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19 de junho de 2024 21:13

Alta do cacau causa euforia em produtor, mas preocupa processadoras

Alta do cacau causa euforia em produtor, mas preocupa processadoras

Preço dobrou em áreas produtoras do Brasil, seguindo a valorização nas bolsas internacionais

Problemas climáticos e envelhecimento das lavouras na Costa do Marfim e Gana, os dois maiores produtores mundiais, levaram a commodity (contrato de março) ao recorde de US$ 6.884 por tonelada na bolsa de Nova York este ano. Só em fevereiro, houve alta de 28,12%, segundo o Valor Data. E no primeiro dia de março, o contrato para maio subiu 4%, para US$ 6.300 a tonelada.

“Finalmente, chegou a nossa vez, mas agora nos falta cacau. Esperamos que o preço não desça imediatamente. O que recebemos hoje pelo que conseguimos entregar é o mesmo do cacau fino há três anos”, afirma Carlos Tomich, produtor na região de Ilhéus (BA), que está recebendo R$ 450 de atravessadores pela arroba (15 quilos) — há um ano, recebia R$ 215,00.

Produção nordestina

O produtor, que colheu 1.350 arrobas no ano passado e espera atingir 2.000 arrobas neste ano, diz que outubro e novembro foram meses muito secos na Bahia, o que prejudicou a safra temporã. “Praticamente não tem cacau no pé neste mês. Eu deveria começar a colher em março, mas a florada mais forte ocorreu em fevereiro e só devo ter produção a partir de abril ou maio”, conta Tomich.

Carlos Tomich, produtor de cacau em Ilhéus (BA): "Chegou a nossa vez, mas agora nos falta cacau" — Foto: Arquivo Pessoal
Carlos Tomich, produtor de cacau em Ilhéus (BA): “Chegou a nossa vez, mas agora nos falta cacau” — Foto: Arquivo Pessoal

Raimundo Mororó, diretor da fábrica de chocolates da fazenda Riachuelo, uma das maiores lavouras de cacau de Ilhéus, diz que o preço é excepcional, mas falta cacau. “Em meus 50 anos trabalhando com cacau nunca vi um preço como esse, de R$ 500 por arroba, mas a quebra da safra no ano passado não deixa o produtor aproveitar muito ainda. Aqui na Riachuelo, a produção caiu uns 40%.”

Um dos maiores produtores de cacau de Linhares (ES), Emir Macedo Gomes Filho, diz que finalmente os lucros do cacau estão sendo divididos com o produtor. “Na nossa região, a saca de 60 quilos está entre R$ 1.850 e R$ 1.950, mas não vejo motivo para euforia e sim para alegria pois o produtor amargou muitos anos de preço baixo e não serão poucos meses de preço alto que vão resolver sua vida.”

Com 70 mil pés de cacau e viveiro de mudas, Gomes Filho lamenta que a safra temporã seja fraca devido ao excesso de chuva, que prejudicou a lavoura, e espera que os preços atuais permaneçam por mais tempo para que os produtores retomar os investimentos. Ele entrega 70% de sua produção à moageira Barry Callebaut, e o restante vai para cacau fino.

Outro que espera que os preços continuem em patamares mais altos é Robson Brogni, que cultiva 300 hectares de cacau em Medicilândia (PA). Ele começará a colher sua safra em maio. Medalha de prata em fevereiro no concurso Cacao of Excellence Awards, na Holanda, que escolhe as 50 melhores amêndoas do mundo, Brogni teme alta de custos na cadeia e queda na qualidade.

“Tem produtor que vai se acomodar com o preço bom e deixar a qualidade de lado, pois mesmo que ele tenha uma perda por excesso de ‘sujidade’ no lote para a indústria, por exemplo, não se importará tanto porque acha que o bom preço compensa”, avalia. Na região de Medicilândia, a arroba de cacau vale hoje R$ 450. Há um ano, estava em R$ 225.

Surpresa para produtores

Enquanto os cacauicultores comemoram, os produtores de chocolates especiais, chamados de “bean to bar” ou “tree to bar” estão apreensivos com a possibilidade de ficar sem a matéria-prima. Bruno Lasevicius, presidente da Associação Bean to Bar formada em 2018, diz que o preço atual corrige a injustiça histórica com o produtor, principalmente o pequeno, mas que a alta foi muito rápida e pegou de surpresa o setor.

“Como estamos na entressafra, ainda não dá para saber qual será o cenário, mas estamos bem apreensivos. O cacau bulk [commodity] dá muito menos trabalho, e o produtor recebe na hora. Há um risco de faltar cacau fino e desestimular esse mercado. Já tem muitas empresas do setor fazendo planejamento de demissões e de redução da operação”, afirma ele.

A associação reúne produtores de 60 marcas, que fabricam de 50 quilos a 4 toneladas por mês. Lasevicius, que produz 200 quilos de chocolate com a sua marca por mês e chega a pagar quatro vezes o preço de Nova York pelo cacau fino, diz que a esperança dos chocolatiers é fazer um pacto com os produtores parceiros.

Anna Paula Losi, presidente da Associação das Indústrias Processadoras de Cacau do Brasil (AIPC), diz que o preço do cacau está alinhado com o mercado internacional e reflete mais um ano de déficit de matéria-prima. Na sexta-feira, a Organização Internacional do Cacau (ICCO) estimou que a safra global 2023/24 (outubro de 2023 a setembro de 2024) poderá ter déficit de 374 mil toneladas, o terceiro consecutivo.

Indústria processadora de cacau no Brasil reconhece que período é de menor entrada de cacau, mas garante que não há falta de produto — Foto: Wenderson Araujo/CNA
Indústria processadora de cacau no Brasil reconhece que período é de menor entrada de cacau, mas garante que não há falta de produto — Foto: Wenderson Araujo/CNA

Segundo Losi, este período tradicionalmente é o de menor entrada de cacau do Brasil devido à entressafra, “mas as indústrias continuam comprando e estão pagando o que o mercado pede.” Ela afirma que não há falta de produto, nem fábricas paradas e que as indústrias estão abastecidas. “Não vai impactar a Páscoa porque a matéria-prima foi encomendada no ano passado.”

Em 2023, as indústrias no Brasil processaram 253 mil toneladas de cacau, sendo 220 mil de matéria-prima nacional.

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