
Em 2025, o Nordeste apresentou uma distribuição proporcional maior de dispositivos intrauterinos (DIUs) do que o Sudeste. Foram 430,5 DIUs destinados para cada 100 mil mulheres na região, frente a 374,33 no Sudeste, segundo dados do Ministério da Saúde. O indicador considera a relação entre a quantidade de dispositivos disponibilizados e o tamanho da população feminina, funcionando como um termômetro da alocação de recursos públicos na política de saúde reprodutiva.
Quando se observa a conversão dessa oferta em procedimentos efetivos, no entanto, o cenário se inverte. O Sudeste realizou 71.010 inserções de DIU ao longo do ano, enquanto o Nordeste contabilizou 25.947. Ajustados à população feminina, os dados indicam que, no Sudeste, foram feitas cerca de 161,6 inserções para cada 100 mil mulheres, contra aproximadamente 87,5 no Nordeste. Ou seja, embora receba proporcionalmente mais dispositivos, o Nordeste apresenta uma taxa de inserção mais do que duas vezes menor.
Na prática, os números revelam uma diferença entre a distribuição do insumo e a capacidade do sistema de saúde de transformar esse investimento em atendimento. A discrepância sugere gargalos estruturais, como a disponibilidade de profissionais capacitados, a oferta de serviços ambulatoriais e a infraestrutura da rede pública, que limitam o uso efetivo do método contraceptivo e reduzem o retorno social do gasto público.
O que isso pode significar?
A distância entre oferta e utilização ajuda a explicar por que o maior acesso a métodos contraceptivos no Nordeste não se reflete, necessariamente, em melhores indicadores de saúde reprodutiva. Dados da Pesquisa Nacional de Aborto – Brasil, de 2021, indicam que a ampliação da distribuição de contraceptivos na região não esteve acompanhada de uma redução proporcional das taxas de aborto, o que aponta para limitações no acesso efetivo aos serviços.
Esse cenário se soma a uma percepção crescente de fragilidade do sistema de saúde. Levantamento do GLOBO/Ipec mostra que, em 2022, 41% da população nordestina passou a considerar a saúde um dos principais problemas do país — um aumento expressivo em relação a quatro anos antes, quando a região era a que menos via o tema como prioritário. O dado sinaliza um agravamento da sensação de insuficiência dos serviços públicos, inclusive em áreas preventivas, como a saúde sexual e reprodutiva.
A dimensão econômica desse quadro aparece de forma mais clara nos dados do IBGE, de 2020, que apontam que o Nordeste concentra quase 50% da população brasileira em situação de pobreza. A escassez de recursos financeiros, o acesso desigual a serviços médicos de qualidade e a infraestrutura limitada dificultam a efetividade de políticas públicas e ampliam os custos indiretos do sistema de saúde, especialmente quando comparados a regiões com maior capacidade instalada, como o Sudeste.
Nesse contexto, a percepção da saúde como um problema central se alinha aos obstáculos enfrentados pelas mulheres para acessar métodos contraceptivos e outros serviços essenciais. A baixa taxa de inserção do DIU, apesar da maior distribuição, expõe não apenas um desafio social, mas também uma ineficiência na execução da política pública.
Debate em relação ao aborto
As limitações no acesso à saúde reprodutiva também se refletem nos dados sobre aborto. Informações da plataforma de aborto do jornal AzMina indicam que, entre janeiro e dezembro de 2024, Sudeste e Nordeste registraram números semelhantes de internações decorrentes de aborto: 51.759 no Sudeste e 51.347 no Nordeste, uma diferença de apenas 412 casos.
O dado chama atenção diante da disparidade populacional entre as duas regiões. Segundo o Censo de 2022, o Sudeste abriga 88,6 milhões de habitantes, enquanto o Nordeste soma 58,4 milhões; uma diferença de 30,2 milhões de pessoas. Em termos proporcionais, portanto, o número de internações no Nordeste tende a ser mais elevado, o que implica maior pressão sobre a rede pública de saúde.
A Pesquisa Nacional de Aborto – Brasil realizada pela Universidade de Brasília (UnB) em parceria com o Instituto Anis, reforça esse diagnóstico ao apontar que as maiores taxas de aborto por repetição estão concentradas nas regiões Norte e Nordeste. O levantamento indica que a maioria dessas mulheres é negra e vive em contextos de alta vulnerabilidade social. Mais de 40% delas precisaram ser hospitalizadas para concluir o procedimento, evidenciando os riscos e os custos associados à prática em contextos de acesso limitado a serviços seguros.
Embora os dados sobre aborto no Brasil sejam limitados, uma vez que a prática é legal apenas em situações específicas, o conjunto das informações sugere uma relação direta entre vulnerabilidade social, acesso desigual à saúde reprodutiva e maior número de internações. A menor taxa de inserção do DIU no Nordeste, apesar da maior distribuição do método, integra esse cenário e ajuda a explicar por que a ampliação da oferta, isoladamente, não tem sido suficiente para reduzir riscos, custos e desigualdades regionais.