Vinicius Lages

 

Empreender é ir lá e fazer, é transformar, é fazer acontecer. Ontem, hoje e sempre. Mas o contexto em que podemos empreender, as variáveis-chave da montagem de um negócio, as necessidades e desejos dos consumidores, os modelos de empresas habilitados por tecnologias digitais, a desmaterialização de bens e serviços vêm mudando em velocidade acelerada.

O presente e o futuro, cada vez mais, se aproximam de maneira veloz. Aquilo que levava décadas para acontecer (as mudanças sociais, institucionais, legais, tecnológicas, os modelos de negócios, e mesmo as dinâmicas naturais, aceleradas pelo tal do antropoceno) vem ganhando escala e velocidade. Tudo isso foi chamado por Peter Diamandis, Salim Ismail e Ray Kurzweil (fundadores da Singularity University, no Vale do Silício) de era exponencial.

Mais que uma era de mudanças, trata-se de uma mudança de era, com repercussões sobre todas as esferas de nossas vidas. E que impacta, de forma disruptiva, o modo como empreendemos e os modelos de negócios que desenvolvemos.

Essa mudança de era tem provocado transformações relevantes no campo econômico e social, sobretudo naquilo que vem sendo chamado de transformação digital ou de transformações econômicas habilitadas por tecnologias digitais (robótica, blockchain, inteligência artificial, BigData, Cloud Computing, IoT, biologia sintética, impressão 3D, entre outras).

A aceleração provocada por essas mudanças aponta para um cenário de incertezas e de grande volatilidade, que requer muita flexibilidade mental, bem como nos arranjos institucionais, legais e na capacidade de adquirirmos novas competências. As inovações, afinal, sempre estiveram à frente de nossa capacidade de regulá-las, de nos educar para elas, de criar instituições adequadas a estes novos contextos. Não por acaso, muitos defendem que deveríamos viver em permanente modo Beta, como um protótipo, prontos para pivotar e incorporar novas competências, funcionalidades, capacidades.

Adaptar-se é preciso, desaprender, aprender, reaprender sempre. Cada vez mais em ciclos mais curtos, mais focados, mais aplicáveis, sem medo de errar, testar. Este novo que ainda não chegou.

Estamos diante da liquidez do tempo, da vida, como descreveu o genial Zygmunt Bauman. É a era do interregno, em que o passado já não nos serve, mas o futuro ainda não chegou, ou vem chegando tão velozmente. Temos que nos preparar para essa fluidez. De um lado, a liquidez que nos permite adaptar, dialogar, construir; de outro, a rigidez dos modelos mentais e de negócios, que nos imobiliza, engessa e pode nos quebrar em múltiplos pedaços.

Essas mudanças e transformações têm provocado uma necessidade de encarar o futuro não mais como um tempo longínquo, mas um futuro que já começa segunda-feira, e que pode nos pegar de surpresa a cada instante. Neste contexto, emergem escolas de pensamento, de gestão, de inovação, de futurismo, de prospecção desse porvir, tentando acelerar nossa capacidade de adaptação a esse mundo BigData, veloz, ambíguo, interdependente, exponencial. Afinal, o século XX e a era industrial criaram um mundo linear, cartesiano, mais lento, previsível, categórico, binário, hipertrofiando o racional em detrimento de outras inteligências.

Neste mundo em vias de extinção, tínhamos tempo para ajustar nossas lentes e tentar enxergar o que vinha por aí em alguns anos, décadas, ou mesmo nas especulações ficcionais da ciência, arte, literatura, cinema, design, arquitetura. E mesmo no desenho animado, como nos Jetsons, cujas tecnologias ficcionais se tornaram realidade, como o prosaico aspirador robô, o celular, os drones. Essas sempre foram expressões da especulação criativa do imaginário sobre o futuro. Como no cinema e na TV, em Perdidos no Espaço, Matrix, Minority Report e dezenas de filmes sobre inteligência artificial, carros autômatos, exoesqueletos, óculos biônicos, metaversos, que inspiraram patentes de tecnologias hoje no mercado.

A fluência sobre o futuro foi definida pelo Fórum Econômico Mundial como uma competência essencial para o mundo em que vivemos. Alfabetização de futuros, antecipação, pensamento sistêmico e previsão estratégica. Mas devemos incluir a antifragilidade (no conceito proposto por Nassim Taleb), ou a capacidade de nos tornarmos ainda melhores, mesmo depois de situações adversas, improváveis ou imprevisíveis, como esta pandemia, e a capacidade de nos tornarmos mais e melhores humanos, como discutido por Yuval Harari, para nos ajustarmos à evolução das aplicações da inteligência artificial. Temos aí uma agenda desafiadora para quem quer e precisa empreender.