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19 de maio de 2026 06:02

Entre o aperto no bolso e o risco sistêmico: inadimplência mais severa acende alerta no Nordeste

Entre o aperto no bolso e o risco sistêmico: inadimplência mais severa acende alerta no Nordeste

Crescimento dos atrasos acima da média nacional revela não apenas mais famílias endividadas, mas um agravamento da qualidade das dívidas, com impacto direto sobre consumo, crédito e pequenos negócios da região

O avanço da inadimplência no Nordeste no fim de 2025 começou a preocupar economistas não apenas pelo volume de famílias em atraso, mas pelo perfil cada vez mais grave dessas dívidas. Dados do boletim macroeconômico regional do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV IBRE) apontam que a inadimplência na região cresceu 5,2% no último trimestre do ano passado, acima da média nacional, de 4,0%. No mesmo período, o crédito avançou apenas 4,3%, sinalizando uma desaceleração nas concessões e maior cautela das instituições financeiras.

O cenário revela uma deterioração qualitativa do endividamento: famílias permanecem mais tempo inadimplentes, recorrem a linhas de crédito mais caras e encontram maior dificuldade para reorganizar suas finanças. O resultado é um efeito em cadeia que já impacta comércio, geração de renda e pequenos negócios na região.

Segundo Isadora Osterno, pesquisadora do Centro de Estudos para o Desenvolvimento do Nordeste da FGV IBRE, a alta da inadimplência está ligada à fragilidade estrutural da renda regional diante da inflação e do aumento do custo de vida.

“O comportamento da inadimplência no Nordeste reflete uma vulnerabilidade maior da renda regional diante da volatilidade dos preços. Embora o nível de ocupação tenha se mantido estável em 2025, o rendimento médio das famílias não avançou na mesma proporção que os custos de bens e serviços essenciais”, explica.

A pesquisadora destaca que o perfil de consumo nordestino, mais concentrado em despesas básicas, amplia o impacto da inflação sobre o orçamento doméstico. “Qualquer pressão inflacionária reduz rapidamente a margem de manobra financeira do consumidor. Isso faz com que as famílias recorram a linhas de crédito emergenciais, que possuem juros mais elevados”, afirma.

Na prática, isso significa que parte crescente das famílias entra em um estágio considerado mais crítico de inadimplência: atrasos superiores a 90 dias. São dívidas classificadas como de longo prazo, normalmente associadas à perda de acesso ao crédito e ao comprometimento severo da renda.

“Quando o orçamento aperta, o pagamento de faturas de cartão é suspenso para garantir despesas essenciais, como energia, água e alimentação. O consumidor passa a viver exclusivamente da renda imediata, o que reduz drasticamente o consumo e trava a mobilidade econômica daquela família”, diz Isadora.

O economista e professor da ESPM Jorge Ferreira dos Santos Filho avalia que o fenômeno vai além de uma oscilação momentânea da economia e evidencia fragilidades históricas do Nordeste.

“O avanço da inadimplência não pode ser explicado apenas por fatores conjunturais. Juros elevados e inflação intensificam o problema, mas os dados revelam limitações estruturais profundas da economia regional”, afirma.

Entre essas fragilidades, ele destaca a elevada subutilização da força de trabalho. Segundo o economista, a taxa regional ficou entre 22% e 23% no quarto trimestre de 2025, muito acima da média nacional, além de cerca de 1,6 milhão de pessoas em situação de desalento (quando o trabalhador desiste de procurar emprego).

Outro fator apontado é o perfil do crédito utilizado pelas famílias. Modalidades sem garantia, como cartão de crédito e crédito pessoal, predominam entre consumidores de menor renda. Embora o cartão represente aproximadamente 20% da carteira de crédito da região, concentra cerca de 43% dos inadimplentes.

“O rotativo do cartão é o exemplo mais extremo desse processo. Enquanto o consignado gira em torno de 40% ao ano, o rotativo pode ultrapassar 350% anuais. Pequenas dívidas crescem rapidamente e se tornam praticamente impagáveis”, explica Jorge.

O cenário em que o crédito desacelera enquanto os atrasos continuam crescendo é interpretado pelos especialistas como um sinal de deterioração mais avançada do ciclo financeiro. Mesmo com menos empréstimos novos sendo concedidos, o estoque de dívidas antigas continua pressionando famílias e bancos.

“As instituições financeiras operam com modelos de risco que antecipam a deterioração econômica. O crescimento mais contido do crédito mostra que os bancos estão sendo mais criteriosos na seleção de tomadores”, afirma Isadora.

Segundo ela, o endurecimento das concessões acaba criando um efeito colateral relevante: famílias perdem a capacidade de renegociar ou “rolar” dívidas antigas, prolongando os índices elevados de inadimplência.

Para Jorge Ferreira, esse movimento também reflete o fim de um ciclo de expansão mais agressiva do crédito nos últimos anos, impulsionado por fintechs, ampliação do consignado e crescimento da oferta de cartões.

“Muitas famílias contrataram crédito em um período de forte expansão financeira. Agora enfrentam dois choques simultâneos: renda comprimida pela inflação e vencimento das parcelas acumuladas durante o pico de endividamento”, analisa.

Os efeitos dessa inadimplência mais severa já começam a atingir pequenos negócios, especialmente em cidades médias e no comércio de bairro, altamente dependentes do consumo das famílias.

“A inadimplência gera retração no comércio local. Como o consumo das famílias é o principal motor dos pequenos negócios, a queda do poder de compra afeta diretamente o fluxo de caixa das micro e pequenas empresas”, afirma Isadora.

Além da queda nas vendas, pequenos empreendedores enfrentam maior dificuldade de acesso a capital de giro. Em muitos casos, o próprio comércio absorve parte da inadimplência por meio de crediários, parcelamentos e vendas fiadas.

“Muitas microempresas acabam funcionando como financiadoras dos próprios clientes. Em um ambiente de renda pressionada e juros elevados, esse risco financeiro aumenta significativamente”, explica Jorge.

O receio entre economistas é que o cenário permaneça pressionado ao longo de 2026. A avaliação é que a recuperação financeira das famílias tende a ocorrer em ritmo mais lento do que a deterioração observada nos últimos anos.

“As projeções indicam que o primeiro semestre de 2026 ainda será de ajustes. Para reverter essa tendência, é necessária uma combinação de estabilidade nos preços e melhora real da massa salarial”, afirma Isadora.

O professor da ESPM acrescenta que a reversão do quadro depende de mudanças mais estruturais na economia regional. Entre as medidas defendidas pelos especialistas estão a ampliação do emprego formal, maior acesso a crédito com garantia, fortalecimento da educação financeira e investimentos em setores capazes de elevar a produtividade regional.

“O Nordeste possui potencial relevante em áreas como energia renovável, agronegócio irrigado, turismo e economia criativa. Mas a recuperação sustentável exige uma modernização mais ampla da estrutura produtiva e da geração de renda”, afirma.

Enquanto isso não acontece, a inadimplência segue como um dos principais sinais de alerta da economia nordestina, não apenas pela quantidade de famílias endividadas, mas pelo grau de fragilidade financeira que começa a se consolidar na região.

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