Jornalismo econômico para a inovação no Nordeste -
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15 de junho de 2024 14:33

EXCLUSIVO: Unicórnios nordestinos

EXCLUSIVO: Unicórnios nordestinos

Região já conta com um número relevante de startups, mas será que algumas já têm potencial para ultrapassar o valor de mercado de US$ 1 bilhão

Por Kristhian Kaminski
Especial para o Investindo por Aí

O termo unicórnio foi criado em 2013, pela investidora norte-americana Aileen Lee, para designar startups avaliadas em pelo menos 1 bilhão de dólares. Mas, para essas empresas chegarem a tal condição são necessários três requisitos indispensáveis: tecnologia, escalabilidade e crescimento acelerado. O Nordeste conta hoje com um número significativo de startups e polos de desenvolvimento, mas será que é possível apostar que o próximo unicórnio brasileiro venha da região Nordeste? Muito provavelmente não, uma vez que startups do Sudeste ainda dominam o acesso à capital e à região, portanto, tem mais candidatos ao título na fila do que qualquer outra.

Mas isso não significa que no médio prazo essa expectativa não possa se inverter. Paulo Tenório, fundado e CEO da startup Trakto, especializada na criação de conteúdos gráficos tanto para pessoas físicas como para empresas, diz ser essa sua ambição. “Estamos trabalhando para que a Trakto vire sim um unicórnio. Não importa se seremos o primeiro do Nordeste ou não. Se outra startup se tornar antes de nós isso será muito positivo para a região de qualquer modo”, afirma.

Com sede em Maceió (AL), a Trakto é uma das startups nordestinas que conseguiu furar a bolha de captação de investimentos ainda muito concentrada na região Sudeste, e em menor medida, no Sul. Em 2015, a empresa realizou uma primeira rodada de captação, na qual arrecadou R$ 300 mil, “o suficiente para tirar o projeto do papel”, segundo Tenório. Desde então, a Trakto já levantou mais de R$ 10 milhões em recursos e se prepara, agora, para realizar uma rodada de captação Série A. O CEO da empresa prefere não revelar quanto estima arrecadar nessa etapa mas, com os recursos, a empresa já tem condições de entrar numa fase importante para as startups: aceleração do crescimento. Na região Sudeste, como já mencionado, diversas empresas já fizeram duas ou mais captações (Séries B e C, no jargão do mercado) e, com isso, conseguiram atingir o status de unicórnios.

O Brasil começou a ganhar seus primeiros unicórnios em 2017. O aplicativo de transportes 99 foi o primeiro a atingir essa condição. Desde então, o país se classifica entre os 10 com o maior número de startups avaliadas acima de US$1 bi, com uma relação total de 23 unicórnios em meio a um registro de 13.465 startups em todo o país. Segundo um levantamento da StartupBase (base de dados da Associação Brasileira de Startups – Abstartups), até novembro do ano passado, as startups brasileiras arrecadaram um total de US$ 9,7 bilhões. Esse fenômeno levou o Brasil a atualizar sua lista de unicórnios com 10 novas startups somente em 2021. E outras 22 empresas, todas fora da região Nordeste, são apontadas como potenciais candidatas a se tornarem unicórnios em 2022. Entre elas estão fintechs (empresas financeiras), healthtechs (empresas com foco em saúde) e edtechs (empresas com foco em educação).

Polos regionais

Todo mundo já ouviu falar do Silicon Valley, ou Vale do Silício, apelido dado a uma região na baía de São Francisco, nos Estados Unidos, que se tornou berço de empresas de alta tecnologia e de startups de sucesso. O que nem todos no Brasil sabem é que diversas capitais do Nordeste já contam hoje com importantes polos de desenvolvimento, com cases de sucesso relevantes, capazes de atrair investimentos, gerar oportunidades e reter os talentos locais, gerando emprego e renda para a região. Hubs como o Manguezal, em Recife; Rapadura Valley, em Fortaleza; e Jerimum Valley, em Natal, são alguns exemplos. Igualmente relevantes, o Caju Valley, em Aracaju, e o Sururu Valley, em Maceió, também movimentam os mercados regionais do Nordeste, que estão consumindo cada vez mais soluções digitais.

Segundo a Abstartups, o papel dos hubs é unir a maior quantidade possível de startups e entidades relacionadas (como investidores, aceleradoras e especialistas). Dessa forma, os hubs criam densidade para os negócios, um dos pilares essenciais para um ecossistema corporativo saudável. “Reter negócios é, talvez, o grande fator de sucesso das nossas comunidades. Ver a evolução de um bom volume de empresas que criam oportunidades para que os talentos permaneçam é reflexo de como a região se tornou uma das mais interessantes para negócios digitais, inclusive para as que operam em outras regiões”, afirma Luiz Gomes, head de estratégias da aceleradora Overdrives, no relatório Mapeamento de Comunidades – Nordeste, realizado pela Abstartups em 2021.

Segundo estudo da Associação, as startups de educação (edtechs) e de saúde (healthtechs) lideram o número de empresas no Nordeste com, respectivamente, 13,8% e 10,5% do total da região. Em terceiro, aparecem as startups do setor financeiro, com 8,1%. Em relação à fase de maturidade dessas empresas, 4,8% ainda estão no estágio inicial, chamado de “ideação”. Na etapa seguinte, chamada de validação, está a maioria (40,7%). Em fase de operação estão 29,6%, além de 19,8% classificadas numa fase posterior, de tração, e 5,1% na etapa final, que é a de ganho de escala. No entanto, apenas 3,2% do total de startups nordestinas tem hoje faturamento anual acima de R$ 5 milhões.

Potencial x barreiras

Ex-ministro do Turismo no governo de Dilma Rousseff e atual Diretor Técnico do Sebrae em Alagoas, Vinícius Lages enxerga potencial para que surjam unicórnios no Nordeste. Mas, também, ainda vê muitos gargalos para que isso de fato ocorra. Ele cita os hubs de desenvolvimento já existentes na região como um fator favorável, entre eles o Porto Digital, em Recife (PE), um dos mais famosos e robustos polos de desenvolvimento regionais. “Unicórnios podem surgir de qualquer lugar, mas é preciso uma combinação favorável de fatores, desde condições ambientais a políticas públicas. O Nordeste tem um atraso histórico em relação a outras regiões, em termos de escolaridade, infraestrutura e conectividade, o que é um fator limitante”, afirma.

O Sebrae é outra instituição que tem fomentado o crescimento das startups, por meio de iniciativas como o StartupLab. Lages afirma que existem iniciativas isoladas e muitas incubadoras e startups regionais não têm ainda musculatura suficiente para dar o salto seguinte. A boa notícia é que o terreno tem ficado mais nivelado, na opinião dele. Hoje, empresas da região podem captar profissionais de desenvolvimento e de inteligência artificial, por exemplo, em qualquer região do mundo. E vice-versa. Tenório, da Trakto, concorda. Segundo ele, não há como dizer que a pandemia da COVID-19 teve algo de positivo, mas ela intensificou a virtualização das relações. “Algumas captações que fizemos ocorreram de forma totalmente virtual, sem nenhuma reunião presencial”, diz.

Crescimento

Na opinião de Lages, um dilema das startups é saber quando crescer com recursos próprios e quando partir para a captação de investimentos. “Algumas empresas optam por captações precoces e acabam sendo diluídas. Acho que o fundamental é, em primeiro lugar, captar clientes com custo decrescente e optar por um processo de captação na fase já final de maturidade do negócio, de aceleração do crescimento”, afirma.

Foi essa a opção da Epione, healthtech de Recife, com foco em sistemas de gestão para hospitais e laboratórios. A empresa é uma das que participou do programa de aceleração desenvolvido pelo Sebrae. O médico anestesiologista Carlos Borba abandonou seus empregos como professor universitário e profissional de saúde para fundar a statup. “Atuamos num setor onde ainda não houve um boom de tecnologia, que é organizar o back office de hospitais e laboratórios, como o controle do tráfego interno de pacientes”, conta. Com recursos dos próprios sócios, a empresa tem conseguido ganhar escala e para 2022 já planeja triplicar ou quadruplicar o número de funcionários. “Recife é um mercado muito promissor para healthtechs. A saúde está em primeiro lugar no setor de serviços na cidade. Somos a segunda cidade do Brasil que mais arrecada ICMS para saúde, perdendo apenas para São Paulo”, comenta.

“Pensamos em fazer captações, sim. Mas no estágio inicial do negócio entendemos que não precisaríamos ainda de investimentos externos”, afirma Thiago Lins, co-fundador da Robox, startup com sede em Natal (RN), que opera uma plataforma de e-commerce focada em negócios por assinatura. Com pouco mais de um ano de operação, a Robox atende clientes como Carta Capital, Revista Elle, Portal Administradores, Revista Exame, dentre outros. “Os investidores costumam ficar com um equity muito grande da empresa quando a captação é feita nos estágios iniciais. Decidimos focar no crescimento por meio da conquista de clientes, o que conseguimos com sucesso, e pretendemos usar verba de investidores externos para escalar o negócio, o que estamos em vias de fazer”, afirma.

Lins é outro que afirma que a pandemia trouxe grandes prejuízos para a sociedade como um todo. Mas, uma consequência benéfica, que empoderou startups fora do eixo Sul-Sudeste, foi a antecipação e aceleração dos relacionamentos virtuais. “Antes da Robox, nós já atuávamos num modelo onde nossa base operacional estava em Natal e nosso polo comercial em São Paulo. Com a experiência do trabalho remoto por grande parte do mercado, tudo ficou mais fluido. Tanto na contratação de mão de obra – já temos profissionais espalhados por seis estados brasileiros, entre capitais e cidades do interior – quanto na prospecção de novos clientes”, explica. A startup passou em 2021 por um processo de aceleração promovido pelo InovAtiva Brasil, o maior programa de aceleração da América Latina, com mais de 1.100 startups brasileiras com o apoio de entidades como o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e o Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES).

“Existem startups incríveis no Nordeste, num ambiente de culturas empreendedoras muito diferentes, como em Recife, Natal e João Pessoa, além do estado do Piauí, que tem um núcleo de inovação muito forte”, avalia Paulo Tenório, da Trakto. “O que faz um unicórnio é o acesso a capital e quanto mais investimentos fluírem para o Nordeste, maiores as chances de isso acontecer. Mas precisamos entender que ser do Nordeste nos impõe uma jornada diferente, carregada de estereótipos. Por isso, precisamos aproveitar nossas melhores características, que são a criatividade e a resiliência, para enfrentar as dificuldades. Além disso, não é porque estamos na região Nordeste que não precisamos nos conectar com o resto do mundo, mas sempre mantendo nossas raízes”, testemunha Tenório.

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