
Apesar do forte potencial agrícola e da expertise em pesquisa, o Nordeste ainda segue subrepresentado nos registros de tecnologias sustentáveis. Pelo menos é o que aponta o levantamento do Observatório de Tecnologias Verdes do INPI. Segundo o estudo, a região representa apenas 13% dos pedidos de patente depositados no Brasil na área de agricultura sustentável.
Diante das crescentes preocupações com a pauta ambiental, a agricultura sustentável representa uma das principais vias na tentativa de descarbonizar a economia brasileira, aliando tecnologia e sustentabilidade. Combatendo as mudanças climáticas por meio de inovações que visam garantir a segurança alimentar utilizando sistemas produtivos eficientes e inclusivos. Neste cenário, o Observatório de Tecnologias Verdes, coordenado pelo INPI, disponibiliza dados para análises sobre o desenvolvimento da bioeconomia nacional.
De acordo com o Observatório, o Nordeste é a terceira região no quesito inovação tecnológica, com apenas 159 dos 1.205 pedidos de patentes brasileiros (13%). A região está à frente do Centro-Oeste, que possui 116 pedidos (10%) e Norte, com 29 pedidos de patente (2%). Por outro lado, o Nordeste ainda está muito atrás do Sudeste, com 612 (51%); e do Sul, que tem 363 pedidos de patente (30%).
De acordo com o parâmetro comparativo IBID 2025, indicador multidimensional sintético e oficial da inovação no Brasil, alinhado à metodologia do Índice Global de Inovação (Global Innovation Index – GII), da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI), a situação é ainda pior para o Nordeste. Segundo o indicador, que é um índice geral de performance em inovação, o Nordeste está em 4° lugar, atrás do Sudeste, do Sul e do Centro-oeste.
O cenário retratado pelo IBID 2025 evidencia a concentração dos maiores índices de inovação nas regiões Sudeste e Sul. Segundo o índice, todos os estados do Nordeste apresentam desempenho abaixo da média nacional nos sete pilares do IBID. Embora as discrepâncias sejam um pouco menores nas áreas de ‘Infraestrutura’, ‘Instituições’ e ‘Economia’, nenhum estado supera a média nessas categorias. Essa uniformidade de indicadores abaixo da média simboliza lacunas persistentes no fortalecimento dos sistemas locais de inovação no Nordeste, apontando para a necessidade de políticas integradas que promovam a superação dessas defasagens estruturais”. De acordo com números do IBID, o Rio Grande do Norte e Pernambuco são as economias mais inovadoras do Nordeste, estando em 12º e 13º lugar, respectivamente.
Para o professor da Universidade Federal de Sergipe, Tiago Branquinho, a disparidade financeira em relação a outros centros é um dos motivos para a região não conseguir traduzir a relevância agrícola em inovação tecnológica.
O pesquisador lembrou que a maior parte dos recursos vem das Fundações de Amparo à Pesquisa (FAPs), e evidenciou a discrepância de valores entre regiões. Segundo ele, a FAPESP (São Paulo) opera com um orçamento anual na casa dos R$ 2,3 bilhões (vinculado a 1% da receita tributária do estado), já fundações do Nordeste, como a nossa FAPITEC, muitas vezes contam com dotações que variam entre R$ 15 e 25 milhões.
“Sem esse “combustível” constante, o pesquisador nordestino gasta mais tempo lutando pela manutenção básica do laboratório do que focando no depósito da patente. O Sul e Sudeste possuem um ecossistema onde o erro é financiado; aqui, o erro pode significar o fim de uma linha de pesquisa”, afirma o pesquisador.
Além disso, o professor também comenta que a pouca participação do setor privado nordestino no campo de pesquisa e desenvolvimento (P&D) é um entrave para o surgimento de mais inovações. Ele afirma que sem as empresas locais desenvolvendo a demanda por patentes, a universidade pública acaba sendo uma ilha solitária de inovação. “Muitas vezes a ciência produzida em nossas universidades é de excelência mundial (como vemos na UFS), mas ela morre antes de virar patente por falta de infraestrutura de escala”, afirma Tiago.
Segundo dados do INPI, entre os pedidos de patente que apresentam pelo menos um titular do tipo “pessoa jurídica”, apenas 8% têm co-titularidade entre empresas e instituições da administração pública e/ou entidades sem fins lucrativos. No Sudeste, as entidades empresariais participam de 44% dos pedidos de patentes, enquanto que na região Nordeste este número está abaixo dos 20%.
| ENTIDADES EMPRESARIAIS | ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA | ENTIDADES SEM FINS LUCRATIVOS | TOTAL | |
| Sudeste | 268 (44%) | 173 (28%) | 15 (2%) | 612 (100%) |
| Sul | 149 (41%) | 90 (25%) | 13 (4%) | 363 (100%) |
| Nordeste | 29 (19%) | 100 (65%) | 11 (7%) | 153 (100%) |
| Centro-oeste | 57 (49%) | 39 (34%) | 7 (6%) | 116( 100%) |
| Norte | 4 (14%) | 21 (72%) | (0%) | 29 (100%) |
| Brasil | 465 (39%) | 389 (32%) | 41 (3%) | 1.205 (100%) |
Piores condições de pesquisas, verbas pequenas para inovação e uma baixa adesão de empresas da região são alguns dos principais gargalos do Nordeste, que mesmo com os obstáculos continuam formando um número crescente de doutores, de acordo com dados da CAPES e CNPq. Para Tiago, essa é uma prova que o problema da região não passa por uma falha de competência, mas por reflexo de uma arquitetura de financiamento e industrialização que ainda é profundamente centralizada.
Dados
Segundo o INPI, foram coletados dados de pedidos de patentes depositados no Brasil desde 2012 até novembro de 2025. Ao todo, foram catalogados 6.300 documentos relacionados à agricultura sustentável, com cerca de 1.205 pedidos de patentes com ao menos um titular brasileiro.
Em termos globais, o Brasil é o segundo maior país no quesito, ficando atrás dos Estados Unidos, que possuem 2.515 pedidos registrados. Contudo, ao olhar os estados de origem das tecnologias, os números brasileiros emitem um alerta. Isso porque há uma discrepância muito grande entre os números da região Sudeste e Sul (que juntas somam cerca de 80% dos pedidos de patente), em comparação com o restante do país.
Ao todo, a região Nordeste contribuiu com pouco mais de 150 pedidos de patentes, menos da metade do número registrado no estado de São Paulo, que obteve 375 pedidos. Entre os estados nordestinos que mais se destacam estão a Bahia (31 pedidos), Pernambuco (30) e Sergipe (19).
Para Tiago, essa distância do Nordeste para outras regiões do Brasil impacta diretamente na competitividade da região. Ele explica que com poucos investimentos, o produtor nordestino gasta uma parte considerável do seu lucro pagando royalties e licenças para empresas do Sul, Sudeste ou do exterior, incluídas nos valores dos insumos e tecnologias, e alerta para o risco de um enfraquecimento ainda maior na região.
“Sem patentes verdes nascidas e criadas no Nordeste, corremos o risco de usar soluções ineficientes para os nossos desafios ambientais específicos, podendo perder produtividade, e a falta de empresas de base tecnológica (startups e indústrias de P&D) faz com que esse investimento público em educação acabe sendo perdido pela evasão dos pesquisadores e inventores de excelência do Nordeste para outras regiões do Brasil”, explica Branquinho.
No Nordeste, não falta talento ou competência, mas há um longo caminho a ser percorrido para superar os gargalos históricos e se aproximar da produção de inovação de outras regiões do Brasil.
