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13 de julho de 2026 06:02

BNDES amplia crédito para pequenos negócios e reforça desenvolvimento no Nordeste

BNDES amplia crédito para pequenos negócios e reforça desenvolvimento no Nordeste

Expansão do financiamento de longo prazo fortalece micro, pequenas e médias empresas e reacende o debate sobre o papel do crédito no desenvolvimento regional
Foto: Pixabay

O Nordeste começou 2026 com um salto no acesso ao crédito de desenvolvimento. As aprovações do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para a região somaram R$ 3,38 bilhões no primeiro trimestre, crescimento de 98,2% sobre o mesmo período de 2025, com protagonismo das micro, pequenas e médias empresas, responsáveis por R$ 2,2 bilhões, cerca de 65% dos financiamentos aprovados para a região.

Os recursos atenderam projetos nos setores de infraestrutura, comércio e serviços, agropecuária e indústria. O banco também ampliou o apoio à inovação: desde 2023, o programa BNDES Mais Inovação movimentou R$ 1,47 bilhão em 880 operações no Nordeste. Esse avanço do crédito na região é resultado de uma estratégia adotada pelo Governo Federal e pelo BNDES para ampliar o acesso ao financiamento, afirma a diretora de Crédito Digital para Micro, Pequenas e Médias Empresas e Gestão do Fundo Rio Doce do banco, Maria Fernanda Ramos Coelho.

“A iniciativa buscou reduzir desigualdades históricas na distribuição dos recursos e garantir que empresas nordestinas tivessem maior acesso às linhas de financiamento. Passamos a ter um orçamento dedicado para a região Nordeste. Isso garante que parte dos recursos fique reservada para os projetos da região, evitando que eles sejam totalmente absorvidos por outras localidades antes mesmo de amadurecerem”, esclarece.

Além da reserva de recursos, a diretora destaca que o banco passou a oferecer condições mais vantajosas para financiamentos destinados ao Nordeste, tornando mais barato investir na região do que em outras partes do país. “Hoje, comprar uma máquina em Alagoas pode ser mais barato do que comprar em São Paulo, porque as condições financeiras para o Nordeste foram diferenciadas.”

Outra frente da estratégia foi aproximar o banco dos empreendedores. Como o BNDES não possui agências próprias, a instituição intensificou a capacitação de bancos parceiros, cooperativas de crédito e agências de fomento nos nove estados nordestinos, além de promover oficinas presenciais por meio do programa BNDES Mais Perto de Você. Segundo Maria Fernanda, esse trabalho permitiu ampliar a capilaridade do crédito e aproximar as empresas das instituições financeiras responsáveis pela operação das linhas.

“Capacitamos as equipes que estão na ponta, atendendo empresários em todos os estados do Nordeste, para que conhecessem melhor as linhas do banco e pudessem orientar quem busca financiamento”, enfatiza.

A diretora ressalta que outro avanço importante foi a criação do Fundo Garantidor BNDES-Sebrae, voltado especialmente às micro e pequenas empresas. O mecanismo reduz um dos principais entraves ao crédito: a dificuldade de apresentar garantias exigidas pelas instituições financeiras. “O fundo garantidor amplia o leque de empresas que conseguem acessar o crédito. O Sebrae organiza essa demanda e oferece orientação para que o empreendedor escolha o financiamento mais adequado ao seu negócio.”

Foto: Pixabay

Os efeitos da estratégia também aparecem na interiorização do crédito. Em Alagoas, por exemplo, o BNDES registrou operações aprovadas em 64 municípios em 2025, o equivalente a cerca de 63% das cidades do estado.

Para a diretora, o fortalecimento do crédito também deve impulsionar a inovação entre os pequenos negócios nordestinos. Ela destaca que o programa BNDES Mais Inovação, ampliado recentemente para atender também produtores rurais e trabalhadores da pesca, oferece financiamento para digitalização, compra de máquinas e modernização dos processos produtivos. “Essa é uma linha muito importante porque permite aumentar a produtividade das empresas. Hoje ela financia desde equipamentos industriais até soluções de informática e tecnologias para o meio rural”.

Segundo Maria Fernanda, o banco busca estimular diferentes setores da economia regional. No primeiro trimestre de 2026, os financiamentos contemplaram infraestrutura, comércio e serviços, agropecuária e indústria, demonstrando uma distribuição diversificada dos recursos.

Nova dinâmica de desenvolvimento

O crescimento das operações do BNDES para micro, pequenas e médias empresas no Nordeste representa uma mudança relevante na dinâmica do desenvolvimento regional, avalia o economista Chico Rosário. Segundo ele, o diferencial está no perfil do financiamento, oferecido por um banco de fomento que opera com taxas de juros mais baixas do que as praticadas pelo mercado, ampliando a capacidade de investimento das empresas.

“Esse tipo de financiamento dá um fôlego maior para as empresas. São bancos de fomento de verdade, não bancos comerciais. Isso melhora o tecido empresarial, permite mais investimentos e favorece a dinâmica do desenvolvimento regional”, explica. Na mesma linha, o analista do Sebrae Alagoas, Fábio Leão, afirma que a ampliação do crédito responde a uma demanda histórica dos pequenos empreendedores nordestinos, que durante décadas tiveram acesso restrito a linhas de financiamento de longo prazo.

“O aumento da expansão do financiamento responde diretamente a essa demanda histórica por crédito de longo prazo, um gargalo estrutural que limitava os investimentos e a competitividade do empreendedorismo no Nordeste”, afirma.

Rosário explica que o impacto desse movimento vai além do aumento do volume de recursos. Para ele, ao substituir financiamentos caros por linhas com juros subsidiados, as micro e pequenas empresas conseguem fortalecer sua estrutura financeira e criar condições para crescer de forma mais sustentável.

“Quando você toma financiamento com juros muito altos, boa parte da margem da empresa vai embora para pagar a dívida. Com juros menores, como os do BNDES, a empresa consegue organizar melhor sua estrutura financeira e aumentar sua capacidade de crescimento”, garante.

Foto: Pixabay

Na prática, Leão observa que esse acesso ao crédito reduz uma das principais fragilidades dos pequenos negócios: a falta de capital para investir e manter as atividades. Segundo ele, o financiamento estruturado permite modernizar processos, investir em tecnologia, ampliar a produtividade e aumentar a competitividade. “Em uma região economicamente mais vulnerável, o crédito de longo prazo funciona ao mesmo tempo como um escudo de sobrevivência e um motor de eficiência para os pequenos negócios.”

O analista acrescenta que os reflexos extrapolam o ambiente empresarial. Como as micro e pequenas empresas concentram grande parte dos empregos formais do Nordeste, o fortalecimento desse segmento tende a impulsionar a economia dos municípios, especialmente no interior da região.

Leão destaca que agroindústria familiar, turismo, economia criativa, transição energética e serviços tecnológicos estão entre os setores com maior potencial para transformar o crédito em desenvolvimento econômico. “O potencial de transformação é enorme, mas ele depende de um ambiente favorável aos negócios. Além do crédito, é preciso investir em qualificação, inovação e fortalecer o ecossistema de apoio aos empreendedores”, destaca.

Apesar do cenário favorável, Rosário pondera que o crédito, isoladamente, não é suficiente para transformar a realidade econômica do Nordeste. Para ele, os recursos precisam ser acompanhados de assistência técnica e orientação gerencial para que os empreendedores consigam investir de forma estratégica.

“Não basta dar dinheiro. É preciso acompanhar os resultados. Se a empresa não souber investir de forma inteligente, ela se endivida e pode até fechar. O crédito precisa vir acompanhado de assistência técnica e gerencial”, afirma. É justamente nessa integração que, segundo o economista, ainda existe uma lacuna. Ele defende uma atuação mais articulada entre BNDES, Banco do Nordeste, Sebrae e agências estaduais de desenvolvimento para ampliar a eficiência das políticas públicas voltadas aos pequenos negócios.

“O Sebrae faz uma coisa, o BNDES pulveriza crédito, mas muitas vezes essas ações não se encontram. Uma política que integrasse BNDES, Banco do Nordeste, Sebrae e as agências de desenvolvimento locais potencializaria muito mais o impacto desses recursos para as micro e pequenas empresas”, acrescenta.

Leão compartilha da visão de que o acesso ao financiamento precisa estar aliado ao fortalecimento do ambiente de negócios. Para ele, além de ampliar os fundos garantidores e reduzir entraves burocráticos, é necessário investir na formação dos empreendedores para que o crédito resulte em crescimento sustentável.

“Sem qualificação e educação voltadas aos negócios, muitos desses setores continuarão sendo apenas potenciais de desenvolvimento. É preciso combinar crédito, capacitação e um ambiente institucional capaz de apoiar quem empreende”, resume.

Em Alagoas, esse potencial passa especialmente pelo fortalecimento do turismo e da agropecuária, áreas apontadas pelo próprio BNDES como estratégicas para ampliar a geração de emprego, renda e valor agregado. A expectativa é que a ampliação do crédito permita transformar essas vocações em novos investimentos e oportunidades de desenvolvimento regional.

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