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19 de abril de 2024 11:28

Exclusivo: Investimentos na recuperação de áreas degradadas no semiárido e o combate à desertificação

Exclusivo: Investimentos na recuperação de áreas degradadas no semiárido e o combate à desertificação

Mudanças climáticas aceleram expansão de região árida e governo prepara medidas. Oportunidades de investimento para enfrentar a seca no Nordeste surgem
A mudança climática global favorece a aridização acelerada | Foto: Divulgação

Mudanças climáticas globais estão transformando o cenário do semiárido brasileiro, indicando um aumento significativo nas áreas de clima mais seco. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e o Centro de Monitoramento de Desastres Naturais (Cemaden) alertam para a expansão do clima desértico no Nordeste, com previsão de triplicar de tamanho na próxima década.

Em um estudo abrangente, os pesquisadores analisaram dados de seis décadas para revelar um cenário preocupante: a expansão da região semiárida brasileira. Entre 1960 e 2020, uma área equivalente a 226 mil km² – maior que o estado de Roraima – passou a fazer parte da região semiárida.

O mais impactante é que, pela primeira vez, foi identificado o surgimento de uma região árida, em que as condições de clima são equivalentes as de um deserto. A área abrange cinco municípios da Bahia e um pedaço do município de Petrolina, em Pernambuco.

“A mudança climática global, com o aumento da temperatura, impacta diretamente na demanda atmosférica, refletindo no índice de aridez da região”, explica Javier Tomasella, pesquisador do Inpe responsável pelo estudo, em entrevista exclusiva ao Investindo por Aí.

Atualização do Programa de Combate à Desertificação

De acordo com o pesquisador, o estudo é uma provocação do Ministério do Meio Ambiente (MMA), que buscava atualizar o Programa de Ação Nacional de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca, existente desde 2004, oferecendo uma visão mais abrangente das áreas degradadas e destacando a necessidade de estratégias adaptativas em face das mudanças climáticas.

Ao enfatizar não apenas aspectos climáticos, mas também implicações socioeconômicas, Tomasella reforça a importância do uso sustentável dos recursos naturais. “A pesquisa lança luz à interconexão entre desenvolvimento econômico, recuperação regional e a dependência das comunidades locais, para a promoção da vida sustentável em cenários desafiadores”, afirma.

A região afetada abrange setores produtivos, especialmente a agricultura, impactando a população vulnerável. A preocupação com os impactos econômicos e sociais levou o Ministério do Meio Ambiente a anunciar um plano de combate à desertificação.

Medidas do Governo Federal diante da estiagem no Nordeste

Em meio à seca persistente, o Governo Federal prepara medidas para enfrentar a estiagem no Nordeste. Após um déficit de chuvas em 2023, órgãos ambientais prevêem uma extensão da estiagem no primeiro trimestre de 2024.

As ações propostas incluem prorrogação de contratos de empréstimo, ajuda humanitária, mobilização de programas sociais como o Bolsa Família e investimentos em infraestrutura hídrica. O plano busca integrar setor público e iniciativa privada, com participação de ministérios e órgãos como o Banco do Nordeste e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

Por meio do programa Sertão Vivo, lançado em outubro de 2023, o Estado ainda busca garantir acesso à água e segurança alimentar em comunidades rurais do semiárido nordestino. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva destinou R$1,75 bilhão para financiar projetos nesta região.

Soluções sustentáveis de produtores locais

Enquanto o Poder Executivo se mobiliza, produtores no Ceará apresentam soluções sustentáveis para a recuperação de áreas degradadas. Práticas como adubação orgânica resultam em incrementos significativos na produção de milho e feijão em municípios como Ibaretama e Sobral. Os resultados encorajam a busca por sistemas de produção sustentáveis para enfrentar os desafios da desertificação.

“Recuperar áreas degradadas exige investimento e tempo. Não há solução rápida, mas sim um comprometimento contínuo com práticas sustentáveis,” afirma Henrique Antunes, pesquisador da Embrapa Meio-Norte. “Os Sistemas Agroflorestais (SAFs) buscam recuperar o ambiente e garantir sustentabilidade econômica ao produtor, elevando a produtividade. A escolha estratégica de espécies e de recursos acessíveis, como os adubos orgânicos promovem resultados econômicos satisfatórios. Integrando práticas como cultivo de espécies comerciais e pecuária-floresta, criamos modelos de negócio sustentáveis que beneficiam o ambiente e o produtor”, complementa.

Adaptação para os impactos socioeconômicos

Com a previsão de uma seca acentuada no início de 2024, autoridades locais alertam para os impactos sociais, econômicos e políticos, especialmente diante das eleições municipais. Governadores do Consórcio Nordeste também se mobilizam, criando uma Câmara Técnica de Segurança Hídrica e discutindo medidas como a criação de um “fundo da Caatinga”.

A falta de chuvas persiste na área do semiárido desde o segundo semestre de 2023. Previsões de órgãos ambientais indicam que a situação tende a piorar nos primeiros três meses deste ano. As autoridades locais estão alertando para os impactos sociais, econômicos e políticos da seca, especialmente devido à proximidade das eleições municipais.

A crescente seca gera preocupações econômicas. Dados do Cemaden indicam que 562 municípios do Nordeste tiveram mais de 40% de suas áreas agroprodutivas afetadas pela estiagem em outubro de 2023. O aumento da seca no primeiro trimestre de 2024 ameaça culturas temporárias, como milho, arroz e feijão, componentes essenciais da cesta básica.

O Nordeste enfrenta desafios ambientais, evidenciados pelo aumento de focos de calor na Caatinga e a redução drástica da capacidade dos reservatórios, como o caso de Jucazinho, em Pernambuco. Municípios decretam estado de emergência devido à falta de chuva, enquanto a região observa a primeira identificação de clima árido no Brasil, associado à mudança climática.

“Diante das transformações nos biomas e da necessidade de lidar com novas realidades, o uso sustentável dos recursos naturais requer estratégias de adaptação, promovendo um manejo racional e eficiente. No cenário semiárido, a limitação do recurso hídrico exige tecnologias de exploração e recuperação, capacitando agricultores para garantir uma produção controlada e sustentável, evidenciando a importância de ações que promovam a vida sustentável diante dos desafios climáticos globais”, destaca Javier Tomasella.

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