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10 de julho de 2026 11:42

Atração de investimentos pauta disputa eleitoral no Piauí mas desigualdade e interiorização desafiam narrativa governista

Atração de investimentos pauta disputa eleitoral no Piauí mas desigualdade e interiorização desafiam narrativa governista

Estratégia do governo Rafael Fonteles (PT) para atrair capital privado e modernizar a economia deve dominar o debate eleitoral de 2026, enquanto adversários devem concentrar suas críticas à distribuição dos benefícios do crescimento e ao alcance das políticas públicas
Palácio de Karnak, Sede do governo estadual do Piauí | Foto: Wikipedia Commons

O Piauí chega ao ciclo eleitoral de 2026 com a economia ocupando um espaço central na disputa pelo Palácio de Karnak. A agenda construída pelo governador Rafael Fonteles (PT), baseada na atração de investimentos, na digitalização dos serviços públicos e na transição energética, consolidou uma nova narrativa sobre o desenvolvimento do estado e deve ser um dos principais ativos da campanha governista. Ao mesmo tempo, esse modelo também fornece à oposição um conjunto de argumentos para questionar se os resultados econômicos anunciados têm sido suficientes para alterar a realidade da maior parte da população.

O debate tende a extrapolar a comparação entre indicadores econômicos. A disputa passa a envolver diferentes interpretações sobre o próprio conceito de desenvolvimento. Enquanto o governo deve assumir a narrativa de que o fortalecimento da economia cria as condições para ampliar renda, emprego e arrecadação no longo prazo, o principal argumento para os adversários seria que o sucesso da estratégia deve ser medido pela capacidade de reduzir desigualdades, ampliar o acesso aos serviços públicos e interiorizar oportunidades.

Essa discussão também aparece na produção acadêmica. No estudo “Empreendedorismo e Políticas Públicas para o Desenvolvimento Socioeconômico do Piauí: Panorama, Caracterização de Organizações e Políticas de Fomento”, os pesquisadores Rhubens Ewald Moura Ribeiro e Janaina Carlos de Sousa Marques concluem que o estado conseguiu estruturar um conjunto consistente de políticas públicas voltadas ao desenvolvimento econômico, baseado em planejamento de longo prazo, inovação e estímulo ao empreendedorismo. Ao mesmo tempo, os autores destacam que a consolidação desse modelo depende do fortalecimento do acesso ao crédito, da ampliação das oportunidades para micro e pequenos negócios e da redução das desigualdades regionais, temas que também tendem a ocupar espaço no debate eleitoral.

O tripé da estratégia econômica de Fonteles

A Investe Piauí se tornou a principal estrutura de articulação entre o governo e a iniciativa privada, acompanhando desde a prospecção de empresas até a implantação dos empreendimentos. Entre 2023 e 2025, foram captados 120 projetos com previsão de R$ 44,7 bilhões em aportes concentrados principalmente nos setores de energias renováveis, agronegócio e mineração.

A energia renovável também se tornou um dos principais argumentos do governo para atrair novos empreendimentos. Com capacidade instalada de cerca de 9 gigawatts diante de um consumo interno de pouco mais de 1 gigawatt, o estado passou a apresentar esse excedente como vantagem para atrair data centers, plantas de hidrogênio verde e indústrias de aço de baixo carbono.

Outra frente da gestão está na digitalização da administração pública. A unificação dos serviços estaduais na plataforma Gov.PI, a instalação de Pontos de Acesso Público com internet gratuita e a expansão do programa Piauí Saúde Digital , que já ultrapassou 1,5 milhão de atendimentos e alcançou todos os municípios do estado, fazem parte do esforço pela modernização.

Na avaliação de Ribeiro e Marques, esse conjunto de iniciativas representa uma mudança na forma como o Piauí conduz sua política de desenvolvimento. Em vez de ações isoladas, o estado passou a estruturar uma estratégia integrada que combina atração de investimentos, incentivo ao empreendedorismo, desburocratização, infraestrutura e inovação tecnológica para ampliar sua competitividade.

Esse modelo também fortalece a narrativa do governo de que o Piauí deixou de disputar investimentos apenas com estados vizinhos para competir em cadeias globais ligadas à economia verde e à transformação digital.

O crescimento econômico ainda convive com desafios estruturais

Se os indicadores econômicos oferecem sustentação ao discurso governista, eles também evidenciam os principais desafios que deverão ser explorados pelos adversários durante a campanha.

O Piauí continua registrando o maior nível de desigualdade de renda do país. Enquanto os 10% mais ricos possuem rendimento médio próximo de R$ 9,6 mil mensais, a parcela mais pobre da população vive com aproximadamente R$ 608 por mês. Essa diferença permite que a oposição questione até que ponto os investimentos anunciados conseguem produzir melhorias concretas para a maioria da população.

Os autores do estudo fazem uma observação semelhante, embora reconheçam os avanços na construção de um ambiente favorável aos investimentos e ao empreendedorismo. Ribeiro e Marques apontam que a democratização do acesso ao crédito continua sendo um dos principais obstáculos para ampliar os efeitos dessas políticas. Micro e pequenos empreendedores ainda enfrentam dificuldades para acessar financiamento, especialmente fora dos principais polos econômicos.

Essa limitação dialoga diretamente com uma das principais críticas feitas pela oposição, que afirma existir um descompasso entre os grandes anúncios de investimentos e a realidade enfrentada por muitos municípios do interior. Questões relacionadas ao abastecimento de água, infraestrutura básica e acesso a serviços públicos continuam presentes em diversas regiões do estado.

O cenário torna-se ainda mais complexo diante das mudanças climáticas. Enquanto mais de cem municípios convivem com períodos de seca severa que afetam agricultura, pecuária e abastecimento de água, outras cidades sofrem com enchentes, destruição de estradas e perdas agrícolas durante os períodos de chuva intensa. Esses fatores aumentam a pressão para que o crescimento econômico seja acompanhado por investimentos capazes de aumentar a resiliência dos municípios.

Os mesmos indicadores que hoje sustentam a narrativa de sucesso do governo também devem servir de base para questionamentos de seus adversários durante a campanha. As críticas tendem a se concentrar, sobretudo, na distribuição dos benefícios do crescimento e na priorização da atração de investimentos diante de desafios persistentes em áreas como saúde, infraestrutura e serviços públicos. No fim, a disputa eleitoral tende a se concentrar menos no volume de investimentos anunciados e mais na capacidade de demonstrar como esses resultados chegam, ou podem chegar, ao cotidiano da população.

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