Jornalismo econômico para a inovação no Nordeste -
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22 de fevereiro de 2024 01:35

Especial: Moedas sociais contribuem com a economia local em comunidades periféricas

Especial: Moedas sociais contribuem com a economia local em comunidades periféricas

Moedas sociais são uma das alternativas adotadas por bancos comunitários como forma de fomentar a economia local, promover a circulação de recursos dentro da comunidade e ampliar o acesso a crédito.  

Quem chega nos lugares em que os bancos tradicionais não chegam? De acordo com dados do Banco Central, cerca de 8% da população brasileira está desbancarizada, ou seja, não tem ou não utiliza contas bancárias. A falta de acesso aos bancos tradicionais é um problema motivado por diversos fatores como distância física entre casas e agências, inadimplência, quantidade de documentos exigidos, baixa educação financeira e muitos outros. Uma das soluções deste problema têm sido os bancos comunitários, que desempenham um papel fundamental na inclusão financeira e podem beneficiar diretamente a população desbancarizada.

Pessoa utiliza cédulas de Sururote, em Maceió | Divulgação

Os bancos comunitários são instituições financeiras que têm como objetivo principal promover o desenvolvimento econômico e social de uma determinada comunidade ou região. Eles são geralmente criados por iniciativas locais, como associações de moradores, organizações não governamentais (ONGs) ou cooperativas, e têm como objetivo a inclusão social e o fortalecimento da economia local.

Ao contrário dos bancos tradicionais, os bancos comunitários estão mais próximos das comunidades que atendem e têm uma compreensão mais aprofundada das necessidades e demandas locais. Com isso, oferecem serviços financeiros mais acessíveis e adaptados às realidades dos seus clientes, incluindo microcrédito, poupança, seguros e outros produtos financeiros.

As moedas sociais são uma das alternativas adotadas por alguns bancos comunitários como forma de fomentar a economia local, promover a circulação de recursos dentro da comunidade e ampliar o acesso a crédito.

Leonardo Leal, professor de Administração Pública da Universidade Federal de Alagoas e coordenador da da Incubadora Tecnológica de Economia Solidária, explica que a moeda social é uma moeda complementar. “Quantas vezes você já utilizou milhas aéreas? O cartão de crédito que te oferece pontos para comprar outras coisas. Elas são um exemplo de moedas complementares. Essas estão a serviço do mercado, da rentabilidade dos investimentos. Nós chamamos de moedas sociais aquelas que tem finalidade socioeconômica, com fins de emancipação, justiça social, empoderamento e desenvolvimento”.

O Banco Palmas foi o pioneiro e é o exemplo mais emblemático de banco comunitário no Brasil. Localizado na periferia de Fortaleza, no estado do Ceará, foi fundado em 1998, por meio de iniciativa dos moradores da comunidade do Conjunto Palmeira. A moeda Palma, que circula apenas dentro do Conjunto, foi criada no mesmo ano e existe até hoje, com 25 anos de história.

Atualmente existem mais de 150 moedas sociais registradas no Brasil. Não necessariamente elas precisam estar ligadas a um banco comunitário, embora muitas vezes haja essa associação. As moedas sociais podem existir de diferentes formas e ter diferentes modelos de gestão. É o caso de moedas como Bertholet, Sururote e Umoja.

Cooperativa autossustentável

No litoral sul de Alagoas, a Cooperativa Pindorama possui 30 mil hectares de áreas produtivas localizadas entre os municípios de Penedo, Coruripe e Feliz Deserto. As terras estão divididas em mais de mil lotes, distribuídos em 22 comunidades e com uma população de aproximadamente 30 mil habitantes.

Cédulas de Bertholet, moeda utilizada no povoado Pindorama, no interior de Alagoas | Divulgação
Cédulas de Bertholet, moeda utilizada no povoado Pindorama, no litoral sul de Alagoas | Divulgação

“Somos uma comunidade de 30 mil pessoas hoje. E essa comunidade tem uma estrutura. Ela se autossustenta, se autoabastece, além da produção no campo que leva para nossas indústrias. Eu digo nossas, porque as indústrias pertencem também à cooperativa e, consequentemente, aos seus cooperados”, diz Klécio José dos Santos, Diretor Presidente da Pindorama.

A Bertholet foi a moeda social criada pela Cooperativa com o objetivo de incentivar a circulação do dinheiro dentro do território local. “Aqui nós temos todos os mesmos valores que existem no real. Esse dinheiro, quando circula internamente, tem um ganho de 4%. Ou seja, ele é mais forte do que o real”, explica Klécio. Ele também conta que os trabalhadores da cooperativa podem escolher como receber o salário e a porcentagem que desejam que seja em Bertholet.

A moeda, que pode ser usada estritamente em negócios conveniados à Cooperativa, movimenta a economia e impacta toda a comunidade. “Esse dinheiro vai para a comunidade e é usado nos diversos pontos comerciais, nas padarias, nos supermercados, nas lanchonetes, nas lojas de material de construção, nas agropecuárias, no posto de combustível, nas boutiques, nos restaurantes. Hoje nós temos quase 200 pontos credenciados para receber esse dinheiro”, comenta o Diretor Presidente.

Klécio também conta que os negócios conveniados passaram a utilizar o desconto de 3% a 4% porque perceberam maior lucro. “Ele [o empreendedor] se obriga a dar um desconto de forma espontânea, mas que fique claro que não tem esse compromisso forçado. Ele entendeu que é bom. Ao invés de pagar o custo de um cartão de crédito, ele estimula alguém a comprar no comércio dele com esse dinheiro e dá um desconto entre 3% a 4%. E aí, por exemplo, esse dinheiro que o dono da farmácia recebeu, ele pode usar a mesma nota e comprar pão na padaria.”

O professor Leonardo Leal explica que esse é um mecanismo territorial de desenvolvimento local, que evita a fuga de renda das comunidades e gera uma rede de economia solidária. “O Banco Comunitário oferece crédito em moedas sociais para que a comunidade consuma e para que empreendimentos façam pequenos investimentos em negócios comunitários.”

Sustentabilidade rentável para todos

Em Alagoas, estado em que o sururu é patrimônio imaterial, o Instituto Mandaver tem feito história no bairro do Vergel do Lago, localizado na periferia da cidade de Maceió. Por estar às margens da lagoa Mundaú, a comunidade tem como uma das principais fontes de renda a venda do molusco. A Sururote, moeda social criada pelo Banco Laguna, que faz parte do Instituto, foi uma das alternativas para resolver o problema de descarte das conchas do sururu e ampliar a circulação de dinheiro dentro da região.

Comerciantes aceitam o Sururote na área de circulação da moeda, em Maceió-AL | Divulgação

“O descarte das conchas era feito de forma inadequada, porque eram jogadas na via pública. Com isso, gerava problemas de saúde pública, como o aparecimento de insetos, animais que causavam alguma doença e mau cheiro, podendo causar problemas às crianças e a toda a comunidade em geral. Então pensamos no que fazer com as cascas para parar de contaminar tanto o meio ambiente como as pessoas. Fora a economia também da região, o nosso problema com a extrema vulnerabilidade. A gente tem que inventar alguma coisa que fosse rentável e que beneficiasse o meio ambiente”, explica Rafaela Barbosa, supervisora de microcrédito do Banco Laguna.

Atualmente, as marisqueiras da região entregam as conchas à fabriqueta do Instituto e lá recebem um voucher informando quantos quilos elas entregaram e quanto equivale em sururotes.

“A nossa moeda é de um para um. E essa foi a nossa primeira linha de atuação, que começou lá em 2018. Em 2019, foi feita uma parceria com a UFAL e começamos uma seleção de mulheres para trabalhar o conceito de economia solidária e econômica circular com elas”, complementa Rafaela.

O professor Leonardo Leal comenta sobre os impactos da moeda social nos pequenos negócios. “Eu vejo pelo menos três elementos importantes para os empreendimentos locais, sejam eles de natureza individual, coletiva/associativa ou familiar. O primeiro e mais evidente é o impacto econômico. Na medida em que esses empreendimentos passam a fazer parte de um circuito econômico local com uso de moeda social, é presumível que a gente observe um volume maior de consumo interno na economia do bairro. Portanto passam a ter um maior número de clientes”, afirma.

“Outros dois [impactos] menos óbvios, mas de igual importância são os efeitos pedagógicos, do ponto de vista da educação financeira e da economia local, de compreender a importância de dinamizar e fortalecer os empreendimentos do bairro. Os membros dessa rede passam a fazer parte de fóruns sobre economia social e economia solidária, em que vão perceber a importância da solidariedade e da cooperação para potencializar as alternativas econômicas do território. E o impacto político, na medida em que esses empreendimentos passam a se organizar para exigir melhores políticas públicas para fortalecer o próprio bairro”, diz.

A circulação oficial da moeda começou em 2020. No início, havia apenas um mercadinho conveniado. Hoje em dia são mais de 20 marisqueiras que fazem parte do projeto e mais de 30 estabelecimentos que aceitam o sururote como forma de pagamento.

“Temos elevado bastante a economia local no território. Com relação às conchas, a gente chegou a 100 toneladas retiradas do meio ambiente do ano passado para cá. Já com relação aos sururotes, estamos com praticamente 400 mil sururotes circulando no território. Então, você vê como alavanca a economia”, diz a supervisora de microcrédito do Banco Laguna.

Ela também conta que o banco possui uma linha de microcrédito para pequenos empreendedores locais e um auxílio de 200 sururotes mensais para mais de 200 famílias com o objetivo de desenvolvimento social.

Confiança e credibilidade na comunidade 

Em Salvador, no bairro do Uruguai, a Associação de Moradores do Conjunto Santa Luzia tem mais de 30 anos de luta por melhorias na região. O Banco Comunitário Santa Luzia, criado em 2000 com o apoio da organização internacional Visão Mundial, é uma das linhas de atuação.

“Com o tempo fomos melhorando a nossa metodologia, principalmente a partir da economia solidária, que é o grande mote do nosso banco. Fomos ganhando uma gordura social interessante na comunidade. Criamos grupos de poupança coletiva e temos um fundo rotativo solidário que é gestado pelo grupo dos jovens”, explica Carlos Eduardo, coordenador de Finanças Solidárias da Associação de Moradores do Conjunto Santa Luzia.

Comerciantes aceitam o Umoja na área de atuação da moeda, na periferia de Salvador | Divulgação

A Umoja, moeda social da Associação, foi idealizada em 2011 durante a realização de um edital feito pelo Governo do Estado da Bahia junto a Secretaria de Trabalho, Emprego, Renda e Esporte. “Nós conseguimos um apoio para rodar um projeto no primeiro edital de finanças do Governo do Estado e fomos premiados. Esse edital era de fundos rotativos e trabalhamos esse projeto exatamente com o público do banco comunitário. Nele, criamos a Umoja, que não era como é hoje. Antes era apenas um cartãozinho com o logo e só servia como troca nos clubes”, conta Carlos.

Nos anos de 2016 e 2017 a Associação participou do último edital promovido pela Secretaria Nacional de Economia Solidária, que foi extinta durante o governo Bolsonaro. “Dentro desse projeto, colocamos a ação de criação da moeda social com a parceria da ITES (Incubadora Tecnológica de Economia Solidária da UFBA) durante dois anos”, complementa.

Foi somente em 2018 que a moeda começou a circular na comunidade. Carlos relata que no começo foi complicado para convencer o comércio local e que foi necessário realizar uma série de palestras e encontros com os empreendedores, mas que a confiabilidade da Associação foi essencial no processo.

Hoje a Associação conta com mais de 50 comércios conveniados, além de terem implantado o aplicativo É Dinheiro. O professor Leonardo Leal explica que o aplicativo facilita a capilaridade das moedas nas comunidades. “Há um processo acelerado de digitalização das moedas sociais. Os bancos comunitários criaram a fintech É Dinheiro, que é mais segura e tem uma capilaridade muito maior. Essa plataforma, entre as moedas digitais – sem comparação com os bitcoins, tem um dos maiores números de usuários do Brasil. Nós não temos dinheiro, mas temos comunidade. Essas grandes fintechs tem dinheiro, mas não tem o povo.”

Para Carlos, o Banco Comunitário é essencial na vida dos empreendedores periféricos. “O Banco Comunitário atua com um público que está totalmente fora do circuito de crédito dos bancos formais. Eles não conseguem acessar recursos para melhorar os seus negócios, isso está dado. Nem mesmo com os bancos estatais como a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil, que deveriam ter um olhar para esse empreendedor. Hoje o empreendedor popular que a gente atua só tem a agiotagem, que está ligada ao tráfico. A única saída para esse comerciante é o Banco Comunitário”.

Moradores do bairro Uruguai, em Salvador, utilizam o Umoja | Divulgação

Pensar em diferentes estratégias para reter o público também é uma das prioridades do Banco. Carlos relembra de um episódio em que um dos moradores, que é pescador, havia comprado um motor (fora do banco, em reais) para trabalhar. Durante a pandemia, não conseguiu pagar a dívida e recorreu ao Banco Comunitário para ter crédito e pagar a dívida com peixes. “Achamos a ideia interessante e aceitamos. Ele passou dois ou três meses fazendo a devolução em pescado. A gente busca essas alternativas para não perder aquele empreendedor, porque se ele perder a gente, não vai ter outra oportunidade. É importante resgatar.”

Para Carlos, o impacto na autoestima da comunidade é notável. “Você percebe que a pessoa se fortalece, principalmente as mulheres, que são mais de 70% do nosso público. Ver uma mulher empreendedora andar de cabeça erguida, falar com orgulho do seu empreendimento, pra gente isso é muito satisfatório.”

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