O setor sucroalcooleiro brasileiro é, sem dúvida, o que se apresenta com os insumos mais competitivos do mundo, seja pelo nível de produtividade, seja pelo rendimento industrial ou mesmo pelos custos de produção. O Brasil é o maior produtor e exportador mundial de açúcar, respondendo por mais de 15% da produção e 35% do comércio global do produto. Já no etanol, o Brasil é o segundo maior produtor, atrás apenas dos Estados Unidos, os quais, juntos, detêm quase 90% da produção.

No início de 2020, tivemos um incremento do processo de desvalorização do Real frente ao Dólar que, aliado à melhora da cotação do açúcar no mercado internacional em decorrência da menor oferta em países como Índia e Tailândia, favoreceu as exportações brasileiras. Entretanto, ao contrário do que se poderia imaginar, a pandemia do Covid-19 não afetou muito a demanda por açúcar no mundo sendo provável, segundo os principais analistas, que o mercado internacional do adoçante deve continuar favorável nos próximos anos, o que representa uma oportunidade para o Brasil, incluindo o Nordeste, de ampliar o volume de exportação. É importante destacar alguns fatores que fundamentam essa análise:

  1. A tendência de consumo mundial de açúcar é de pouco crescimento ou estagnação, porém, nos países africanos e asiáticos, ainda existe um grande potencial de crescimento do mercado e a China não renovou as medidas protecionistas que vinham sendo adotadas desde 2017;
  2. Os estoques mundiais de açúcar deverão continuar com tendência de queda, pois apesar da expectativa de maior produção na safra 2020/21, o consumo deverá atingir um novo recorde devido ao crescimento de mercados, a exemplo da Índia, sendo que este governo, até o momento, não anunciou subsídio para a exportação de açúcar para safra 2020/21;
  3. No Brasil, o açúcar deverá continuar mais remunerador comparado ao etanol. Espera-se crescimento da produção brasileira e nordestina de açúcar na safra 2020/21;
  4. A aceleração da cotação dos combustíveis fósseis a partir de maio de 2020 possibilitou a recuperação rápida do setor produtor de etanol, mesmo com o recrudescimento da Pandemia.

A agroindústria canavieira no Nordeste viveu um grande período de declínio desde a extinção do I.A.A. (Instituto do Açúcar e do Álcool) em 1990 pois, durante anos, foi sustentada por subsídios governamentais protecionistas criados no Estatuto da Lavoura Canavieira de 1941 e da lei 4870/65 que foi retificada em 2002 pela Lei 10.453, criando o Programa de Equalização de Custos Agrícolas da Cana-de-Açúcar no Nordeste, em que a diferença dos custos existentes entre essas duas regiões brasileiras seria compensada pelo Governo Federal. Porém, após a extinção do I.A.A. o programa não teve continuidade e, aliada a péssimas gestões acostumadas ao financiamento público seja federal, seja estadual, através dos bancos estaduais, levaram ao comprometimento da viabilidade econômica de grande número de empresas no Nordeste. A tempestade no setor ficou ainda pior com as secas ocorridas logo na sequência, como se fossem pragas para se curar as chagas de anos de financiamento estatal. As safras 93/94, 97/98 e 12/13 sofreram com as estiagens e a falta de investimentos em irrigação.

Após esse longo período, em que diversas usinas fecharam e propriedades trocaram a cultura da cana-de-açúcar para outras ou mesmo para o gado. De uma forma geral, a situação financeira das empresas do setor, no Nordeste, tem melhorado e o número de postos de trabalho em todo o setor tende a se expandir. A conjuntura favorável dos mercados mundial e brasileiro também beneficiou o setor sucroenergético nordestino, entretanto, persiste a necessidade de maiores investimentos em tecnologia agrícola para elevar sua competitividade.

As usinas nordestinas estão concentradas nos estados de Alagoas e Pernambuco que tendem a priorizar a produção de etanol, pois a nova política de preços adotada pela Petrobras desde 2018 aumentou bem mais o preço da gasolina no Brasil. Assim, as condições de mercado passaram a ser mais favoráveis para o biocombustível. Aliado a isso, ambos os estados implementaram políticas de incentivos fiscais para estimular a produtividade e a possiblidade de terem preços competitivos no mercado interno. Entretanto, em 2020, a situação do açúcar melhorou mais que a do etanol e passou a remunerar melhor os produtores.

O nordeste é a segunda região mais competitiva no mercado mundial de açúcar, só perdendo para o Centro Sul do País e mesmo assim, tem características logísticas mais favoráveis apesar de apresentar menos produtividade. Atualmente, existem no Nordeste cerca de 25.000 pequenos produtores de cana de-açúcar que são responsáveis por, pelo menos, 35% da matéria prima processada pelas usinas e mais de 60 unidades industriais com capacidade instalada. Estas plantas geram mais de 600.000 postos de trabalho diretos e indiretos. E ainda possuem como vantagem comparativa a localização das áreas produtivas de cana-de-açúcar e suas plantas industriais próximas dos grandes centros consumidores e dos terminais marítimos, com distância média de 100 km, contra 500 km das agroindústrias instaladas no Centro-Sul.

A Zona da Mata, abrangendo os estados do Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e parte do Recôncavo Baiano, comparativamente com as demais regiões do Nordeste, caracterizam-se por apresentarem melhores condições de clima (alta intensidade luminosa, elevada temperatura e precipitação pluviometria regular entre 1.800 a 2.000 mm por ano bem distribuída). Entretanto, as plantas industriais nordestinas carecem de modernização e alguns sofrem com a falta de recursos para sua adequada manutenção. Dessa forma, enfrenta uma perda na capacidade de sua produtividade nestas unidades industriais, o que contribui para o distanciamento em relação ao desempenho alcançado pela usina do Centro-Sul.

A superação da falta de investimentos dos últimos anos e a adoção de uma governança profissional nas empresas são condições fundamentais para o setor sucroenergético nordestino se tornar competitivo frente às demais regiões produtoras de açúcar e etanol do País. Mas, para isso é preciso que as famílias, que há gerações são donas destes empreendimentos, passem por um processo de implantação de governança corporativa para proporcionar mais eficiência e transparência na administração.

Essas boas práticas aumentarão a confiança das partes envolvidas no negócio, o que é imprescindível para uma boa sucessão do modelo familiar para a profissionalização do negócio. É necessário sair do histórico modelo em que o estado financiava as gestões perdulárias das usinas, o que não quer dizer que os governos federal e estadual não podem atuar, mas para isso é necessário uma transformação do setor.

Dessa forma, poderão se aproveitar do inquestionável valor do etanol produzido em terras brasileiras e nordestinas como parte de uma matriz energética verde mais adequada aos novos tempos de sustentabilidade e ao estabelecimento de um espaço legitimamente reservado aos biocombustíveis e à bioenergia no mundo que está sendo construído. Mas, para isso, serão necessários recursos que financiem pesquisas e o desenvolvimento tecnológico, seja para construir uma solução brasileira para os motores a combustão, seja para produzir energia. Assim, faz-se necessário que o setor aprofunde ainda mais seu processo de reformas com a atração de capitais que visem uma economia focada nos conceitos de Environmental, Social and Governance (ESG ou ASG), mas esses capitais exigem uma governança e transparência corporativa que ainda é preciso buscar no setor sucroenergético nordestino.

Estamos numa ótima janela de oportunidades, mas é necessária uma união de esforços para avançarmos rápido buscando um caminho para financiar a modernização do setor. Afinal, ele tem a capacidade de gerar uma excepcional quantidade de externalidades positivas na economia de forma circular, afetando positivamente o comércio, os serviços e a renda dos estados nordestinos.