No quintal, no curral ou no pequeno criatório, decisões que antes pareciam distantes da realidade da agricultura familiar começam a fazer parte da rotina de produtores alagoanos. A escolha por animais geneticamente superiores, melhorias estruturais e planejamento produtivo deixou de ser exceção e passou a integrar o dia a dia de quem vive da terra. Esse movimento tem sido impulsionado pelo acesso ao microcrédito orientado do programa Agroamigo, do Banco do Nordeste, que vem reposicionando o perfil produtivo da agricultura familiar no estado.

Mais do que liberar recursos financeiros, o Agroamigo atua como uma ponte entre o produtor e o conhecimento técnico. “O fator central é orientar o produtor sobre as suas atividades, ampliar o acesso ao conhecimento e fortalecer a ligação familiar dentro do campo”, explica o agente de crédito rural Erik Cavalcante, da unidade de Palmeira dos Índios. Segundo ele, o trabalho começa antes mesmo da formalização do crédito e segue ao longo de todo o ciclo produtivo.
Essa aproximação acontece, literalmente, dentro das propriedades. “A gente faz a visita na casa do produtor, entende qual é a área que ele atua, que tipo de projeto pretende desenvolver e se aquilo tem viabilidade econômica. É um contato humanizado, que nos permite traçar o perfil do produtor e orientar o crédito adequado”, afirma.
Crédito que acompanha, não apenas financia
Diferentemente dos modelos tradicionais de financiamento rural, o microcrédito do Agroamigo é estruturado para acompanhar o produtor. “Não é um crédito engessado, nem mecanizado, nem excessivamente burocrático. Ele é orientado e acompanhado desde a palestra informativa, passando pela visita técnica, até o acompanhamento após a liberação”, destaca Erik Cavalcante.
Esse acompanhamento contínuo influencia diretamente a qualidade das decisões de investimento no campo. Ao entender a realidade da propriedade, os agentes conseguem orientar o produtor sobre a melhor forma de aplicar os recursos, evitando endividamentos desnecessários e estimulando investimentos que tragam retorno econômico.
“O crédito precisa ser propício para aquele cliente. Nosso objetivo é que ele tenha êxito na produção, consiga pagar o financiamento e renovar o projeto de forma gradativa”, explica o agente.

A porta de entrada para a inovação genética
A ampliação das linhas do Agroamigo, aliada ao novo Plano Safra e ao aumento do limite do Pronaf B para R$ 20 mil, abriu espaço para que pequenos produtores invistam em inovação produtiva. Entre os principais avanços está o acesso ao melhoramento genético do rebanho.
“Muitas pessoas não tinham acesso à genética melhorada por conta do valor ou até da falta de informação. Hoje, o produtor pode financiar um animal puro de origem, adquirir sêmen, investir em genética e melhorar a produtividade”, explica Erik. O crédito pode ser direcionado para diversas cadeias produtivas, como suinocultura, caprinocultura, ovinocultura, bovinocultura e avicultura.
A lógica por trás desse investimento é simples: produzir mais e melhor com menos. “Um animal com genética definida, aliado a um bom manejo e a um ambiente adequado, produz mais em menos tempo, com melhor custo-benefício e acesso mais rápido ao mercado”, resume.
Quando a mudança chega à propriedade
Na prática, esse reposicionamento produtivo já é sentido por agricultores familiares como Simone Ferreira, de Quebrangulo. Há 23 anos na atividade, ela atua na criação de suínos de alta genética, como Pietran, Landrace e Large White, todos puros de origem.
Para Simone, o acesso ao crédito orientado foi decisivo para transformar a produção. “Só com o Agroamigo conseguimos fazer o melhoramento genético e investir na estrutura”, relata. O impacto não ficou restrito à qualidade do rebanho. “Isso proporcionou também o aumento na quantidade de animais”, acrescenta.
A experiência reflete um movimento mais amplo no campo alagoano: menos improviso, mais planejamento e uma produção orientada para resultados.
Produzir melhor, não apenas produzir mais
Do ponto de vista econômico, a transição de modelos baseados na quantidade de animais para sistemas mais eficientes tem sido um dos focos do programa. Segundo Erik Cavalcante, essa mudança passa por critérios técnicos e pela capacidade de pagamento do produtor.
“Um animal mais precoce, com genética melhor, se destaca mais rápido no mercado. Mas isso precisa estar alinhado ao manejo, à alimentação e ao ambiente. Tudo gira em torno do manejo adequado”, explica.
O acompanhamento técnico permite avaliar se a propriedade tem condições de sustentar esse tipo de investimento, garantindo que o ganho produtivo se converta em renda.
Para além da porteira, programas como o Agroamigo também dialogam com uma estratégia maior de desenvolvimento regional. A cientista política Luciana Santana avalia que o microcrédito orientado se insere na interseção entre inclusão financeira, produção agrícola e melhoria da qualidade de vida no Nordeste.

“Em regiões onde apenas uma pequena parcela do esgoto é tratada e milhões dependem de soluções alternativas, o microcrédito acaba funcionando como instrumento de infraestrutura e inclusão produtiva”, analisa.
Ela observa que políticas com impacto direto tendem a gerar visibilidade política. “Há risco de apropriação política, como acontece com outras políticas públicas. Por isso, mecanismos de transparência e controle social são fundamentais”, afirma.
Ainda assim, a literatura aponta para a resiliência desses programas quando vinculados a instituições sólidas. “Quando associados a instituições fortes, como o Banco do Nordeste, e com alto impacto na redução da pobreza, tendem a se consolidar como políticas de Estado, mesmo com oscilações de recursos ao longo dos ciclos políticos”, destaca.
Planejamento como novo ativo do campo
No cotidiano das propriedades, o impacto mais imediato do microcrédito orientado é a possibilidade de planejar. Com juros reduzidos, acompanhamento técnico e bonificações para quem mantém as parcelas em dia, o produtor passa a enxergar o crédito como ferramenta de crescimento, e não apenas de sobrevivência.
“Nosso intuito é fornecer um crédito de fácil acesso, rápido e que realmente funcione para aquele produtor”, resume Erik Cavalcante.
Em Alagoas, esse processo vem redesenhando o perfil da agricultura familiar. Propriedades menores, mas mais eficientes, começam a ganhar espaço, mostrando que acesso à informação, orientação técnica e crédito podem caminhar juntos na construção de um campo mais produtivo e sustentável.