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24 de maio de 2024 14:49

EXCLUSIVO: Dia da Consciência Negra reúne a comunidade negra, líderes políticos e religiosos na Serra da Barriga para discutirem o futuro

EXCLUSIVO: Dia da Consciência Negra reúne a comunidade negra, líderes políticos e religiosos na Serra da Barriga para discutirem o futuro

Evento no Quilombo Zumbi dos Palmares reacende a parceria da Fundação Palmares com o governo de Alagoas

O Investindo Por Aí subiu a Serra da Barriga no Município de União dos Palmares para participar das festividades do Dia da Consciência Negra, no Parque Memorial Quilombo dos Palmares. Nós fomos entender melhor a contribuição do povo negro para a economia e de que forma a sociedade ainda precisa contribuir para a inclusão das pessoas pretas no fomento ao afroempreendedorismo e iniciativas de valorização da cultura e ao emprego formal.

Maior símbolo da resistência negra no Brasil, o quilombo reuniu hoje cerca de cinco mil pessoas entre grupos de cultura africana, povos originários, líderes religiosos, populares e políticos, que subiram a serra para homenagear não só Zumbi dos Palmares, mas, também, grandes mulheres que lideraram o quilombo ao seu lado, como a sua esposa e guerreira Dandara, e sua avó Aqualtune, um dos principais símbolos da resistência quilombola e da luta pela liberdade do povo negro no Brasil.

“Esse ano o evento é dedicado a Zumbi e à Dandara, dois heróis nacionais que viveram em Alagoas. Claro que ainda precisamos homenagear outras personalidades, mas já é o começo de um reconhecimento dessa dívida histórica com as mulheres negras que contribuíram fortemente para a liberdade do seu povo”, afirma João Jorge Rodrigues, presidente da Fundação Palmares.

Uma série de tendas e barraquinhas espalhadas pelo quilombo refletiam não só a força do afroempreendedorismo, mas iniciativas comerciais de toda uma comunidade. Povos originários vendiam seu artesanato como cocares e cordões; escolas de capoeira exibiam seus alunos jogando capoeira; marcas de telefonia faziam ativações, enfim, oportunidades de negócios não faltaram.

Danielle Santoro, publisher do Investindo Por Aí, com a Mãe Neide

Mãe Neide, uma das mais respeitadas líderes religiosas e comunitárias do Brasil, falou da importância de incluir comidas de origem africana na merenda escolar para gerar renda nos quilombos. “Se Deus quiser nossos pés-de moleque, nossos beijus, nossos bolos vão entrar sim na merenda escolar, porque precisa-se gerar renda nos quilombos e aumentar a nossa representatividade junto às crianças desde bem pequenas”. O presidente da Fundação Palmares, que acompanhava a entrevista, complementou. “Essa ação precisa ser combinada com os representantes dos Ministérios da Igualdade Racial, da Educação e do Trabalho para ofertar mais produtos quilombolas para a rede de abastecimento escolar”. No próximo dia 7 de dezembro, Mãe Neide irá a Brasília para brigar por essas e outras causas relacionadas ao povo negro. Quando questionada pelo Investindo Por Aí sobre a importância econômica do evento, a religiosa comentou que essas iniciativas movimentam a cidade inteira gerando renda, porém, na sua visão, as festividades vão além do poder econômico, gerando uma sensação maior de pertencimento às pessoas para que elas saiam de trás da cortina da intolerância e do preconceito.

João Jorge Rodrigues chamou à responsabilidade os três poderes – federal, estadual e municipal no que tange à preservação e à manutenção do quilombo que, na opinião dele, não pode ser “ultrajado”. “É importante se manter limpo e organizado para que seja um lugar de visita dos brasileiros, latino-americanos e parceiros africanos. É preciso que todos se unam para que as pessoas venham conhecer esse berço da nossa ancestralidade e se torne ser um lugar de romaria simbólica. Para isso, é necessário que a região se desenvolva, que haja mais transporte, hospedagens, restaurantes, enfim, mais estrutura para estimular o turismo. Maceió já fez isso. É fundamental que a Prefeitura de União dos Palmares vá buscar recursos para desenvolver o município e, o governo do Estado, por meio da Secretaria de Cultura, contribua para este crescimento. Alagoas tem bons representantes no governo federal que podem ajudar”, afirma o presidente da Fundação Palmares. “Vários países do mundo tratam a riqueza cultural como ativo. O Quilombo é um parque nacional. E por que ainda não é um parque nacional da humanidade? Vamos tratar disso com a Unesco!” afirma João Jorge Rodrigues.

A secretária de cultura de Alagoas, Mellina Freitas, que estava presente à coletiva, disse que nos últimos quatro anos houve um desmonte total da cultura no Brasil e que, graças a figuras como Mãe Neide e outras lideranças que foram muito aguerridas na defesa do parque e de toda a comunidade, ele se manteve de pé. Fez uma crítica à gestão da Fundação Palmares no governo Bolsonaro e afirmou que a ausência do trabalho da instituição nesse período fez com que o então governador de Alagoas, Renan Filho, e o atual governador, Paulo Dantas, assumissem as celebrações tradicionais e religiosas para manter o legado. “Estamos muito felizes em ter a Fundação Palmares de volta, retomando as suas funções, dividindo a responsabilidade e lutando para defender esse patrimônio sagrado”, afirma a secretária. “A (fundação) Palmares já chegou esse ano fazendo toda diferença, é perceptível. Temos muito a caminhar”, finaliza.

O presidente João Jorge Rodrigues aproveitou a oportunidade para comentar a divulgação do edital do BNDES – Banco Nacional do Desenvolvimento – que vai destinar R$ 20 milhões à preservação do Cais do Valongo (pertencente à Fundação Palmares), da Pedra do Sal e da Pequena África, no Rio de Janeiro. Ele afirmou ainda que, em parceria com a ministra da cultura Margareth Menezes, vai sugerir que esta iniciativa se propague em outros lugares do Brasil como museus de rua, museus da herança africana e da interpretação. Rio de Janeiro, Salvador, Serra da Barriga e São Luiz são alguns dos lugares que vão tratar da herança negra. Não serão mais museus da escravidão, mas, sim, da herança africana, da luta pela liberdade. “O Cais do Valongo estava abandonado, sem energia, e estamos preparando-o para ser um lugar de visitação. Só que o entorno também precisa ser cuidado e desenvolvido. Isso precisa ser feito aqui na Serra da Barriga também”, avalia. Os museus da herança africana devem ser inaugurados já nos próximos anos. “Cultura é economia, é desenvolvimento. Cultura e economia criativa são fundamentais e a base da igualdade e da liberdade. Não há liberdade e igualdade se a cultura não estiver fortalecida em todos os níveis de governo. Estamos há 11 meses dialogando com os governos estaduais e municipais. O projeto de museus precisa ser retomado com o IBRAM – Instituto Brasileiro de Museus – com o (presidente) Fernando Santana, para tirarmos os museus da herança africana do papel. Eles serão digitais e conectados com museus nos Estados Unidos, na África, no Caribe e na Europa. Vem muita coisa por aí, isso é só o começo”, finaliza. Quando perguntado se uma das metas da Fundação Palmares para os próximos dois anos seria tornar o Quilombo Zumbi dos Palmares patrimônio imaterial da Unesco, João Jorge disse que sim e que vai trabalhar em eixos como educação e desenvolvimento das comunidades quilombolas para transformar esse sonho em realidade.

Um dos grandes momentos do evento foi a entrega dos certificados de regularização de sete fazendas do Estado de Alagoas pelo governador Paulo Dantas, que já eram ocupadas há muitos anos pelos movimentos sociais e pelos negros. “Das sete, três pertenciam ao Estado, as outras foram pagas pelo governo para dar essa titularidade a quem está no campo, ao agricultor familiar, ao negro, para quem quer produzir. Nosso governo é pautado na inclusão, na diversidade, em defender o negro, o mais pobre, as mulheres, a comunidade LGBTQIA+, os religiosos e todo o povo para que tenham a condição de serem felizes”, afirma um emocionado Paulo Dantas, governador de Alagoas.

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