É possível pensar em desenvolvimento econômico sem bem-estar social? Assim como ocorre no estado vizinho, Ceará, a Paraíba vive debates públicos acerca de indicadores e narrativas de desenvolvimento estadual.
Divergências de interpretações de indicadores econômicos colocaram o governo do estado, por meio da figura de Marialvo Laureano, e o economista Erik Figueiredo em faces opostas de uma mesma moeda. Enquanto um reverbera o otimismo oficial de números apresentados pelo governo, outro levanta questionamentos sobre os dados e o que de fato merece estar no centro do debate sobre desenvolvimento econômico.
Otimismo oficial x críticas estruturais
A disputa de narrativas começou com o governo do estado comemorando números focados na gestão fiscal e no crescimento econômico. Segundo dados do Tesouro Nacional, o estado registrou R$ 4,054 bilhões em disponibilidade líquida de caixa, o 3º maior valor do país.
Já Erik Figueiredo possui uma visão mais crítica em relação ao superávit apresentado. “Como é que foi feito o caixa da Paraíba? É levando os impostos, jogando impostos nas costas da população, sem se preocupar com os efeitos disso, tanto no bem-estar das pessoas como na dinâmica econômica”, afirma Erik.

Além do equilíbrio fiscal, o governo também celebrou dados da Resenha Regional do Banco do Brasil, indicando que a Paraíba deve crescer 3,5% em 2026, superando a média do Nordeste (2,2%) e do Brasil (2%). Segundo a estimativa, o movimento deve ser conduzido pelo setor de serviços, que deve crescer 3,7%, agronegócio (2,7%) e a indústria, que tem projeção positiva de 2,3%.
O economista Erik Figueiredo pondera. Ele afirma que o PIB oficial é calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e, portanto, os números celebrados pelo governo são apenas projeções apresentadas pelo Banco do Brasil. Ele também ressalta a necessidade da Paraíba ter seu próprio cálculo do PIB.
“O ideal seria que a Paraíba tivesse capacidade própria para calcular o seu PIB com uma defasagem de dois meses no máximo. Como acontece aqui em Goiás, nós calculamos o PIB mensal com defasagem de dois meses e nós sabemos dizer exatamente quais são os componentes do PIB no estado”, explica Erik.
Em relação ao crescimento do PIB acima da média regional e nacional, o economista ainda ressalta que a participação da Paraíba no PIB nacional ainda está abaixo de 1%. “O fato da Paraíba crescer, isso não quer dizer que ela está desempenhando melhor do que outros estados. Fazendo esse recorte quando eu falo de participação no PIB do Nordeste e do Brasil, nós observamos que a Paraíba vem desempenhando muito mal”.
Por fim, outro ponto central na discordância está no número de pessoas empregadas na Paraíba. De um lado, o governo do estado comemora recordes no número de empregos criados. Segundo o Ministério do Trabalho e Previdência, o estado criou em sete anos, período da atual gestão, mais de 1,3 milhões de empregos formais, com saldo de 144 mil postos e um estoque total de 545 mil.
A gestão também afirma que reduziu a taxa de desocupados em 33,3% Segundo dados do IBGE, houve uma redução de 51 mil pessoas no número de pessoas desocupadas da Paraíba no 4º trimestre de 2025.
Erik relativiza esse dado ao afirmar que o número de trabalhadores informais no estado teve um crescimento acentuado. Em artigo publicado no Jornal da Paraíba, o economista afirma que o número de pessoas ocupadas na informalidade no estado passou de 776.356 para 825.339 nos últimos sete anos. Uma variação positiva de 6,31%, maior que no Nordeste (4,5%) e no Brasil (4,96%).
O alto número de informais traz à luz um outro indicador preocupante para o especialista. Na Paraíba, 9,1% da renda domiciliar per capita é oriunda de programas sociais, o que põe o estado entre os 10 mais dependentes do país.
O economista defende que gerar mais oportunidades para que pessoas passem a depender menos de transferências governamentais é essencial na luta contra a desigualdade.

“Para aliar crescimento econômico e desigualdade, você tem que ter um estímulo de geração de oportunidades para que as pessoas passem a depender menos de transferências governamentais e de programas sociais. Então, crescimento e inclusão social são a face da mesma moeda. Você tem que trabalhar para que essas pessoas sejam inseridas e tenham uma porta de saída desses programas sociais”, conclui o economista.
Embate sem vencedores
O antagonismo entre o economista Erik Figueiredo e o secretário Marialvo Laureano não resulta em uma leitura mais apropriada do que a outra. Essa é a interpretação do economista Rodrigo Jovê. Ele acredita que tanto o economista como o governo do estado possuem bons e corretos argumentos e que se complementam em vários aspectos.
“Vejo que existem duas óticas que se complementam. Ambas com verdades e ambas defendendo as visões de mundo. A análise é multidisciplinar e possivelmente sem vencedores. Pois, no fim, o que importa é o crescimento do estado. Focar em A, B ou C recairá num discurso de descredibilidade de alguma das partes”.
No fim, como explica Rodrigo Jovê, o que importa é o crescimento do estado. Contudo, crescimento não se resume a frieza de números e estatísticas, é preciso observar o impacto direto dele na vida da população. Discussões como a vigente ao propósito de reflexão, questionamentos e, em última instância, melhoria de políticas públicas e econômicas.