Por muito tempo fora da rota prioritária de expansão das grandes redes de alimentação, o Maranhão começa a ganhar protagonismo no mapa do franchising nacional. A inauguração da primeira unidade do Divino Fogão em São Luís, em 2026, é um sinal claro dessa mudança de eixo. Com 246 pontos de venda espalhados pelo país, a rede especializada em culinária da fazenda escolheu o Shopping da Ilha como endereço de sua estreia (ou reestreia) no estado, um movimento que reflete uma aposta mais ampla no potencial de consumo local.
Embora a marca já tenha operado no Maranhão entre 2011 e 2020, a nova abertura carrega um simbolismo diferente. “Era um desejo da marca estar presente em uma das praças mais estratégicas no Nordeste. Em 2026, graças à parceria com um empresário local, conseguimos realizar este desejo, com a reabertura do Divino Fogão no Shopping da Ilha”, afirma Emiliano Silva, diretor de operações do Divino Fogão.
A capital maranhense, historicamente à margem das prioridades de expansão concentradas no Sudeste e em estados nordestinos como Bahia, Pernambuco e Ceará, passa agora a ser vista como porta de entrada para um mercado ainda pouco explorado. “A capital é sempre porta de entrada para os negócios, pois conta com diferentes shoppings que possuem o perfil de público do Divino Fogão. Acabamos de inaugurar a operação na cidade e já é um sucesso”, diz Silva. Segundo ele, cidades como Imperatriz, Timon e São José de Ribamar também estão no radar da empresa.
Crescimento econômico e apetite do consumo
Um dos fatores que sustentam essa nova onda de interesse é o desempenho econômico do estado. De acordo com dados oficiais, o Produto Interno Bruto (PIB) do Maranhão acumulou crescimento próximo de 15% nos últimos 15 anos, resultado impulsionado por setores como agronegócio, indústria de base e serviços. Para o franchising, essa evolução indica aumento gradual da renda e da formalização do consumo.

“Este movimento despertou a atenção do franchising como um todo e o Divino Fogão também enxergou a oportunidade de voltar para a cidade e ir além, apostando em uma expansão robusta para a capital e outros municípios maranhenses”, afirma o diretor.
O setor de alimentação fora do lar, que sofreu forte impacto durante a pandemia, vem se recuperando em ritmo consistente no Brasil. Dados da Associação Brasileira de Franchising (ABF) indicam que o segmento de alimentação segue entre os mais representativos do franchising nacional, tanto em número de operações quanto em faturamento. A interiorização das marcas, movimento de expansão para além dos grandes centros, tornou-se estratégia central das redes que buscam mercados menos saturados e com concorrência ainda em formação.
Um mercado “propício ao crescimento”
Para Gustavo Santos de Oliveira, franqueado responsável pela unidade do Divino Fogão em São Luís, a decisão de investir na marca foi baseada na percepção de um mercado em amadurecimento. “Acreditamos que o Shopping da Ilha precisava de um Divino Fogão, pela qualidade e pelas diversas opções em nosso cardápio, fazendo com que o público tivesse uma experiência diferenciada por meio do nosso tempero e do nosso atendimento”, afirma.
Ele avalia que o momento é favorável para quem aposta em diferenciação e preço competitivo. “Vejo um mercado propício ao crescimento, principalmente para quem deseja ofertar comida de qualidade e com preço justo”, diz.
A presença crescente de marcas nacionais nos shoppings da capital é outro indicativo dessa transformação. “O mercado e os shoppings têm recebido bastante as redes nacionais por conta da credibilidade da marca, e isso se torna uma responsabilidade para o franqueado em preservar e ampliar o nome da marca na região”, acrescenta Oliveira.
Desafios logísticos e adaptação local
Expandir para novas fronteiras, no entanto, não ocorre sem obstáculos. Em estados historicamente menos integrados às cadeias logísticas do Sudeste, redes nacionais enfrentam desafios relacionados a fornecedores e distribuição.
“No início, os principais desafios foram os fornecedores, porém já foram sanados”, relata o franqueado. Segundo ele, a construção de parcerias locais foi decisiva para estabilizar a operação. “A parceria com eles vem crescendo devido ao respeito aos prazos acordados de entrega dos produtos e pagamentos, um diferencial, acredito.”
A superação dessas barreiras indica um amadurecimento do ecossistema empresarial local. À medida que mais redes se instalam, cresce também a profissionalização de fornecedores e prestadores de serviço, criando um ciclo de retroalimentação positiva para o setor.
Para Oliveira, a capital já pode ser considerada um polo emergente de franquias. “Já é um polo. As franquias observaram que a capital do estado se desenvolveu bastante nos últimos anos, estruturalmente, permitindo assim que investissem em São Luís”, afirma.
A percepção dialoga com uma tendência nacional: redes buscam cidades com população acima de 500 mil habitantes, shoppings consolidados e indicadores econômicos em ascensão. São Luís, com mais de 1 milhão de habitantes na região metropolitana, reúne esses atributos e oferece espaço para crescimento, diferentemente de mercados saturados como São Paulo ou Rio de Janeiro.
Além disso, o avanço da digitalização, a consolidação de aplicativos de delivery e o fortalecimento do consumo em shopping centers ampliam o alcance das operações e reduzem riscos de entrada em novas praças.
A aposta no Maranhão também faz parte de um movimento mais amplo de expansão regional. “Estamos crescendo em todo o Brasil. Em 2025 abrimos 30 restaurantes e, para este ano, a previsão é de 40 novas operações. O Nordeste como um todo é uma região com muita oportunidade de crescimento”, afirma Emiliano Silva.
Segundo ele, estados como Maranhão e Piauí ainda são pouco explorados pelo franchising, o que representa um “desafio” a ser aproveitado, especialmente no food service. A estratégia combina a abertura em capitais com a prospecção em cidades médias, modelo que tem se mostrado eficaz para redes que buscam ganho de escala.
O que a chegada do Divino Fogão revela
A inauguração da unidade no Shopping da Ilha vai além da abertura de um restaurante: simboliza a consolidação de São Luís como mercado relevante no radar das grandes redes. O movimento revela um ambiente econômico mais estável, consumidores abertos a marcas nacionais e uma infraestrutura comercial capaz de sustentar operações padronizadas.
Se confirmada a expansão para outras cidades maranhenses, o estado poderá vivenciar um novo ciclo de desenvolvimento no setor de alimentação fora do lar, com geração de empregos, qualificação profissional e fortalecimento da cadeia de suprimentos. Em um cenário em que o franchising busca novas fronteiras de crescimento, o Maranhão deixa de ser periferia e passa a ocupar posição estratégica.