior presença feminina no mundo dos negócios produz efeitos sistêmicos sobre toda economia, com incremento no PIB, redução de pobreza e desigualdade, redução dos níveis de violência doméstica, e aumento nas taxas agregadas de inovação da economia. Adicionalmente, a inclusão de mulheres empreendedoras na economia ajuda na superação dos vieses tanto do racismo estrutural, pois são muitas as mulheres negras e indígenas que enfrentam obstáculos adicionais, quanto do machismo ou da misoginia, infelizmente ainda pulsando.

Mulheres também geram mais empregos para mulheres e fomentam a aprendizagem em rede, em atividades associativas, facilitando a aprendizagem para empreender das mais jovens.

O empreendedorismo feminino enfrenta muitos obstáculos, alguns de natureza cultural, outros do próprio mercado, ou mesmo de preconceitos históricos. Um desses vieses se expressa na hora de obterem empréstimo quando mulheres têm mais dificuldades e quando obtém, pagam taxas de juros maiores.

Apesar desses desafios vemos cada vez mais o reconhecimento de que as mulheres, sobretudo em razão do conjunto de suas competências e soft skills, da disposição para inovar, da flexibilidade, da inteligência emocional, da maior empatia, cuidado com os detalhes, por lidarem melhor com as finanças com reflexos evidentes no adimplemento de empréstimos, são uma fronteira demográfica de enorme potencial para as próximas décadas.

Os futuros que estão emergindo, no plural mesmo, pois há muitos entre os possíveis, prováveis, utópicos e distópicos,habilitados pelo digital, onde muitas das tarefas repetitivas ou de baixa intensidade criativa e emocional serão substituídas pela automação inteligente, abre uma enorme janela de oportunidades para sermos mais e melhores humanos, e grande parte desse upgrade de inteligência passa por lidarmos melhor com as múltiplas inteligências que dispomos. E as mulheres têm comprovadamente todas elas.

O Brasil tem a quarta maior população conectada do mundo, com cerca de 153 milhões de pessoas conectadas através do celular. Esta é não apenas uma oportunidade para empreender nas novas economias habilitadas pelo digital, mas também uma fronteira de aquisição de competências pela infinita oferta de capacitações e conteúdos relevantes para quem quer empreender.  Ajustando a gestão do tempo das múltiplas tarefas, ou tendo suprida suas necessidades de apoio com os filhos (creches, horários mais flexíveis para capacitação), superado os preconceitos e vieses e a discriminação (no acesso a financiamento, por exemplo), e fortalecendo a confiança e superando algumas crenças limitantes sobre o papel do gênero adquiridas ainda na infância ou ao longo da vida, não há dúvidas que poderemos ter no empreendedorismo feminino uma das melhores fronteiras de crescimento de nossa economia, com os impactos positivos já mencionados no campo social.

 

 

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