
A disputa ao Governo de Pernambuco traz ao centro do debate a condução do modelo econômico e fiscal do estado. Entre a necessidade de ampliação dos investimentos em infraestrutura e os limites impostos pelas contas públicas, a discussão abrange a atração de capital privado, o papel dos incentivos fiscais e as estratégias para a redução das disparidades regionais.
Em conversa com o Investindo Por Aí, especialistas das áreas de economia e ciência política avaliam os desafios do estado na disputa direta entre Raquel Lyra (PSD) e João Campos (PSB). Para eles, os programas das candidaturas competitivas registram pontos de convergência pragmática, enquanto estabelecem distinções na intensidade dos instrumentos de gestão e no alinhamento político.
O debate sobre a atração de empreendimentos e a geração de empregos em Pernambuco passa diretamente pelas regras de incentivo fiscal. De acordo com André Felipe Canuto Coelho, professor do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), a implementação do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) no âmbito da Reforma Tributária reduzirá a importância da tradicional disputa de ICMS entre os estados. Segundo o economista, a nova conjuntura exigirá que a competitividade do estado seja sustentada por fatores estruturais. “Pernambuco terá de competir cada vez mais pela qualidade da infraestrutura, disponibilidade de água e energia, logística, mão de obra qualificada, segurança jurídica, inovação e rapidez administrativa. Nesse sentido, a Reforma pode até ser uma oportunidade para substituir uma competição baseada em renúncia fiscal por outra baseada em produtividade”, analisa.
O financiamento da infraestrutura, com destaque para setores como saneamento e mobilidade, coloca em pauta a utilização de Parcerias Público-Privadas (PPPs) e concessões. No plano técnico e político, o uso desses instrumentos apresenta diagnósticos correlatos entre os analistas.

Para o economista, a participação do capital privado não deve ser interpretada sob um viés estritamente ideológico. Diante do volume de recursos exigido para grandes obras, as parcerias atuam como mecanismo de antecipação de investimentos, cabendo ao setor público demonstrar a vantagem econômica em relação ao investimento estatal direto, além de manter as atribuições de planejamento, regulação e fiscalização.
Na perspectiva da ciência política, Paulo Ramirez, professor do curso de Ciências Sociais e de Consumo da ESPM, pontua que a utilização de PPPs e desestatizações já se encontra consolidada em diferentes espectros partidários no Brasil, citando o marco legal aprovado ainda na primeira gestão do governo federal nos anos 2000. “Na prática, o que se observa hoje é uma combinação entre recursos públicos e privados para financiar e executar grandes obras. Nesse aspecto, PSB e PSD não apresentam diferenças significativas. Ambos reconhecem a necessidade de atrair investimentos privados para ampliar a capacidade de investimento do Estado, especialmente em áreas de infraestrutura”, comenta Ramirez.
Estilos diferentes de gestão
A construção das narrativas dos candidatos explicita diferenças no estilo de gestão e nas articulações com a esfera federal. A atuação da governadora Raquel Lyra (PSD) tem sido marcada pelo discurso de contenção de despesas, eficiência gerencial e responsabilidade fiscal. Por outro lado, o grupo associado ao ex-prefeito do Recife, João Campos (PSB), vincula sua agenda à criação de empregos por meio de atração de investimentos privados, eventos e parcerias com o setor do turismo, mantendo a tradição do partido de aliar a pauta social ao controle de gastos públicos.
No âmbito das alianças nacionais, ambos professores reforçam que a relação com o Governo Federal constitui fator relevante. Sendo o Nordeste uma região de elevado apelo eleitoral para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o alinhamento político é visto como um ativo de governabilidade e viabilidade eleitoral.
De acordo com Ramirez, João Campos beneficia-se do fato de seu partido integrar formalmente a base aliada do governo federal. Já Raquel Lyra, apesar de integrar legenda com posições heterogêneas no cenário nacional, preserva canais de diálogo e cooperação institucional com Brasília, evitando uma postura de oposição direta que traga prejuízos ao repasse de verbas federais.
Ao avaliar a recepção das propostas econômicas pelo eleitor pernambucano, o cenário analítico aponta para a relevância das políticas públicas sociais.
Conforme ressalta o professor da ESPM, embora a eficiência administrativa e o incentivo ao empreendedorismo possuam apelo, candidaturas competitivas no estado demandam a integração dessas agendas a um projeto claro de investimento social. Em uma população com parcela expressiva de menor renda, a percepção de resultados imediatos na geração de trabalho, renda e na prestação de serviços públicos diretos mantém-se como condicionante central na escolha eleitoral.
