
Mulheres agricultoras do semiárido paraibano têm assumido protagonismo no debate sobre os rumos da transição energética no Brasil. Em Borborema (PB), elas articulam mobilização social e projetos descentralizados como alternativa ao modelo dominante de geração de energia renovável no país.
Embora o Nordeste concentre cerca de 90% da potência eólica instalada no Brasil, comunidades localizadas em áreas de implantação desses empreendimentos nem sempre são diretamente beneficiadas. Em muitos casos, moradores relatam impactos ambientais, mudanças na dinâmica produtiva e pouca participação nos ganhos econômicos gerados.
O movimento ganhou força após a identificação, no território, de equipamentos utilizados por empresas para medir o potencial eólico da região, sinalizando a chegada de grandes empreendimentos e acelerando a mobilização das comunidades locais.
Esse cenário motivou, há cerca de oito anos, a organização de agricultoras familiares no interior da Paraíba, que passaram a questionar os impactos sociais e ambientais desses projetos e a propor caminhos próprios. Outro ponto levantado pelas comunidades é a contradição de territórios que produzem energia, mas cujos moradores muitas vezes não conseguem acessá-la ou arcar com seus custos.
Uma das principais iniciativas é o Programa Um Milhão de Tetos Solares (P1MTS), lançado em março de 2025 durante a Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia, em Borborema. Com investimento de R$ 8,9 milhões, o programa prevê a criação de escolas-fábrica para a produção de painéis fotovoltaicos e a formação de jovens eletricistas em diferentes estados do semiárido.
O projeto nasce dentro da atuação do Polo Sindical e das Organizações da Agricultura Familiar da Borborema, organização reconhecida pela defesa da agroecologia e da agricultura familiar. O grupo critica o modelo concentrado de geração de energia, apontando efeitos como desmatamento da Caatinga, contratos considerados desvantajosos e perda de autonomia dos agricultores.
Integrante da coordenação do Polo, Gisele Beserra, destaca que a mobilização das mulheres tem sido central nesse processo, tanto na resistência ao modelo tradicional quanto na construção de alternativas. Segundo ela, a agroecologia tem ampliado a participação feminina e fortalecido a organização comunitária nos territórios.

“Esse movimento tem permitido que as mulheres saiam do isolamento e ocupem espaços de decisão. A gente defende uma energia limpa que realmente fortaleça a vida no campo, sem violência contra as famílias, contra as mulheres e contra a natureza. Não somos contra a energia renovável, mas contra a forma como esses projetos chegam aos territórios, muitas vezes desconsiderando quem vive neles”, afirma.
A coordenadora ressalta ainda que os impactos desses empreendimentos atingem de forma mais intensa as mulheres, especialmente em contextos de deslocamento forçado ou perda de território. Ela aponta que a saída de famílias do campo compromete não apenas a produção agrícola, mas também vínculos sociais, autonomia econômica e até direitos previdenciários.
Apesar dos avanços na organização social, o movimento ainda enfrenta desafios estruturais, como a concentração fundiária, a dificuldade de acesso a políticas públicas e entraves regulatórios que dificultam a implementação de iniciativas comunitárias, ao mesmo tempo em que grandes projetos avançam com maior facilidade.
Nesse contexto, o Programa Um Milhão de Tetos Solares surge como uma proposta concreta de transição energética com base territorial. A iniciativa aposta na geração distribuída como forma de democratizar o acesso à energia e ampliar seus benefícios econômicos e sociais.
O coordenador do programa, Giovanne Xenofonte, explica que a proposta é levar energia solar a um milhão de famílias agricultoras do semiárido, integrando produção energética, segurança alimentar e geração de renda. O modelo inclui a instalação de sistemas nas próprias propriedades e a formação de jovens para atuar em toda a cadeia produtiva.

“O programa parte de uma lógica de abundância, que é o sol do semiárido. A ideia é que essas famílias produzam energia para consumo próprio, fortaleçam suas atividades produtivas e ainda possam comercializar o excedente. Ao mesmo tempo, o modelo descentralizado reduz impactos ambientais e gera oportunidades para a juventude local”, destaca.
Segundo ele, o projeto já está em fase piloto em estados como Piauí, Paraíba, Pernambuco e no norte de Minas Gerais. A expectativa é que essa etapa permita ajustes operacionais e contribua para a expansão da iniciativa, ampliando seu impacto econômico, social e ambiental na região.