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21 de julho de 2024 09:59

EXCLUSIVO: Movimentos “bean-to-bar” e “tree-to-bar” impulsionam mercado de cacau na Bahia

EXCLUSIVO: Movimentos “bean-to-bar” e “tree-to-bar” impulsionam mercado de cacau na Bahia

Produção ambientalmente sustentável e rastreável favorece reconhecimento internacional para chocolate da região
Foto: Fazenda Riachuelo em Ilhéus/ divulgação Mendoá

Por Luiza Müller

Exclusivo para o Investindo Por Aí

Segunda maior produtora de cacau do Brasil, atrás somente do Pará, a Bahia vê crescer o movimento “tree-to-bar” e “bean-to-bar”, ou seja, “árvore-à-barra” e “grão-à-barra”. Enquanto o primeiro prevê o controle de todas as etapas do processo produtivo, desde o cacaueiro à embalagem dos chocolates, o segundo se detém ao manejo das amêndoas de cacau ao produto final. 

Proveniente da Mata Atlântica do sul do estado, o cacau é majoritariamente cultivado com o sistema de cabruca, por produtores que visam aliar a qualidade das amêndoas à proteção do bioma. Nessa modalidade de cultivo, os cacaueiros crescem sob a sombra de árvores nativas. 

Fundador-sócio da Mendoá Chocolates, exemplo de tree-to-bar, Raimundo Mororó tem orgulho do trabalho empenhado na criação da marca, que nasceu em 2013, na Fazenda Riachuelo, em Ilhéus. Com aproximadamente 2 mil hectares de cacau plantado por meio do sistema cabruca, a Mendoá se propõe a transformar a amêndoa do fruto em chocolate de alta qualidade, controlando integralmente a linha de produção. 

Os preços oscilantes e a instabilidade do mercado do fruto em sua forma a granel instigou Mororó a buscar formas de garantir maior segurança ao negócio. “A melhor maneira de agregar valor à atividade agrícola do cacau foi criar a fábrica de chocolates. Em 2007, iniciamos o estudo do fruto por meio do Centro de Pesquisa do Cacau (em Ilhéus), onde desenvolvemos a formulação. A partir do projeto, decidimos transformar a unidade piloto de pesquisa em instalação fabril”, afirma o fundador acerca da gênese da Mendoá.

Foto: amêndoas de cacau/ divulgação Mendoá

Hoje, já presente em aproximadamente 500 municípios, espalhados por 15 estados, a Mendoá se apresenta como um exemplo de sucesso proveniente da região cacaueira do sul da Bahia. Localizada entre Ilhéus e Itabuna, essa região é responsável por 42% da produção nacional de cacau. De acordo com um levantamento realizado pelo Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste (ETENE), publicado em 2021, a Bahia representa 69,7% da área total de plantio do fruto no Brasil, com aproximadamente 403 mil hectares. 

Vassoura-de-bruxa

Apesar da prosperidade no plantio, a produção do fruto sofreu uma forte queda na década de 1990, quando o fungo conhecido como vassoura-de-bruxa se alastrou pelos cacaueiros da região. Proveniente da Amazônia, o fungo, que afeta os ramos jovens, flores e frutos da árvore, encontrou na chuvosa Bahia uma região perfeita para sua proliferação. 

Idealizada em 1957, a Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (CEPLAC), órgão ligado ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, auxiliou os produtores rurais, que sofreram com a diminuição brusca de produtividade durante o fim do século. Hoje, amparada pela amplificação da tecnologia agrícola, a CEPLAC ocupa posição estratégica em prol do fortalecimento do ramo do cacau no Brasil. De acordo com Waldeck Araújo Junior, presidente da Comissão, “por meio da pesquisa, além de buscar o desenvolvimento de novos materiais resistentes à praga, como clones de cacaueiro, a CEPLAC também auxilia os produtores por meio da assistência técnica”. 

Até hoje, no entanto, a Bahia ainda luta para recuperar a integridade do rendimento médio de seu plantio, uma vez que, apesar de ter a maior área plantada de cacau, produz menos frutos por hectare do que a região Norte. De acordo com o levantamento agrícola do IBGE, realizado em 2021, a Bahia produziu 1,4 milhão de toneladas de cacau no ano, com rendimento médio de 281 quilos por hectare, enquanto o Pará se estabeleceu em 1,7 milhão de toneladas, com rendimento médio de 968 quilos por hectare. 

Para Raimundo Mororó, é necessário aprender a conviver com o fungo, uma vez que seu extermínio implicaria no empenho de um alto volume de recursos financeiros. “Há modos de combater a vassoura-de-bruxa com produtos químicos e ações físicas, mas os processos se tornam inviáveis. Assim, podemos perder parte de nossa produção para o fungo, mas ainda é melhor do que tentar exterminá-lo completamente”. 

Cacau de excelência

Além da Mendoá Chocolates, o cacau baiano atrai diversas marcas de prestígio, tal como a Dengo, que, antes de se descrever como chocolateria, se autodefine como “um projeto de impacto social”. Com a proposta de dobrar a renda de mais de 3 mil produtores de cacau no Brasil até 2030, a marca de chocolates produz seus doces com amêndoas de cacau do sul do estado, também cultivadas com sistema de cabruca por pequenos produtores. 

De acordo com Luciana Lobo, chocolatier da Dengo, a preferência regional se deu por conta da afinidade dos fundadores da marca com a Bahia, uma vez que “eles conheciam as dificuldades que os produtores da cadeia do cacau, especialmente os pequenos, enfrentavam desde a crise da vassoura-de-bruxa, da década de 1990 até hoje”. 

Por conta de características específicas do cultivo de cacau nos biomas da Mata Atlântica e Amazônica, o chocolate brasileiro também ganhou notoriedade ao redor do mundo, ganhando prêmios internacionalmente. De acordo com comunicado enviado especialmente ao Investindo Por Aí pela Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Amendoim e Balas (ABICAB), isso se dá pela existência de “um terroir diferenciado, isto é, um terroir que só existe no Brasil. Toda essa qualidade do cacau se reflete também na produção dos chocolates, seja de forma industrial ou artesanal, conferindo-lhes sabor, qualidade”. 

Este fenômeno pode ser observado também pela expansão na produção nacional de chocolates, que atingiu o patamar de 693 mil toneladas em 2021, crescimento de 35,9% em relação ao ano anterior. 

Diante deste cenário, Waldeck Araújo Junior, da CEPLAC, ressalta a importância do movimento “bean-to-bar” e “tree-to-bar” para a consagração do chocolate brasileiro nacional e internacionalmente. “Hoje em dia, há demanda por chocolate que seja produzido diante de condições de trabalho decentes e ambientalmente correto, desse modo, o bean e tree-to-bar permitem a rastreabilidade da produção, o que é cada vez mais solicitado mundialmente”. 

Oportunidade e exportação

Sétimo maior importador de cacau do mundo e sexto maior produtor, o Brasil ainda não consegue suprir a demanda interna pelo fruto, embora tenha capacidade de processamento superior ao que é efetivamente produzido em território nacional. Em 2020, foram importadas 86.922 toneladas de cacau, das quais 54.793 toneladas foram destinadas ao Nordeste. De acordo com o diretor da CEPLAC, a facilidade de escoamento da produção do fruto se apresenta como uma oportunidade ao produtor, que não encontra resistência atual para a venda no mercado interno. 

Waldeck Araújo Junior afirma que a expectativa é que o Brasil atinja a autossuficiência da produção de cacau até 2026, o que é considerada uma meta ambiciosa. “Queremos deixar de importar cacau e, em 2030, dobrar a produção atual. É possível que, até lá, estejamos disputando lugar entre os três maiores produtores do fruto do mundo. No mais, somos o quinto maior consumidor de chocolates e achocolatados mundialmente. Assim, nos destacamos em todos os processos da cadeia, desde a produção do cacau até seu consumo em forma de chocolate”.

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