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23 de fevereiro de 2024 10:38

Maior inflação em 27 anos breca ritmo de recuperação do Ibovespa

Maior inflação em 27 anos breca ritmo de recuperação do Ibovespa

Alívio com Selic subindo de 1 em 1 ponto, e não mais do que isso, deu lugar à tensão com custo de vida mais alto desde o plano Real. No flanco externo, o risco de falência da chinesa Evergrande retomou força nos radares. Ainda assim, com saldo positivo no acumulado de cinco pregões, parte das perdas de setembro foram revertidas

Por Gustavo Ferreira
Para Valor Investe

O mercado nacional teve um encontro com a realidade nesta sexta-feira (24).

Depois de passar três dias apagando parte das perdas conquistadas em novembro, investidores tornaram a ver sua carteira de ações sofrer avarias. Seja por força do problema mais recente a lidar na cena internacional, a quebra iminente da chinesa Evergrande, seja por causa do maior problema nacional do momento, ao menos na seara econômica, a inflação, insistentemente, superando as expectativas mais pessimistas a cada divulgação.

Com a queda de 0,69% desta sexta, o Ibovespa acumulou na semana ganhos de 1,65%. Com o índice os 113.283 pontos, perdas de setembro foram reduzidas a 4,63%. Em dólares, são de 7,73%. Desempenho aquém da média dos emergentes representada pelo índice MSCI Emerging Markets. No mês, seu ETF negociado em Nova York acumula queda de 3,11%.

⎮Sobre o primeiro ponto, resumindo bem, a segunda maior empresa imobiliária da segunda maior economia do mundo ameaça dar um calote de US$ 350 bilhões na praça

Na segunda-feira (20), o mercado acionário desabou com um barulho desses. Mas, entre terça (21) e quinta (23), reagia com tudo ao afastar o risco de colapso do sistema financeiro na proporção da crise global de 2008. Ainda que o governo de Pequim se negue a socorrer a companhia, deve dar suporte a quem ficar com o pincel na mão. Estancaria, assim, riscos de quebradeira generalizada.

Mas as incertezas seguem. A Evergrande acaba de deixar passar o prazo de um de seus compromissos. Além do mais, um dos principais motores de crescimento da China – e do mundo a reboque – é o setor imobiliário, que tende a derrapar como um todo. Ainda é cedo para estimar qual será o tamanho do pisão a mais no freio num atividade local já em desaceleração. Mas parece inevitável.

O principal termômetro dessa crise é o preço do minério de ferro, que acentuou o derretimento na segunda com queda de 9%. Mas reagiu com uma disparada de 17% logo na sequência. Esse reação colossal, no entanto, não tirou preços das proximidades dos níveis mais baixos em 15 meses. O que ajuda a quantificar um derretimento de meias de 50% em apenas quatro meses, de US$ 237 a US$ 111 por tonelada. Na semana, preços subiram no acumulado 9%.

  • Em meio à essa alta volatilidade, as ações da Vale acompanharam a queda de segunda-feira em maior sintonia que as altas mais forte e persistentes da semana. No acumulado de cinco pregões, depois de caírem 1,55% nesta sexta, tiveram desvalorização de 0,45%. Já as ações da siderurgia não andaram todas juntas. O papel da Usiminas, por exemplo, entrou em disparada. Menos exposta às importações feitas pela China, e provendo muito mais aço ao mercado interno, foram usados por investidores para se defender. E acumularam ganhos de 17,03% na semana. Já as ações da CSN, no bloco do setor as com maiores fatias de receitas vindas da China, teve perdas de 2,58% no intervalo.

⎮Já na cena nacional, não chega mais a assustar quando a inflação surpreende. Mas preocupa. Mais uma vez, números vieram acima do topo das apostas mais pessimistas

Depois do IPCA de agosto, foi a vez do IPCA-15 de setembro, cuja fórmula é a mesma, mas mede a alta do custo de vida entre dias 15, e não meses do começo ao fim. A alta de 1,14% é a maior para o mês desde o Plano Real, ou seja, em nada menos que 27 anos. Veio acima dos 1,13%, aposta mais alta entre as apuradas pelo Valor. E ainda mais da mediana das estimativas, de 1% cravados.

Em 12 meses, a inflação está acumulada em 10,05%. O Banco Central (BC) tem a responsabilidade de entregar em 2021 uma alta do custo de vida de 3,75%, com tolerância para cima até 5,25%. Ou seja, o resultado está agora em quase o dobro do teto da meta. O que torna o comprometimento ferrenho da autoridade monetária em subir juros de 1 em 1 ponto, e não mais que isso, temeroso para a economista-chefe da Armor Capital, Andrea Damico.

“A gente segue vendo uma piora na dinâmica da inflação, mês a mês, concentrada na alta de preços nos setores de bens e serviços”, diz. “E são justamente canais que exercem pressão inercial na inflação, ou seja, com capacidade de alimentar a alta de preços nos meses seguintes.

A piora constante de cenário entre as duas últimas decisões de juros no BC não trouxe a aceleração de passo na alta de juros que vinha sendo apostada como necessária por quase unanimidade pelo mercado. O que teria respaldo no comunicado anterior do BC, quando era dado destaque ao risco inercial da inflação. Que não desapareceu, ao contrário, se agravou. Já o parágrafo que indicava essa preocupação redobrada, curiosamente, foi simplesmente apagado no novo comunicado.

⎮Ou seja, oficialmente, o BC sinaliza que não se preocupa mais com antes. Ainda, também oficialmente, o problema só tenha feito piorar.

Agindo assim, o BC parece ter menos fé nos dados e mais numa temporariedade da inflação que, faz mais de um ano, se prova inexistente. Nega-se a aumentar os esforços que têm sido vãos e aposta fichas no acaso. Diante dessa apatia, já são nove semanas em que o mercado puxa sistematicamente para cima as projeções de inflação para 2022. A décima vez consecutiva deve vir na pesquisa Focus de segunda-feira (27).

“O comunicado anterior do BC parecia correto, assertivo. Demonstrava maior atenção com a inflação, não mais lida como temporária. Já neste último, apesar de tudo ter piorado nas semanas anteriores, o BC insiste em cravar que o ritmo de alta de juros é mesmo de 1 ponto a cada reunião, não importando o que aconteça no meio do caminho. Isso é muito complicado”, diz Damico.

Das 91 ações do Ibovespa, só 243 apontam para cima nesta sexta. Ao todo, tiveram giro de R$ 20 bilhões. Foi um tanto aquém dos dias anteriores da semana, reduzindo a média diária a R$ 24 bilhões. Em cinco sessões, 58 papéis da carteira teórica acumularam ganhos.

“Causa estranheza o BC cravar que a inflação no final do ano que vem será de 3,70% em 12 meses, quando a mediana do mercado está apontando para 4,10%. Ele está certo, mais de cem analistas de todo o Brasil estão errados? E esse número da pesquisa Focus, no meu entender, é até otimista. Eu projetava 4,70% de IPCA em 2022 até a semana passada, mas devo subir já para 4,80% e com viés de alta”, diz Damico.

Para a economista, soa pouco crível o dólar projetado pelo BC em R$ 5,25 ao final de 2022. O que permitiria, defendeu o BC no comunicado emitido na semana, não só sua estimativa de inflação de 3,7% se concretizar, mas a Selic até o fim do ano que vem estar apenas em 8,50%.

Contra esse câmbio desenhado pelo BC para 2022, há o risco fiscal. Que, ao contrário da discurso repentinamente mais brando do presidente Roberto Campos Neto nas últimas semanas, está em franca piora. Sem falar da insegurança que pode ser realimentada a qualquer momento pelo presidente Jair Bolsonaro, que não permite a ninguém colocar a mão no fogo. E cujo principal desafiante das próximas eleições, o ex-presidente Lula, não reza fiscalista consensual do mercado.

⎮O céu de brigadeiro pintado pelo BC tem grandes chances de nublar, diz Damico, também por força do crescimento cadente da economia.

A falta de crescimento, no meu entender, é um motor ainda mais poderoso do que os juros para determinar o câmbio. A Selic pode até subir, aumentando o diferencial de retorno oferecido pelo Brasil em relação aos outros países. Mas sem crescimento, não haverá porque a atração de dólares aumentar, ao contrário.”

Investidores parecem, em sua maioria, alinhados ao quadro pintado pela economista. E ponderando também a possível alta de juros nos Estados Unidos já no meio do ano que vem, puxaram o preço do dólar nesta sexta em 0,65%, aos R$ 5,3433. Na semana, ficou 1,07% mais cara no Brasil a moeda americana. A despeito da Selic e do apetite por ações em alta.

  • Os pontos da curva de juros, apesar do ritmo de alta engatado desde a véspera, ficaram em patamares inferiores aos da semana passada. Tendo de subindo de um dia ao outro de 8,92% a 8,96%, taxas de contratos de Depósito Interfinanceiro (DI) ficaram inferiores aos 9,04% da última sexta-feira.
  • No longo prazo, onde mais vale o cheiro de calote na dívida federal, também tivemos dois dias de alta. Entre quinta e esta sessão derradeira, taxas DI para 2031 foram de 10,82% para 10,89%. Mas é menos que os 10,94% de uma semana atrás.

                       Fonte: B3 e Valor PRO. Elaboração: Valor Data

 

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